sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A Nossa Gente: Padre Manuel Ribau Lopes Lé


Padre Lé (Foto de Manuel Olívio)

O sacerdote tem de se dar
até ao fim da vida


Um dia destes, de calor de Verão em pleno Outono, fui à procura do meu amigo e antigo confidente Padre Manuel Ribau Lopes Lé, mais conhecido por Padre Lé, que serviu a Igreja na Gafanha da Encarnação até há pouco tempo. Sentado num sofá, recebe-me de olhos bem abertos. Os olhos que sempre lhe conheci. Cedo, porém, percebi que o Padre Lé, com o peso dos 87 anos de idade e das canseiras, de mistura com recentes achaques, estava fragilizado.
A recomendação que me acolheu indica que a memória recente tinha dado lugar à mais antiga, para onde ele encaminha, já com alguma dificuldade, as conversas sobre a sua vida sacerdotal.


Depois de concluída a escola primária, com o professor Oliveira, segue as pisadas dos pais, cujas artes, na marinha de sal e na lavoura, lhe ensinam como era a vida dura daqueles tempos.
Por essas alturas, nutre admiração pelo Prior Guerra. Olhava-o com respeito, media todos os seus gestos quando celebrava a missa em latim, pesava as palavras que ele lhe dirigia no confessionário e em ocasionais encontros. E um dia, numa eucaristia, sonha ser padre. “Quero ser padre como o Prior Guerra”, pensou. Mas como haveria de dizer aos pais? Estariam eles dispostos a aceitar a sua decisão? Uma coisa ele sabe: o pai concordaria sempre com a mãe. “Porquê? – indaguei. O Padre Lé olha-me, fixamente, sorri e diz: “A minha mãe era Ribau!”
Um dia, a caminho duma terra que tinham nas Crastas [lugar agrícola da Gafanha da Nazaré], percebe que a mãe está bem-disposta. Seria boa altura? “Mãe, quero ir para padre”, diz a medo.
A mãe, calada por instantes, que foram decerto uma eternidade, olha para ele e pergunta: “O quê? Isso é a sério?” “É”, afirma ele com convicção.
Segue-se a conversa com o Prior Guerra e, feito o requerimento, entra no Seminário da Imaculada Conceição da Figueira da Foz, da Diocese de Coimbra, a que pertencíamos, em 1936, com 14 anos de idade.
Passa depois pelos Seminários de Coimbra, de Aveiro [a Diocese fora restaurada em 1938] e de Cristo Rei dos Olivais.
É ordenado presbítero em 20 de Setembro de 1947, no Bunheiro, na vigília de São Mateus, por D. João Evangelista de Lima Vidal, Bispo de Aveiro, de quem guarda gratas recordação. Quando o questiono sobre isso, diz-me: “Éramos unha com carne.”
No dia 28 do mesmo mês, celebra Missa Nova na matriz da Gafanha da Nazaré. Recorda esse dia com um sorriso a encher-lhe o rosto, magro como sempre foi: “O Padre Guerra celebrava missa ao nascer do sol, em ponto, e eu sabia disso; cheguei atrasado, porque o Dinis Caçoilo, um amigo meu, quis levar-me de carro e eu fiquei à espera dele; quando entrei na sacristia, o nosso prior disse-me: ‘Começas bem, Manel!’” E uma gargalhada ténue soa, na entrevista, para encerrar a questão.
Foi coadjutor daquela freguesia, com o Padre Domingos da Silva Pinho, “que era um santo, humilde, homem de oração e sempre sem dinheiro, porque dava o que tinha aos mais pobres.” E acrescenta: “Certo dia, estavam a organizar uma peregrinação a Roma e o Padre Domingos não se inscreveu, porque não tinha dinheiro; eu então disse-lhe: vai e vai mesmo; eu trato do assunto; e tratei.”
Préstimo e Macieira de Alcoba, no Arciprestado de Águeda, recebem o Padre Lé durante cinco anos. Um dia, de férias em Á-dos-Ferreiros, da paróquia do Préstimo, de visita à igreja, olhámos para um crucifixo de madeira. Logo recebemos a explicação de quem tinha a chave do templo: “Aquele crucifixo foi feito, à navalha, pelo Padre Ribau [como também era conhecido]”. Percebemos, então, que a habilidade completa e rara que ele tinha pelas artes manuais e técnicas era um dom que cultivou com esmero.
Entra na freguesia da Gafanha da Encarnação em Outubro de 1957, no domingo de Cristo Rei. Até 11 de Outubro de 2009, data em que toma posse, como pároco, o nosso prior, Padre Francisco Melo.
Quem acompanhou de perto o Padre Lé, reconhece, perfeitamente, que sempre foi um sacerdote de fé firme, com a noção dos seus deveres de pastor. Vivo, dinâmico, atento, capaz de dar o conselho certo na hora exacta, orante e fiel aos seus paroquianos. Daí as homenagens que lhe prestaram.
Reconhece que o Concílio Vaticano II foi uma porta que se abriu ao mundo. Houve algumas dificuldades em aceitar as decisões que a Igreja tomou, “mas com o tempo tudo se foi resolvendo”, garantiu-nos.
Agora, ao olhar para o Padre Lé, com as debilidades próprias de trabalhos sem peso e medida que levou toda a vida, concretizando um sonho alimentado desde menino, de amor à Igreja e ao seu Senhor e Mestre, Jesus Cristo, ainda lembramos as vezes que o encontrámos, qual mestre-de-obras ou engenheiro civil, em cima de andaimes, na construção da matriz da Gafanha da Encarnação. Reparação que fosse preciso executar, de imediato punha mãos à obra. E logo a seguir, ouvia em confissão quem o procurava e celebrava missa. Patente na sua entrega a convicção de que o sacerdote tem de se dar até ao fim da vida.

Fernando Martins

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Auto de Delimitação da Freguesia da Gafanha da Nazaré


“No primeiro de Maio de mil novecentos e onze, neste lugar da Gafanha da Nazaré, sede da nova freguesia da Gafanha, deste concelho de Ílhavo, onde compareceu o cidadão Samuel Tavares maia, administrador do mesmo concelho, comigo Augusto do Carmo Cardoso Figueira, escrivão do seu cargo, e bem assim os cidadãos Manuel Branco de Lemos, parocho da freguesia de Ílhavo, João Ferreira Sardo, parocho da freguesia da Gafanha, Eduardo Craveiro, presidente da Comissão Municipal Administrativa deste concelho, José Ferreira de Oliveira, presidente da Comissão Parochial da freguesia da Gafanha e João dos Santos Patoilo, presidente da Freguesia de Ílhavo, para em cumprimento do ofício do Excelentíssimo Governador Civil, número quatrocentos e trinta de doze de Abril último se proceder à delimitação da freguesia da Gafanha, criada por decreto de vinte e cinco de Junho de mil novecentos e dez. Em seguida ele administrador e os mencionados cidadãos passaram a fazer a delimitação da nova freguesia da Gafanha pela seguinte forma: Ao norte e nascente é limitada pela ria d’Ílhavo à barra de Aveiro; ao poente pelo Oceano Atlântico; ao sul uma linha que passa no ponto intermédio das casas d’abitação de Manuel Gandarinho Novo (Norte) e Vicente da Silva Vidreiro (Sul) seguindo em reta pela aresta sul do moinho de Manuel Martinho e prolongando-se atravez do pinhal e areias até vir encontrar o segundo aqueduto da estrada de Ílhavo à Gafanha a contar deste aqueduto por onde passa a vala chamada do «Engeitado» até à ria. E assim deram por concluída a referenciada delimitação. Do que para constar se lavrou o presente auto que depois de lido vai ser assinado por ele administrador e pelos mencionados cidadãos. E eu Augusto do Carmo Figueira, secretário da administração que o escrevi e assino. Samuel Tavares Maia, Manuel Branco de Lemos, João Ferreira sardo, Eduardo Craveiro, José Ferreira de Oliveira, João dos santos Patoilo, Augusto do Carmo Cardoso Figueira.

Está conforme.

Administração de Ílhavo, 18 de Agosto de 1911.

O Admi. do Concelho

Samuel Tavares Maia"

Lugar do
selo branco
NOTA – Pensamos que há lapso na data da criação da freguesia, quando se diz que foi a 25 de Junho. Todos os outros documentos referem 23 do mesmo mês.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

GAFANHA DA NAZARÉ: Rua Camilo Castelo Branco


Rua Camilo Castelo Branco


Um escritor que todos os portugueses conhecem




Homenagem merecida a um dos grandes escritores da Língua Portuguesa. Penso que não há nenhum português, minimamente letrado, que não conheça O Amor de Perdição, obra famosa de Camilo Castelo Branco.
Não consta que o escritor, falecido em 1890, com 65 anos de idade, alguma vez tenha passado por esta nossa terra, ainda longe de figurar no mapa de Portugal com o título de freguesia, o que só aconteceu, como os leitores do Timoneiro sabem, em 1910. De qualquer forma, e porque é hábito no nosso País baptizar as ruas com nomes de gente célebre, compreende-se, perfeitamente, a lembrança, para quem passa, de Camilo Castelo Branco.
Desde a minha juventude que me deixei seduzir pelas estórias, com enredos, ora simples ora complicados, que Camilo, possuidor de uma escrita bastante rica, soube retratar nos seus livros, reproduzindo cenas e vidas do quotidiano, felizes ou dramáticas, na verdadeira acepção das palavras.
De tal modo que, ainda hoje, me encanta a releitura de obras suas, pela boa disposição que criam em mim. Algumas com uma actualidade ajustada a todos os tempos, sobretudo quando descreve a figura de políticos que deixaram tristes seguidores. Amores e desamores, paixões e paixonetas, adultérios e dramas pungentes, santos e pecadores, de tudo um pouco nos mostra Camilo em dezenas de livros, ou não vivesse ele daquilo que escrevia e publicava em tudo onde coubesse bom Português.
Camilo também protagonizou os seus dramas. Estudou, foi seminarista, valdevinos, conquistador, adúltero, polemista temido, visconde e escritor multifacetado: romancista, novelista, dramaturgo, poeta, cronista, etc.
Fugiu com uma senhora casada, Ana Plácido, atitude que o obrigou a esconder-se, andando com ela de terra em terra. Por fim, decerto cansado de viver em refúgios, cai na prisão da Relação, no Porto, onde terá delineado e escrito, em 15 dias, o célebre Amor de Perdição, baseado na vida de um apaixonado parente. Aí foi visitado pelo Rei D. Pedro V e se encontrou com o famoso Zé do Telhado, encontro esse que foi descrito em Memórias do Cárcere.
Em S. Miguel de Seide, onde viveu com Ana Plácido, um filho dela e dois filhos do casal (Jorge, doente mental, e Nuno, um irresponsável), começa a acentuar-se a perda de visão, recebe um oftalmologista de Aveiro, Dr. Edmundo Machado, que atendeu o pedido que o escritor lhe dirigiu, para que o fosse observar. Depois da consulta, Ana Plácido acompanhou o médico à porta. Camilo percebeu do oftalmologista a impossibilidade de cura para a sua cegueira. Pegou numa pistola e disparou um tiro na cabeça. Pouco passava das 15 horas do dia 1 de Junho de 1890. Morreu às 17 horas desse mesmo dia.

Fernando Martins

Saiba mais sobre Camilo














Camilo

domingo, 25 de outubro de 2009

Texto lido na apresentação do livro “Gafanha… O que ainda vi, ouvi e recordo”, de Maria Teresa Filipe Reigota




CADA UM DE NÓS É O ESPELHO DO SEU PASSADO




Hoje mesmo [sábado, 24-10-2009], por volta do almoço, recebi o convite para proferir umas palavras nesta festa comemorativa dos 25 anos do Rancho Regional da Casa do Povo de Ílhavo, mais especificamente centradas no livro “Gafanha… O que ainda vi, ouvi e recordo”, de Maria Teresa Filipe Reigota, ela própria co-fundadora, ao lado de seu marido, do Rancho Regional em festa.
Deixando agora essa qualidade, que não pode ser esquecida, apraz-me sublinhar que a Teresa, professora do Ensino Primário aposentada, sempre manifestou interesse pelas tradições que a enformaram. No contacto com colegas, com alunos e pais, com pessoas jovens e menos jovens, de todos foi bebendo, sei que com sofreguidão, as marcas indeléveis destes povos que fizeram história pelo seu trabalho insano, no desbravar de terras maninhas, ancinhando a ria à cata do moliço, e alisando dunas, teimosamente soltas, que depois se tornaram terras férteis.
O seu ADN alberga, seguramente, essa capacidade de trabalho, de entrega a causas, de amor ao torrão-natal. Mas também alberga uma simplicidade cativante, um sorriso acolhedor (como os seus alunos terão apreciado esse seu ar!) e uma enorme predisposição para o diálogo, onde o saber ouvir é fundamental.
Saliento estes dons, porque o fruto deles está bem patente no livro que acaba de ver a luz do dia, nesta nossa época em que o essencial é o presente. O passado é da história, dizem, e o futuro logo se verá, referem muitos.
Mas se olharmos bem, cada um de nós é um espelho do seu passado, espelho esse vocacionado para reflectir no futuro aquilo que de bom herdámos, numa perspectiva de uma sociedade mais fraterna, mais livre, mais culta, mais solidária.
Ora a Teresa, atenta à importância do passado para a construção do presente, servindo eles como alicerces do futuro dos nossos filhos e netos, pegou no que viu, ouviu e ainda recorda da sua meninice, adolescência e juventude, que se estende esta até aos tempos actuais, e com carinho escreveu um livro, que eu tive o privilégio de ler na fase manuscrita, com aquela caligrafia, bem medida, que decerto ensinou aos seus alunos. Fotografias aplicadas no sítio certo, títulos a condizer, tudo muito certinho.
Recolheu, seleccionou, catou por aqui e por ali registos, gravou estórias, ouviu gente que sempre teve e tem muito que contar, de vidas, de lutas e labutas, de alegrias, de dores, de horas sem sono, de trabalhos duros, de preocupações. Com a educação de filhos, com os tempos agrestes, com magras colheitas, com fé. E dessas vivências nasceram orações papagueadas, curas assentes em palavras, superstições para sarar medos. Mas também fé, mamada no colo de mães santas, como foram todas as nossas mães, que levou o humano a aproximar-se do divino, no dia-a-dia de pessoas simples, agarradas, como lapas, à terra que as convidara a amar e a sonhar num progresso mais feliz.
Com Teresa Reigota por guia, fui há dias de abalada até ao passado da minha meninice. Debaixo do braço, como suporte das minhas motivações culturais, levei a sua obra, escrita com o coração, direi mesmo com muita paixão. E pelos caminhos de terra batida cruzei-me com gafanhões de fé simples, quantas vezes cheia de superstições e crendices. Entrei em casas térreas pintadas pelo fumo da fogueira, que se escapava através das telhas, e apreciei cavadores na labuta diária de quem aposta em transformar dunas estéreis em terras produtivas. Cheirei panelas ao lume e saboreei o caldo de feijão, os rojões e a boroa a sair do forno.
Apreciei o ar donairoso de gente jovem que se preparava para ir à festa, com cantigas das modas de então. E de idosos ouvi lengalengas, religiosas e profanas, que aprendi a papaguear com facilidade. E compreendi a sabedoria e a coragem destes povos que fizeram a Gafanha, com tenacidade, para a deixarem de velas ao vento, como oferta sadia, a todos os ílhavos [gafanhões e ilhavenses], rumo a um futuro risonho.
Teresa Filipe Reigota ensinou-nos, com este labor, como se pesquisa e ouve, mas também como se lê e dialoga para aprender e divulgar. Com alegria, com memória fresca, com fidelidade, com prazer e com muito amor à sua terra e suas gentes.
“Gafanha… O que ainda vi, ouvi e recordo” é, como todas as obras deste género, um trabalho inacabado. Daí que me atreva a pedir-lhe que não ponha de lado este gosto pela cultura popular. Sei, tenho a certeza, que na arca das suas recordações, já há mais para mostrar, em futuras edições. Que ela consiga cativar gente jovem, de todas as idades, para mais trabalhos deste tipo. Com outros ângulos de visão, com outras leituras, com outras sensibilidades. E mais: que o seu exemplo se multiplique entre os Ranchos Folclóricos e Grupos Etnográficos. Nesta época de globalização, em que as culturas tendem a diluir-se num mundo que se transformou em pouco tempo numa aldeia, onde o tu cá tu lá em português passou a conversa de múltiplos linguajares, ali à esquina de cada rua, importa registar, por todas as formas, os usos e costumes dos nossos ancestrais. Penso que as futuras gerações saberão agradecer.

Fernando Martins




sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Acta da instalação e 1.ª sessão da Comissão Paroquial Administrativa da Freguesia da Gafanha

"Aos vinte e sete dias do mês de Outubro de mil novecentos e dez, na casa provisoriamente destinada às sessões da Comissão Paroquial da freguesia da Gafanha, concelho de Ílhavo, compareceram os cidadãos abaixo assinados nomeados membros daquela comissão por alvará do Governo Civil de Aveiro com data de vinte e quatro do corrente, e o cidadão Dr. Samuel Tavares Maia, administrador interino do concelho de Ílhavo que lhes conferiu a respectiva posse. Todos por sua honra juraram cumprir com os seus deveres de cidadãos da República Portuguesa e com zelo e patriotismo pugnarem pelo bem desta freguesia seguindo as normas da mais imparcial justiça e procurando por todos os meios ao seu alcance fomentar o desenvolvimento social, intelectual e material dos seus paroquianos.
Tendo tomado posse os membros efectivos da comissão constituíram-se imediatamente em sessão, nomeando secretário da mesma Manuel Nunes Ribau, e elegendo por escrutínio secreto o seu presidente e tesoureiro, recaindo a eleição respectivamente nos cidadãos José Ferreira de Oliveira e António Teixeira, e deliberando que as suas sessões se efectuarão no primeiro e terceiro domingo de cada mês pelas duas horas da tarde, provisoriamente em casa do vogal António Teixeira.
E mais nada havendo a tratar foi encerrada a sessão da qual se lavrou a presente acta que vai ser assinada por todos e por mim, Manuel Nunes Ribau, secretário, que a escrevi e assino.

O Presidente – José Ferreira de Oliveira
O Tesoureiro – (em branco)
O Secretário – Manuel Nunes Ribau
Jacinto Teixeira Novo
José Maria Fidalgo
Manuel Ribau Novo"

Notas:
1. O Tesoureiro António Teixeira não assinou esta acta por ter faltado á sessão n.º 2 de 6/11/1910. Veio a falecer algum tempo depois.
2. Esta Comissão Paroquial dirigiu os destinos da nossa terra desde 27/10/1910 até 31/12/1913
3. Em 2 de Janeiro de 1914 tomou posse a primeira Junta da Paróquia da Gafanha da Nazaré.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Santuário de Schoenstatt faz hoje 30 anos


D. Manuel sempre presente


Para a construção de um homem
 novo para uma nova sociedade



No dia 21 de Outubro de 1979 foi solenemente inaugurado o Santuário de Schoenstatt na Colónia Agrícola da Gafanha da Nazaré, em cerimónia presidida pelo Bispo de Aveiro, D. Manuel de Almeida Trindade. Faz hoje, portanto, 30 anos, cheios de muita fé e de muitos envios de peregrinos e membros, rumo à construção de um homem novo para uma nova sociedade.
A 25 de Março do mesmo ano, dia da inauguração da Casa das Irmãs de Maria, o nosso Bispo benzeu o terreno, onde, logo de seguida, se daria início à construção do santuário. Em 20 de Maio procedeu-se à bênção da Primeira Pedra e no dia 21 Outubro aconteceu então a grande festa.
A Primeira Pedra, a Pedra Angular, veio de Roma e foi abençoada pelo Papa João Paulo II. Tem incrustada na face frontal uma outra pedra trazida do túmulo de S. Pedro e sob a qual está gravada a inscrição Tabor Matriz Ecclesiae, que significa “Tabor da Mãe da Igreja”, que mais não é do que a missão deste Santuário da Mãe, Rainha e Vencedora Três Vezes Admirável de Schoenstatt.



Mãos à obra

Os grandes impulsionadores da construção foram, segundo diversos testemunhos, as Irmãs de Maria, à frente das quais se encontrava a Irmã Custódia, os Padres Miguel e António Borges e Vasco Lagarto.
A construção importou em cerca de mil contos, havendo a distinguir a contribuição, em trabalho e dinheiro, de todos quantos se encontravam sensibilizados para a vivência espiritual do Movimento.
Das diversas ofertas salientamos, pelo seu significado, as seguintes:

Altar – Instituto das Irmãs de Maria do Brasil
Imagem da Mãe – Instituto dos Padres de Schoenstatt de Portugal
Moldura Luminosa – Senhoras de Schoenstatt
Janelas – Casais do Movimento
Campanário – Mães de Salreu
Bancos – Um casal de Lisboa
Alicerces – Mães da Gafanha
S. Miguel – Padre Miguel e Mães
Custódia – Mães da Gafanha
S. Pedro e S. Paulo – Padres Diocesanos
Espada de S. Paulo – Rapazes do Movimento

Fernando Martins

Fonte: Monografia da Paróquia de Nossa Senhora da Nazaré,
de Manuel Olívio Rocha e Manuel Fernando da Rocha Martins

Fotos de Vasco Lagarto

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Erecção Canónica da paróquia da Gafanha de Nossa Senhora da Nazaré


Igreja em construção à data da criação da freguesia



“Vistos estes autos, etc. Pelo que d’elles consta mostra-se que muitos habitantes do logar da Gafanha, freguesia d’o Salvador de Ílhavo, no concelho do mesmo nome, d’esta Diocese, requerera a Sua Magestade El-Rei Houvesse por bem determinar que pelos meios competentes se procedesse à creação de uma nova parochia, com séde no dito logar da Gafanha e formada pelos povos do mesmo logar, o qual para esse fim será desanexado da referida freguesia de Ílhavo; Mostra-se que sua Magestade El-Rei atendendo a que a providencia reclamada é de grande conveniencia para o bem espiritual e temporal dos requerentes, sem prejuiso para a conservação da dita freguesia de Ílhavo, e conformando-se com os pareceres das superiores auctoridades ecclesiastica e administrativa e com a consulta do Supremo Tribunal Administrativo, Houve por bem por decreto de 23 de junho do corrente anno auctorisar a desanexação do referido logar da parochia a que actualmente pertence e a creação de uma parochia que com elle se pretende formar; – e – Attendendo a que pelo Ministerio dos Negocios Ecclesiasticos e da Justiça Nos foi enviada Copia auttentica do referido Decreto para procedermos ao respectivo processo de creação e erecção canónica.
Attendendo a que no mesmo Decreto se acha já arbitrada em cem mil reis annualmente a congrua ou derrama para o respectivo parocho da nova parochia;
Attendendo a que a Capella de Nossa Senhora da Nasareth do dito logar da Gafanha tem a capacidade conveniente, os paramentos, vasos sagrados e alfaias necessárias para servir provisoriamente de igreja parochial, enquanto se não conclue o novo templo, cuja construção se acha muito adiantada; e, finalmente, conformando-Nos com o parecer do M. R. Dr. Promotor do Bispado, proferido n’estes autos a folhas dez: – Julgamos legitimamente erecta e canonicamente instituida a referida freguesia da Gafanha, composta do logar da mesma denominação que será desanexado da freguesia d’O Salvador d’Ílhavo, d’esta mesma Diocese, tendo por orago Nossa Senhora da Nazareth, e ficando o respectivo parocho com a congrua annual de cem mil reis e com as mais benesses e emolumentos que forem de uso, direito e costume na freguesia da qual é desanexada.
O secretario da Nossa Camara Ecclesiastica dará por publicada esta nossa sentença e d’Ella tirará duas cópias para serem enviadas – uma ao Ministerio dos Negocios Ecclesiasticos e da Justiça, e outra ao Muito Reverendo Arcipreste de Aveiro que assim o participará ao R. Parocho da freguesia de Ílhavo para seu conhecimento e devidos effeitos.

Coimbra, 31 d’Agosto de 1910

Manuel, Bispo Conde”

sábado, 17 de outubro de 2009

As nossas tradições em livro



Um livro de Teresa Reigota

“Gafanha… O que ainda vi, ouvi e recordo”



“Gafanha… O que ainda vi, ouvi e recordo” é um livro de Teresa Filipe Reigota, natural da Gafanha da Nazaré e residente na Gafanha da Boavista, S. Salvador. Gafanhoa de gema, como gosta de afirmar, esta professora aposentada tem uma indesmentível paixão pela etnografia.
Com seu marido, o também professor aposentado João Fernando Reigota, funda o Rancho Regional da Casa do Povo de Ílhavo, em 1984. O envolvimento nas tarefas de recolhas, pesquisas e estudos, levou-a a sentir a necessidade de preservar e divulgar os usos e costumes das gentes que a viram nascer e das quais guarda gratas recordações. Assim nasceu o livro “Gafanha… O que ainda vi, ouvi e recordo”, que vai ser lançado no dia 24 de Outubro, sábado, pelas 21 horas, no Centro Cultural de Ílhavo, em cerimónia que encerra as celebrações das Bodas de Prata do Rancho Regional.
Sobre este livro pronunciar-me-ei numa outra altura, pois considero importante não só manifestar a agradável impressão que a sua leitura me suscitou, mas também estimular a nossa juventude para que se embrenhe nestes estudos, fundamentais à cultura da identidade do povo que somos e que queremos continuar a ser, sobretudo no que diz respeito à manutenção dos valores que enformam a nossa sociedade.
Garanto, aos meus amigos, que a leitura deste trabalho da Teresa Reigota, inacabado como todas as obras do género, suscitará em cada um a revivência de estórias iguais ou semelhantes às que a autora agora nos oferece. E como recordar é viver, estou em crer que todos aceitarão a minha proposta.

Fernando Martins

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A Hora da Saudade no Rádios Antigos no Ar


Pesca do Bacalhau

A Hora da Saudade, de que há meses falei no meu Pela Positiva, foi agora recordado pelo coleccionador António Rodrigues, no seu site Rádios Antigos no Ar. Tema para eu, como outros, reviver, porque o assunto, na época em que aconteceu, suscitava grande interesse. Hoje, praticamente, ninguém evoca a Hora da Saudade, que levava pelos ares a nossa voz emocionada e feliz, até junto de familiares que labutavam no alto mar por uma vida melhor para os seus.
Sou o primeiro a reconhecer a importância desses momentos únicos vividos na pacatez da nossa região, quase toda ela voltada, indelevelmente, para o Atlântico Norte, onde bravos marinheiros catavam e arrastavam o mar, com fome  dos bacalhaus, que seriam sustento de muita gente no nosso país, agora de olhares fixos, quase somente, no tratamento e comercialização do fiel amigo.
Sinto que por vezes perco tempo com algumas banalidades, quando podia, muito bem, envolver-me em questões mais pertinentes... mas a vida tem destas coisas. No meu blogue, contudo, há uma rubrica semanal, do meu amigo Manuel, que reflecte e nos oferece um lindo trabalho sobre a Pesca do Bacalhau, através dos tempos, e que aqui recomendo. Tudo isto para nos levar a pensar, mais a sério, no essencial à construção da nossa identidade.

FM

domingo, 4 de outubro de 2009

TECENDO A VIDA UMAS COISITAS – 149

O NAUFRÁGIO DO “MARIA DA GLÓRIA”
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Maria da Glória
 
 
Na sua colaboração habitual de todos os domingos, desde há bastante tempo, e sempre  lida com muito agrado e até com emoção, o meu amigo Manuel lembra-nos hoje o afundamento do navio-motor Maria da Glória, em 1942, por bombardeamente de um submarino alemão, em plena grande guerra. Pode ler aqui.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Ruas da Gafanha da Nazaré: Rua Raul Brandão


Rua Raul Brandão


O Cantor da Ria merecia muito mais



Quando há anos topei com a Rua Raul Brandão, confesso que fiquei triste. É verdade. Porque o escritor merecia muito mais. Eu sei que a relação das ruas a baptizar tinha sido feita, na sua grande maioria, numa noite. De modo que, quer queiramos quer não, não havia hipótese de escolher a rua, conforme a personalidade a homenagear.
E Raul Brandão, provavelmente, na minha óptica, o que melhor cantou a nossa ria, com referência assinalável à Gafanha, merecia mais do que uma ruazinha sem expressão, sem circulação de veículos que levasse as pessoas a falar dele.
A Rua Raul Brandão parte da Rua Sacadura Cabral (e não Secadura Cabral, como se lê numa placa) e dirige-se para a ria, sem lá chegar.
Raul Brandão canta no seu livro Os Pescadores, de forma única, a Ria de Aveiro. Andou por aqui para a conhecer, no dia 21 de Julho, e dias seguintes, de 1922. Alguns dias, certamente, porque de outra forma não seria possível pintar um quadro tão rico.
“A ria é um enorme pólipo com os braços estendidos pelo interior desde Ovar até Mira. (…) De um lado o mar bate e levanta constantemente a duna, impedindo a água de escoar; do outro é o homem que junta a terra movediça e a regulariza. (…) Abre canais e valas, semeia o milho na ria. Povoa a terra alagadiça, e à custa de esforços persistentes, obriga a areia inútil a renovar constantemente a vida. Edifica sobre a água, conquistando-a, como na Gafanha, onde alastra pela ria.
“(…) Ninguém vem aqui que não fique seduzido, e noutro país esta região seria um lugar de vilegiatura privilegiado. É um sítio para contemplativos e poetas: qualquer fio de água lhes chega e os encanta. É um sítio para sonhadores e para os que gostam de se aventurar sobre quatro tábuas, descobrindo motivos imprevistos.
“É também sítio para os que querem descobrir novas terras à proa do seu barco e para os que amam a luz acima de todas as coisas. Eu por mim adoro-a. É-me mais necessária que o pão. E é talvez o ponto da nossa terra onde ela atinge a beleza suprema. Na ria o ar tem nervos. (…) A luz aqui estremece antes de pousar…”
Pelo que disse e pelo que ficou por dizer, digam lá, meus caros conterrâneos, se Raul Brandão merecia ou não uma rua à medida da grandeza do escritor que ele foi?

Fernando Martins

POSTAL ILUSTRADO — RIA DOUTROS TEMPOS

O postal que reproduzo acima é mesmo um postal ilustrado, não com as cores naturais, mas com tonalidades que eram um luxo para a época....