Tecendo a vida umas coisitas – 309

PITADAS DE SAL – 39 



O CALDO DE PEDRA 

Caríssima/o: 

Quem não conhece este conto? 
Certamente não é novidade para ninguém… Agora que tem a ver com o sal? 
Acompanhemos o Frade: 

«Um frade andava no peditório. Chegou à porta de um lavrador, mas não lhe quiseram aí dar nada. 
O frade estava a cair de fome e disse: 
- Vou ver se faço um caldinho de pedra. 
E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra e pôs-se a olhar para ela, como para ver se era boa para um caldo. 
A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança. Diz o frade: 
- Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa. 
Responderam-lhe: 
- Sempre queremos ver isso. 
Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, pediu: 
- Se me emprestassem aí um pucarinho... 
Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro. 
- Agora, se me deixassem estar a panelinha aí, ao pé das brasas... 
Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, disse ele: 
- Com um bocadinho de unto é que o caldo ficava a primor! 
Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada com o que via. 
O frade, provando o caldo: 
- Está um nadinha insosso. Bem precisa duma pedrinha de sal. 
Também lhe deram o sal. Temperou, provou e disse: 
- Agora é que, com uns olhinhos de couve, ficava que até os anjos o comeriam. 
A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves. O frade limpou-as, ripou-as com os dedos e deitou as folhas na panela. Quando os olhos já estavam aferventados, arriscou: 
- Ai! Um naquinho de chouriça é que lhe dava uma graça!... 
Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço. Ele pô-lo na panela e, enquanto se cozia, tirou do alforge pão e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo. 
Comeu e lambeu o beiço. 
Depois de despejada a panela, ficou a pedra no fundo. 
A gente da casa, que estava com os olhos nele, perguntou-lhe: 
- Ó senhor frade, então a pedra? 
- A pedra... Lavo-a e levo-a comigo para outra vez. 
E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.» 

Teófilo Braga - Contos Tradicionais Portugueses 

Manuel

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