segunda-feira, 30 de junho de 2008

Tempos de Guerra: A boroa para fazer sopas de café

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Da minha meninice recordo os dramas da segunda guerra mundial, também chamada guerra de 1939 – 1945, período durante a qual ela decorreu. Portugal ficou na chamada posição neutral, ora negociando com uns ora com outros. Não entrámos na guerra com armas e soldados, mas sofremos as consequências que uma qualquer guerra provoca nas sociedades.
Era eu menino, mas já sabia que por causa dela havia fome entre as camadas populacionais mais pobres. Das classes consideradas mais baixas, sob o ponto de vista social, os lavradores eram, apesar de tudo, os que menos fome sofriam, mas nem assim deixavam a situação de vida modestíssima, andando, normalmente, durante o dia-a-dia de trabalho nos campos, descalços e pobremente vestidos. Fato de fazenda e bem passado a ferro, só para ir à missa, que logo era despido e arrumado, porque tinha de durar anos e anos.
As pessoas sem lavoura, que eram muitas nas Gafanhas, tinham de comprar tudo o que se comia no dia-a-dia, nomeadamente a boroa, as batatas, as couves, o peixe e pouco mais. Havia, é certo, quem oferecesse as sobras do que a terra dava, em troca, frequentemente, de pequenos serviços, mas compras tinham sempre que ser feitas, à mediada das magras bolsas. Daí a fome que apoquentava muitas famílias, obrigando-as a ginásticas imaginativas nas modestas cozinhas, para enganar a barriga, como amiúde se dizia.
No tempo da guerra, a mercearia que se vendia nas tabernas, estabelecimentos onde se mercava de tudo, era racionada. Cada família tinha direito, conforme o agregado, a determinadas senhas, mediante as quais poderia adquirir o que lhes correspondia. E não se podia fugir disso.
Um dia, o João, vizinho mais velho do que eu, perguntou-me se não queria ir com ele à Barra, à padaria que havia ao lado do Farol, para comprar boroa. A viagem era aliciante, porque muito raramente nos afastávamos de casa. Com a autorização de minha mãe, lá o acompanhei.
Atravessámos a velha ponte de madeira, que ligava o Forte à Barra, e seguimos apressados, porque o João sabia bem que não era chegar e comprar. Tínhamos de esperar numa fila a nossa vez e se não fôssemos lestos, o meu vizinho corria o risco de ficar sem boroa.
Chegámos e a fila estava longa. Saía da padaria e prolongava-se pelo passeio lateral. A fila não era singela, mas compacta, o que levava a responder ao “quem é a seguir?” a dois ou três balconistas, patrão e empregados. Outro patrão andava de porta em porta e vender pão de trigo, numa bicicleta com cesto, de vime sem casca, de duas abas, que pendiam para cada lado do porta-bagagens.
À medida que nos aproximávamos do balcão, começámos a ouvir, com alguma insistência, as recomendações dos atendedores, ditadas maquinalmente, “leve menos, que a boroa não chega para toda a gente”. Mas todos atiravam, receosos, que havia em casa muitas bocas a comer, e nem sempre se via outra coisa na mesa, para além da boroa, que se tragava com café, que mais não era do que água tingida com cevada torrada moída.
Quando o meu amigo chegou ao balcão, entrou no magote de gente que protestava. Algumas mulheres até choravam. A boroa tinha acabado. “Que vou eu agora dar aos meus filhos?” – perguntava uma. Outras retiravam-se, em jeito de quem quer ir a outra padaria. O meu amigo ficou. Deixou que todos saíssem e, delicadamente, disse para o dono da padaria: “Venda-me, por favor, as migalhas!”
O padeiro varreu as migalhinhas, que restavam do partir da boroa na bancada de mármore, para um canto, com uma vassourinhas de giestas, meteu-as na saca de trapos com uma pá do lixo de folha, pesou-as e vendeu-as como se fosse um bocado do pão mais comido por estas bandas. O meu vizinho comentou-me satisfeito: “É a mesma coisa; já não é preciso esmigalhar a boroa para fazer sopas de café.”

Fernando Martins
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domingo, 22 de junho de 2008

Gafanha

Gafanha da Nazaré

De cada popa se vê um Portugal diferente

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“É certo que de cada popa se vê um Portugal diferente, conforme a latitude: verde e gaiteiro em cima, salino e moliceiro no meio, maneirinho e a rilhar alfarroba no fundo. Camponeses de branqueta e soeste a apanhar sargaço na Apúlia, marnotos a arquitectar brancura em Aveiro, saloios a hortelar em Caneças, ganhões de pelico a lavrar em Odemira, árabes a apanhar figos em Loulé. Metendo o barco pela terra dentro, é mesmo possível ir mais além. Assistir, em Gaia, à chegada do suor do Doiro, ver transformar em húmus as dunas da Gafanha, ter miragens nos campos de Coimbra, quando a cheia afoga os choupos, fotografar as tercenas abandonadas do Lis, contemplar, no cenário da Arrábida, a face mística da nossa poesia, ou cansar os olhos na tristeza dos sobreirais do Sado. Mas são vistas… Imagens variegadas dum caleidoscópio que vai mudando no fundo da mesma luneta de observação.”
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Miguel Torga
In PORTUGAL

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sexta-feira, 20 de junho de 2008

As Novenas

::S. João da Praia da Barra


Não é novidade para ninguém se dissermos que os nossos avós eram gente crente, de uma fé inquebrantável bebida no seio da família, onde as orações quotidianas tinham hora marcada. Ao levantar e ao deitar ficavam por conta de cada um, mas às refeições e antes da ceia eram momentos de oração colectiva, com o terço a marcar presença na grande maioria dos lares gafanhões. O pai ou a mãe, se aquele andava embarcado, ou um dos filhos orientava a reza do terço, onde no final eram recordados todos os familiares falecidos, com intermináveis orações por suas almas. Dessa fé me falou muitas vezes o tio João, também ele homem crente com preocupações de transmitir a quem o ouvia o que sabia das coisas da Igreja e da Bíblia.
Em dia de recordações, o que lhe era habitual, falou-me das novenas, que já estavam a cair em desuso. Eram promessas em que participavam nove jovens, rapazes e raparigas, para além da pessoa em dívida para com qualquer santo ou santa, ou mesmo Nossa Senhora. Também participei em algumas delas, motivo por que as recordo, com que saudade!, sabendo de antemão que alguma coisa passará, tantos são os anos que já se foram.
A “dona” ou o “dono” da promessa fazia os inevitáveis convites a nove meninos e meninas, ou só meninos ou só meninas, rapazes e ou raparigas, conforme o prometido, e no dia aprazado, normalmente ao domingo ou em qualquer dia santo de guarda, lá íamos em grupo, a pé, ora à Senhora da Saúde, na Costa Nova, ora à Senhora dos Navegantes, no Forte, ora ao S. João, na Barra, ora à Senhora de Vagos, onde rezávamos o terço e uma ou outra oração da devoção do organizador ou organizadora da novena, para depois se regressar.
Se a promessa era cumprida numa igreja ou capela das redondezas da Gafanha da Nazaré, regressávamos a casa onde nos era servido um pequeno lanche à base de tremoços, pevides e um ou outro bolito. Para regar o que se comia, bebia-se água do poço e em casos especiais lembro-me bem de ter bebido um pirolito (gasosa em garrafinha com uma bola de vidro a servir de rolha, fixa no gargalo pela pressão do gás do próprio líquido). Se era longe, a merenda era mesmo ali, no largo da capela ou da igreja, numa sombra qualquer, que naquelas idades nem se sentia a sua falta. Contavam-se umas histórias, cantavam-se umas cantigas, algumas religiosas e ao gosto da “dona” da novena, olhávamos uns para outras, e vice-versa, brincávamos, corríamos e saltávamos, e a um sinal da chefe estávamos de volta a casa, com uma tarde vivida de forma bem diferente, que naqueles tempos não havia televisões nem rádios para passar o tempo.
Quantas vezes, a organizadora da novena, talvez pelo gosto de se ver rodeada de gente nova, até marcava uma nova novena para o ano seguinte. É que, naqueles tempos, os “médicos” do corpo e da alma das pessoas, para além dos curandeiros, eram muitas vezes os santos e Nossa Senhora, a quem se recorria em horas de aflição. Que me lembre, nunca participei em qualquer novena em honra de Deus, Jesus Cristo ou Espírito Santo.
Diz o padre Resende, na sua Monografia da Gafanha, que “o povo da Gafanha, desde épocas remotas, vai em novena à Senhora de Vagos, a Santa Maria Madalena da Tabueira e do Rio Tinto e a outras igrejas e capelas circunvizinhas”. E refere que, “nas suas aflições”, os gafanhões recorriam sempre a Deus ou aos Santos, sendo, por vezes, o cumprimento das suas promessas “bastante penoso”.
Claro que os tempos são outros e hoje as novenas caíram em desuso, tão certo estou disso, por não as ver organizadas por esta Gafanha da Nazaré. Nas outras Gafanhas, não sabemos se ainda se mantêm, ou se também já foram trocadas por outras formas mais modernas de pagar promessas feitas em hora de aflições.
Não sei o porquê dessas promessas se apoiarem em nove meninos e meninas, rapazes ou raparigas, mas julgo que o número nove terá algum valor simbólico ou mágico, a que os antigos estavam muito agarrados. Lembro as devoções e as comunhões, durante nove meses, no primeiro sábado de cada mês, por exemplo, que na minha meninice eram muito frequentes.
As novenas, como outras promessas feitas pelos católicos, estavam também ligadas ao hábito de alguns quererem associar outras pessoas ou familiares às suas devoções. Eu próprio cumpri algumas promessas feitas por outras pessoas. Minha mãe fez várias promessas que eu achei por bem cumprir para a não desgostar. E não só por isso. Se me diziam directamente respeito, por que não haveria de colaborar com quem teve a bondade e a devoção de interceder junto de Nossa Senhora por mim?

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Fernando Martins

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quarta-feira, 18 de junho de 2008

As mulheres amanham a terra

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“Nas Gafanhas da Nazaré, da Encarnação, na d'Aquém, na do Carmo, na Vagueira,... em todas as Gafanhas de Ílhavo, as mulheres amanham a terra, durante o tempo (às vezes, dez meses por ano!) em que os homens pescam o bacalhau nos mares distantes da Terra Nova, da Gronelândia, da Costa do Labrador. Elas cavam, semeiam, ceifam e colhem: duramente, com sanha viril. E assim se bastam e aos filhos. Quando o marido vier da campanha, encontrará a casa cheia como um ovo; e branquinha, sem sombra de dívida: Então com a ajuda de Deus, ele poderá comprar mais um pedaço de terra.
É assim com o Ribau, com o Chibante... com muitos outros. Com o Sarabando, também gafanhão e dos sete costados, não será bem assim: muitos filhos e todos pequenos ainda. Mas já alguém o viu triste, ao nosso Sarabando? Eu cá, nunca. Pobrete, mas alegrete.”
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In "Nos mares do fim do mundo", de Bernardo Santareno
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terça-feira, 17 de junho de 2008

Espírito de entreajuda

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O primeiro dos 85 verbetes de outros tantos gafanhões que contribuíram, mais regularmente, para a construção da igreja matriz, que foi inaugurada em 1912 (In GAFANHA N.ª S.ª da Nazaré, de Manuel Olívio da Rocha e Manuel Fernando da Rocha Martins - edição de 1986)
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O tio João era um precioso poço de conhecimentos das pessoas das Gafanhas. Dirigia-se às pessoas, identificando-as pelo nome próprio, e a todas tratava por tu, como se fora avô respeitador e respeitado. Se eu queria conhecer alguma coisa do passado deste povo a que também pertencia, bastava lançar-lhe uma pergunta, como desafio. A partir daí, ele logo dissertava com saber e graça, relatando acontecimentos e hábitos, ao estilo de quem conta estórias que me transportavam aos tempos dos meus bisavós, que não conheci.
Muitas vezes me falou do espírito de entreajuda nas fainas agrícolas, no fabrico de adobes e na construção das casas, pois que, desde os primórdios da Gafanha, se cultivou o princípio de que “quem casa quer casa”. E dos róis de gado, associações mútuas que garantiam o pagamento do prejuízo causado pela morte do boi ou da vaca, animais que, para além da ajuda nos trabalhos agrícolas, eram o mealheiro dos agricultores.
Certa vez falou-me das tão badaladas rivalidades existentes entre os habitantes dos lugares da Chave e do Bebedouro, por causa da construção da igreja matriz, que foi inaugurada em 14 de Janeiro de 1912.
Contou ele: “Alguns dias antes da inauguração e por ordem da Comissão e do senhor Prior Sardo fui à capela que se situava na Chave, acompanhado de alguns homens, com a missão de transportarmos as imagens para a nova igreja que ainda nem sequer estava concluída.
Era dia da semana e a missa terminou por volta das sete horas da manhã. Era ainda noite, portanto, e, talvez por isso, não houve oposição dos vizinhos da capela que, segundo se dizia, não deixariam tirar as imagens nem os objectos de culto.
Num outro dia, trouxemos os altares, dos quais só aproveitaram dois, porque os outros eram de canto.
Nem desta vez houve barulho como se esperava e alguns vizinhos da capela ainda nos ajudaram a carregar os altares e nos emprestaram cordas. E repare que nesse dia apareceu muita gente.
Trouxemos também o sino que é o pequeno da nossa actual igreja, mas a pedra de ara só veio no próprio dia da inauguração”. (Timoneiro, Maio de 1971).
Afinal, como tantas vezes me confidenciou o tio João, as rivalidades não eram assim tantas entre os diversos lugares da Gafanha da Nazaré. Aliás, tem-se mantido na índole dos gafanhões das diversa gerações um certo espírito cordato e de cooperação mútua, bem patente nas inúmeras associações que ao longo dos tempos nasceram e se desenvolveram nesta terra.
Como prova elucidativa do que me dizia, em 1938 foi criada a Cooperativa Eléctrica da Gafanha da Nazaré, para fornecer energia a quem o desejasse e fosse admitido como sócios. Que eu saiba, a ninguém foi recusado esse direito de se associar à Cooperativa, que só em 1975, por força da nacionalização da distribuição da energia eléctrica, foi transformada na Cooperativa Cultural da Gafanha da Nazaré. Desta nasceu, pouco tempo depois, a Cooperativa Rádio Terra Nova, que ainda hoje é um baluarte, em parceria com a cooperativa-mãe e com outras instituições, na difusão da cultura gafanhõa e concelhia.
Posso dizer, com propriedade, e parafraseando uma associada, que a Cooperativa Eléctrica da Gafanha da Nazaré, “que deu luz às gentes da Gafanha da Nazaré, morreu para passar a dar a luz da cultura às novas gerações”.
Mas a história da Cooperativa Eléctrica da Gafanha da Nazaré, que ainda não foi feita, não deixará de registar a razão da sua fundação. O Farol da Barra, que está no concelho de Ílhavo, mas é conhecido por Farol de Aveiro, estava a necessitar de ser electrificado.
A sua lâmpada rotativa, que assinalava aos marinheiros a localização da barra, foi alimentada a petróleo até 1936. A energia eléctrica seria um processo mais funcional, mais limpo e mais barato. E assim, depressa se concluiu que era urgente “transportar” a energia até ao Farol, o que veio a acontecer nesse mesmo ano. Para lá chegar, os postes e cabos saíram de Ílhavo e atravessaram toda a Gafanha da Nazaré, sem se estudar a hipótese, imediata, de esta freguesia, já com certo nível económico e industrial (estaleiros e secas de bacalhau, por exemplo), poder usufruir daquele bem, que era então, como presentemente ainda o é, um grande sinal de progresso.
De certo modo revoltados, os gafanhões resolveram associar-se para também terem energia eléctrica nas suas habitações e nos seus comércios e indústrias. Mesmo assim, não foi tarefa fácil e uma cláusula do contrato com a União Eléctrica Portuguesa estabelecia que a Cooperativa Eléctrica apenas poderia ser distribuidora da energia, desde que ligada aos Serviços Municipalizados de Ílhavo, durante 20 anos, prorrogáveis, se não houvesse denúncia do acordo, nos prazos legais, por qualquer das partes.

Fernando Martins
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sábado, 14 de junho de 2008

Linguajar dos gafanhões

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Gafanhoas (In "Mulheres do Meu País", de Maria Lamas. Década de 40 do século passado)


Estou a ver os homens baixos e magros de camiseta e de ceroulas compridas, de flanela, estas com atilhos amarrados nas canelas, barba por fazer (só se fazia aos sábados, no barbeiro), boné ou chapéu na cabeça, mãos gretadas pelo trabalho duro, descalços, rosto envelhecido, queimado pelo vento e pelo sol impiedosos, força de vontade férrea, poupados, com gosto pelo trabalho e pela solidariedade tantas vezes manifestada, religiosos sem beatices, amigos dos seus amigos. As mulheres baixas e de pernas grossas, sem cintura e sem pescoço, olhos ingénuos, de chapéu de palha na cabeça por cima de um lenço que amarrava sobre o chapéu, roupas escuras, excepto ao domingo, em que se abusava da cor garrida, sobretudo as das secas do bacalhau, pernas com canudos (meias sem pés) enfiados para o sol não as queimar, que era fino tê-las brancas, descalças, mãos gastas pelo trabalhos, tranças na cabeça, porque permanentes eram para as da cidade, religiosas sem exageros, amantes do trabalho e poupadas, solidárias e amigas das suas amigas.
Mas a maneira de falar, um tanto ou quanto cantada, com alguma malícia pelo meio, entre risadas contagiantes, é que me encantava.
Levemos a nossa memória até lá atrás e ouçamos a Ti Maria e o Ti Atóino. Vinha ela desaustinada (sem tino) porque a canalha (garotos, miúdos) lhe estragara as batatas ali ao pé da escola da Tia Zefa. Estava arrenegada (zangada).
O ti Atóino vinha da borda, onde andara ao moliço para o aido. Antes da maré, porém, deitara-se a descansar, com o corpo moído, na proa da bateira que ia à rola (à deriva). Sem saber como, e com uma nassa, apanhou uns peixitos para a ceia (o jantar de hoje). Já não era mau. Naquele dia não comeriam caldo de feijão com toucinho, com um bocado de boroa. Sempre seria melhor. Então ouviu a Ti Maria:
— Queras (queres) ver, Atóino, o que a canalha (os garotos) da escola fez? Andou por riba (cima) das batatas a achar (à procura de) a bola e ‘stragaram-me tudo. Tamém (também) andaram à carreira (a correr velozmente) atrás uns dos oitros (outros) a amandar (mandar, atirar) pedras e a acaçar ( caçar, ao agarra). Se andassem com relego (com moderação), ainda vá que não vá. Mas não. Andavam a toda a brida ( à desfilada, a toda a força), como que a atiçar (meter-se) comigo. E se calhar a professora estava abuzacada (refastelada) na sala. Isto está mal, não achas?
— Pois é verdade, Ti Maria. Não são coisas que se façam. Anda um home (homem) a gastar dinheiro em batatas e buano (guano), muitas vezes sem se astrever ( atrever, poder) e estes mariolas (marotos), num’stante (instante) deixam tudo ‘struído. Era só a gente atirar-lhe com um balde de auga (água), para eles aprenderem. São a mode (como que) tolinhos e alonsas (parvos). Mariolas! (marotos!). Vossemecê já falou com a professora? Se ainda não, vá lá e diga-lhe que ó despois (depois) não se arresponsabiliza (responsabiliza). São uns desalservados (cabeças no ar), uns desintoados (desentoados, disparatados).
— Tens razão, Atóino. Vou lá num‘stante (instante), antes que seja tarde. Amanhê (amanhã) tamém (também) falo com os pais. Sempre são homes (homens) e melheres (mulheres) pra (para) darem uns estrincões (apertões com os dedos em zonas sensíveis) aos miúdos, pra (para) eles aprenderem. Opois (depois) que não se queixem.

Fernando Martins

NOTA: Entre parêntesis, as palavras ou expressões correctas. Excerto de palestra sobre coisas de antigamente.
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quinta-feira, 12 de junho de 2008

O Catitinha

Foi em casa do tio João que um dia, aí por 1945, conheci uma figura típica e algo misteriosa. Aparecia de tempos a tempos e fixava residência em casa de alguns gafanhões, que o recebiam como se fora um parente próximo. Cediam-lhe um quarto, comia à mesa com as famílias que o acolhiam, conversava e dava conselhos a todos. Das suas palavras, serenas e bem medidas, saíam conceitos cheios de filosofia, que eu não entendia, mas que os sentia nos rostos extasiados de gafanhões iletrados e pouco viajados. Era o Catitinha, que até os fotógrafos da região gostavam de registar para a posteridade. E quando nos falava, como qualquer avô extremoso e sábio, mostrava-nos fotografias das localidades por onde passara, viajando sempre de comboio. Dizia-se, então, que tinha livre-trânsito para poder andar de terra em terra. Não estava muito tempo no mesmo sítio. De repente, sem que nada o fizesse prever, anunciava a partida, e lá ia. Vim a referenciá-lo, mais tarde, noutras terras, sobretudo da beira-mar. Um dia de manhã, em casa do tio João, assisti à forma como cuidava da sua higiene pessoal. No tanque de lavar a roupa, dava à bomba com a mão direita, enquanto a água lhe caía pela cabeça. Ensaboava-se todo, da cinta para cima, e depois, com um pente que guardava num saquinho, penteava cabelo e barbas, com gestos bem pensados para tudo ficar certinho. Vestia-se com algum esmero, como quem vai para uma festa. A festa era a vida descontraída que levava, qual romeiro à procura da felicidade perdida. Vinha normalmente no Verão, ajudava os da casa em que se acolhera, comia do que havia, sem qualquer exigência, lia o que calhava, tomava notas num caderno que o acompanhava e saía para um passeio ou para visitar outros amigos. Na rua, quando via automóveis ou camionetas, apressava-se a proteger as crianças, como se temesse que elas fossem atropeladas. Com muita frequência passava pelas praias da Barra e da Costa Nova, onde mostrava as mesmas preocupações com as crianças que tomavam banho. Dava-lhes orientações para que não fossem levadas pelas ondas, chamava a atenção dos pais para que olhassem para os seus filhos e quedava-se, tempo sem fim, a contemplar o mar, ao jeito de quem conta as ondas que se espraiavam no areal, a seus pés. Desse tempo, há mais de 60 anos, recordo que se dizia que essa inquietude, que levava o Catitinha a andar de terra em terra, como fugido de alguém ou da sua própria imagem ou sombra, se devia ao facto de ter perdido uma filhinha, por atropelamento, nas ruas de Lisboa. Dizia-se, também, que tinha sido deputado e que enlouquecera. Um dia deixei de ouvir falar dele. Mas a sua imagem de ancião, que parecia transportar na alma um mundo poético ou cheio de sonhos ou de desilusões, nunca mais me deixou. Fernando Martins :: NOTA: Já depois de ter escrito este texto, a escritora Alice Vieira, anos depois, publicou, no JN, uma crónica sobre o Catitinha. Não a li na altura da publicação, mas um gafanhão amigo, Mário Cardoso, antigo presidente da Junta de Freguesia, sabendo deste meu gosto pela nossa gente, fez-me chegar uma fotocópia dessa crónica. Claro que há contradições entre o que ambos escrevemos, o que mais adensa o mistério que envolve esta figura marcante da minha meninice. Enquanto eu admitia, pelo que ouvia dizer, que ele era de Lisboa, Alice Vieira refere que “diziam também que era do Norte, que se passeava pelos areais da Póvoa e de Vila do Conde”. E acrescenta: “…mas depois eu ia à praia de Cascais e ele também lá estava, e para mim ele passou a ser, na minha infância, complicada e de poucos afectos, uma espécie de anjo protector, que vivia em toda a parte e chegava quando eu precisava dele.” Recorda ainda Alice Vieira que, sobre o Catitinha, se contavam estranhas histórias: “Que era meio louco. Que tinha enlouquecido quando a filha única morrera atropelada e que era por isso que trazia sempre um apito no bolso e que apitava freneticamente de cada vez que atravessava a rua com as crianças ao lado, para que todos os carros parassem e não houvesse perigo.” Afinal, há tantas estórias à volta desta figura mágica da minha infância. Quem sabe mais estórias do Catitinha! FM

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Mestre Rocha

Quando procurava um livro de interesse imediato, veio-me à mão um outro do meu amigo de saudosa memória, Joaquim Duarte, “Hidro-Aviões nos céus de Aveiro”. Foi uma boa ocasião para reler uma ou outra passagem e para ver fotos que fazem parte da Escola da Aviação Naval de S. Jacinto. De página em página, cheguei a uma que recorda um gafanhão que deixou a sua marca na Gafanha da Nazaré, pela maneira como lutou pelos seus interesses, enquanto presidente da Junta de Freguesia e para além dela. Trata-se do Mestre Rocha, com quem conversei inúmeras vezes sobre o que seria melhor para a nossa terra. Recordo, bem, o que ele me dizia, quando vinha em defesa das suas ideias: “Eu fui testemunha ocular e auricular!” Perante isto, eu tinha mesmo de acreditar nas suas convicções. Contudo, hoje não quero falar das conversas que tive com Mestre Rocha, mas, sim, do que dele disse Joaquim Duarte, no seu livro “Hidro-Aviões nos céus de Aveiro”. “Mestre Rocha tem, para nós, uma outra particularidade não menos importante. Foi durante bastantes anos o Presidente da Junta de Freguesia da Gafanha da Nazaré. Ao mandato do snr. Rocha ficou a Gafanha devendo grandes melhoramentos, como, por exemplo, o Mercado, o Edifício dos Correios, Escolas e novas estradas. Manteve acesa disputa com presidentes da Câmara de Ílhavo sempre na defesa da sua terra. Contrariou todos quantos pretendiam levar os correios e o mercado para a Cale da Vila. A alegação era de que lá se encontravam os meios económicos mais poderosos da freguesia, mas o Rocha não desarmava. “Mestre Rocha, recorda-nos de igual modo, sempre defendeu a existência desses edifícios perto da Igreja, afinal, o centro geográfico da Gafanha, segundo a sua própria expressão. O seu nome era respeitado, sem dúvida. Com grande poder de organização, apesar dos seus limitados conhecimentos de instrução, o antigo Presidente da Junta defendeu em público, não raro, e com calor, os seus pontos de vista, que eram também os da maioria dos ‘gafanhões’. “Alguns amargos de boca e muitas incompreensões foram o resultado desses anos de luta. Mas o Mestre Rocha deixou uma obra. Pode dizer-se, sem receio de errar muito, que ainda hoje se mantém o traçado dos arruamentos da Gafanha da Nazaré, ditado nos seus tempos de Presidente da Junta. “Homem estimado na Escola [da Aviação Naval], quer pelo pessoal militar, quer pelo pessoal civil, a que pertencia e de quem veio a ser chefe durante vários anos, pensamos que o seu nome – Manuel da Rocha Fernandes – não teve ainda a consagração que lhe foi, e é, devida.” Joaquim Duarte continuou no seu livro a defender a homenagem que a Gafanha da Nazaré devia ao Mestre Rocha. Isto em 1984. Já há uma rua com o nome deste notável presidente da Junta da Gafanha da Nazaré, mas pouca gente se lembra dele e sabe o que este gafanhão fez pela nossa terra. Outras histórias ficarão para outra ocasião. FM

sábado, 7 de junho de 2008

Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré - 1

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Nada nasce por acaso. Muito menos as instituições que corporizam sonhos e projectos de pessoas empenhadas na sociedade em que se inserem. Foi assim com o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré, que brotou no seio da Catequese da paróquia de Nossa Senhora da Nazaré.
Como à época era tradição, o final do ano catequético era assinalado por uma festa-convívio em que catequistas e catequizandos davam largas à sua imaginação. Não só mostravam as suas habilidades, com cânticos, músicas e pequenas peças de teatro, quantas vezes marcadas pela apresentação de quadros bíblicos, como cimentavam amizades que perduravam por toda a vida. Ainda hoje assim é, sendo certo que muitos cristãos jamais esquecem quantos lhes transmitiram a fé em Jesus Cristo.
Durante os preparativos para uma dessas festas da Catequese, de que era presidente Alfredo Ferreira da Silva, pelo ano de 1980/81, alguém lembrou, entre os quais o prior da altura, padre Miguel Lencastre, que seria interessante apresentar umas danças e cantares dos nossos avós, na esperança de preservar alguns vestígios folclóricos de que não havia grandes referências. E da ideia à prática foi um ápice. Era preciso mesmo pôr de pé a sugestão. E aí começou a germinar o que viria a ser o ponto de partida para a criação de um Grupo Etnográfico.
Porque um projecto destes não pode apoiar-se no improviso, quantas vezes deturpador da realidade, alguém propôs que se contactassem pessoas mais velhas, sempre fundamentais a qualquer trabalho do género. Manuel Retinto Ribau (o tio Retinto), Maria do Carmo Ferreira (tia Maria Ruça) e Maria dos Anjos Sarabando (a tia Sarabanda), entre outros, que antes haviam participado num rancho sem grandes preocupações de rigor, foram os primeiros a ensinar o que se cantava e dançava no seu tempo de jovens.
No salão paroquial, os encarregados de pôr de pé e no palco as danças dos nossos avós, aqueles convidados foram ouvidos, tendo mesmo exemplificado como se cantava e dançava a “Farrapeira”. Depois avançaram com o “Vira de quatro” e foram essas as duas primeiras peças que hoje, e desde então, começaram a fazer parte do repertório do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré, como ex-libris da nossa terra, sobretudo a primeira.
Apesar da idade já avançado daqueles avós do Grupo, que nos ensaios não se cansavam de repetir as referidas danças, eles foram, sem dúvida, o primeiro livro aberto e vivo por onde se começou a aprender o folclore na nossa terra. Incansáveis, lá foram dizendo e cantando, com as suas vozes já gastas pela vida, mas ainda bem timbradas, as letras e cantares dos nossos antepassados, numa demonstração clara de que a cultura popular regista conhecimentos que todos temos obrigação de aprender para passar aos vindouros.
Num desses ensaios, que decorriam pela noite fora, ficámos encarregados de levar de carro o tio Retinto a sua casa. Acompanhou-nos o Acácio Nunes. Reparámos então que ele transpirava por todos os poros, tal foi o esforço despendido a cantar e a dançar.
- Será que este esforço e o suor não lhe vão fazer mal? — perguntámos.
- Não pense nisso! — respondeu prontamente. E acrescentou:
- Quando chegar a casa, com um bagaço, fico pronto para outro ensaio.
Aprendidas as danças e cantares, vieram os ensaios, mais a rigor. Agora com a ajuda dos músicos, cujos nomes ainda é possível recordar, com ressalva para qualquer lapso, que será corrigido num futuro escrito, até porque este não passa de um subsídio para a história do Grupo Etnográfico da Gafanha as Nazaré. Pela nossa memória e por aquilo que indagámos, foram eles o José Maria Serafim Lourenço, o Carlos Alberto Ferreira, o David Soares, o Manuel Alegria e o Albino Ribau. Como cantadores, registámos os nomes do tio Retinto e da Odete Rola, os que mostraram na festa da Catequese como se cantava antigamente nas Gafanhas.
Depois da apresentação das duas danças e cantares na festa de encerramento do ano catequético, com os trajes mais ou menos a rigor e segundo indicação dos mesmos “mestres”, a ideia de continuar não mais parou. O bichinho já estava no corpo de muitos. As pesquisas e os registos não mais deixaram os entusiastas que logo a seguir estiveram na base desta instituição que tornou a Gafanha da Nazaré mais presente um pouco por todo o País e noutras paragens do mundo.
A convite dos responsáveis da Catequese, o autor destas linhas participou em alguns encontros para falar dos antepassados da Gafanha, dos seus usos e costumes, das suas tradições e da sua génese. Indicou pistas de actuação, de procura do genuíno folclore e falou da importância de se não brincar com a Etnografia, enaltecendo a necessidade de se apresentar em público somente o que oferecesse garantias de autenticidade.
Surge então a proposta de se contactar alguém da Federação do Folclore Português. O nome do saudoso José Maria Marques, na altura vice-presidente da Federação, foi indicado por seu irmão, Severim Marques. Lá se dirigiu a Mourisca do Vouga, onde residia, uma comitiva da Gafanha da Nazaré, constituída por Alfredo Ferreira da Silva, Carlos Alberto Ferreira, Acácio Nunes e por mim próprio.
No primeiro contacto, pouco ou nada se adiantou. José Maria Marques apenas se limitou a uma conversa de circunstância, onde abordou a importância da cultura popular, fazendo logo aí a apologia do rigor histórico como fundamental a qualquer trabalho deste género. Numa segunda visita, leu-nos um trabalho que havia escrito sobre o folclore e etnografia da Gafanha, com a indicação de danças e cantares, trajes e outras tradições. Cedeu então esses apontamentos que alguém guardou. Nunca mais foram vistos.
No entanto, verificámos que nem tudo corresponderia à verdade etnográfica da nossa terra, pelo que se optou, e bem, por avançar para pesquisas no terreno, paulatinas mas firmes e apoiadas no testemunho dos gafanhões mais idosos.

Fernando Martins

NOTA: A História do GEGN vai continuar por aqui. Esperam-se sugestões.
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quinta-feira, 5 de junho de 2008

O 13 de Maio pelo rádio

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Teria os meus seis anos (1944) quando vi e ouvi, pela primeira vez, um rádio. Na altura chamavam-lhe telefonia. Foi na casa do tio João. Num dia 13 de Maio, para ouvir as cerimónias de Fátima. Mulheres e filhos sentados no chão, numa sala onde a telefonia era rainha, ali se ouvia o que decorria no Santuário de Fátima, com a missa celebrada em latim. Um padre fazia os comentários e um locutor, como então se dizia, dava explicações do que estava a acontecer. O tio João, sentado ao lado do rádio, de quando em vez acertava a sintonia. Pelos vistos, as ondas sonoras desviavam-se do aparelho e era preciso estar atento, para não se perder pitada do que lá longe acontecia. Na sala, ao lado das pessoas sentadas no chão, estavam a mulher e as filhas, estas sempre atentas ao que se passava e à espera de mais alguém que viesse para ouvir a transmissão de Fátima. Tenho presente, ainda hoje, o silêncio religioso que havia na sala. Mulheres de xaile preto e de lenço na cabeça rezavam com devoção, respondendo ao celebrante com o latim macarrónico que se havia decorado desde a infância. Ao Dominus Vobiscum respondia-se Et cum spirito tuo. O Amem foi a primeira palavra em latim que decorei. Muitas outras ao longo da vida papagueei, quantas vezes sem conhecer o seu verdadeiro significado. Depois vinha a homilia, com o tio João a repetir as admoestações do pregador, para que ninguém perdesse palavra do que chegava de Fátima. Mais comovente era a bênção dos doentes. Nesse momento, mulheres choraram e também eu me comovia, com os apelos lançados, via rádio, ao Deus todo-poderoso, para que curasse os doentinhos, que ali tinham ido à procura de um milagre para os seus males físicos. Dessa vez, como doutras, nunca ouvi a proclamação de um milagre. Mas acredito que tenham acontecido. A fé move montanhas. Hoje, tantos anos depois destes acontecimentos, reconheço que estas idas à casa do tio João para ouvir as cerimónias de Fátima me marcaram sobremaneira. Que me lembre, isto não acontecia todos os meses. Mais em Maio, como mês mágico e de muita devoção mariana nas Gafanhas. Nesse mês havia à noite, na igreja matriz, o chamado mês de Maria, dedicado a Nossa Senhora. A igreja enchia-se sempre. Mais de mulheres e de crianças e jovens. Poucos homens apareciam, e os que apareciam ficavam na parte da frente do templo ou nos espaços laterais. Homens e mulheres não se misturavam nas igrejas da minha meninice e juventude. O terço era rezado com devoção e cada mistério era seguido de um cântico mariano. Muitos desses cânticos ainda os retenho na memória, sentindo o fervor com que eram cantados.Antes do terço, era hora de encontro, também, dos rapazes e raparigas. Depois dos trabalhos no campo e nas secas de bacalhau, todos precisavam de descobrir o homem ou a mulher das suas vidas. Os namoros começavam a caminho da igreja e continuavam depois do terço. E muitos deram casamento. Quando hoje passo por alguns casais, bem me lembro de que começaram no mês de Maria. Outros nasceram nas festas religiosas. Nos arraiais de Senhora da Nazaré e de Nossa Senhora da Conceição muitos “nós” se deram para a vida. Antes da festa, tudo se preparava com cuidados especiais. As coisas não aconteciam por acaso. Nas feiras dos “catorze” e dos “vinte e oito”, em Aveiro, e dos “treze”, na Vista Alegre, compravam-se os tecidos garridos para as costureiras fazerem vestidos bonitos para as raparigas casadoiras e outras, e fazendas para os alfaiates fazerem fatos, por medida e duas ou três provas, para os rapazes. Era preciso apresentarem-se bem, de modo que dessem nas vistas. Quanto mais vistosos e aperaltados se apresentassem, mais facilmente iniciavam namorico, que se tornava namoro, de preparação para a vida a dois. Nos arraiais e debaixo das arcadas que ornamentavam as festas, na rua principal, desde há muito chamada Avenida José Estêvão, em homenagem ao tribuno famoso que pugnou pela construção da via, ao que se diz para mais facilmente chegar ao Palheiro que possuía na Costa Nova e que ainda existe, os gafanhões e outras gentes vizinhas caminhavam em duas filas largas, que se movimentavam em sentidos contrários, sem se atropelarem. Enchiam a rua num vaivém que se prolongava durante a tarde e a noite. Comiam-se uns bolos, cavacas e outros, e ia-se pondo o olho, volta após volta. Quando se julgava ser o momento certo, mudava-se de fila, procurando a posição estratégica para iniciar a conversa: a menina dá-me licença que a acompanhe? Se ela não tivesse outro debaixo d’olho e lhe agradasse o convite, podia ser este o princípio de uma história que acabaria em casamento. Caso contrário, respondia que estava comprometida. Depois é o que toda a gente imagina: se o amor à primeira vista fosse muito forte, venciam-se todos os obstáculos para atingir os fins desejados. O cuidado na forma que todos punham nesta preparação para a vivência das festas levou a que muitos começassem a desconfiar da verdadeira elegância e arte de bem vestir dos gafanhões. De tal forma, que se começou a espalhar a ideia de que, “quem compra no domingo da festa, perde dinheiro na segunda-feira”. Fernando Martins

terça-feira, 3 de junho de 2008

Com máquina avariada...

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Com máquina avariada... fico limitado. Não se trata da máquina humana, que essa vai andando como pode. Trata-se, isso sim, do meu portátil, onde tenho o essencial para o meu dia-a-dia do ciberespaço. Espero que a reparação seja rápida, para me evitar preocupações. É que gosto mesmo de estar em sintonia com os amigos e com o mundo. De qualquer modo, sempre que me seja possível, por aqui andarei, nem que tenha de bater a outras portas.

FM

domingo, 1 de junho de 2008

Ganhar tempo

Quando o tio João me contou o espírito de entreajuda que existia entre os gafanhões da sua geração e das anteriores, logo me levou a reviver cenas que eu próprio tinha experimentado. Cenas que mostravam o espírito da vizinhança bastante acentuado, que se confirmava na cedência dos fósforos que se tinham esgotado, do ovo que faltava, do sal que tinha acabado, das couves para as refeições de todos os dias, que as do próprio quintal ainda não estavam à moda de apanhar, e do azeite que deixara de escorrer da garrafa. As pessoas gostavam de trabalhar em conjunto. As tarefas agrícolas eram participadas pelos familiares e vizinhos, na certeza de que no dia seguinte estariam nos terrenos de outros ou nos seus, quando chegasse a sua vez. Trabalhavam para “ganhar tempo”, como se dizia e eu tanto observei. Nas desmantadelas do milho, ao serão para juntar mais vizinhos, havia o bom gosto de brincar. Num desses serões, uns trolhas que trabalhavam na Gafanha e que tinham vindo dos lados da Murtosa, apareceram com uns lençóis pela cabeça e umas máscaras improvisadas para esconderem as suas identidades. Foi uma noite bastante divertida, cada um procurando adivinhar quem seriam os mascarados. Só muito tarde, noite adiantada, se soube quem eles eram. Nunca percebi a razão destas brincadeiras que se mantêm na minha memória. Vinham, depois, as malhadas, com o recurso ao malho. Gente possante e treinada para marcar a cadência, à força de tanto bater lá conseguia separar os grãos do milho do caroço. O mesmo acontecia com a cevada, centeio ou aveia, os cereais mais cultivados nas Gafanhas. Contudo, muito frequentemente os malhos e a força humana eram substituídos pela caminhada cadenciada das vacas dos proprietários e vizinhos sobre os cereais colocados com jeito na eira. Estou a ver os mais jovens a imaginarem o que aconteceria quando as vacas precisassem de fazer as suas necessidades! Pois foi fácil, ou não andassem os nossos avós habituados a contornar as dificuldades. Inventaram uma retrete ambulante muito prática e higiénica: ao lado da roda formada pelas vacas em marcha, na eira, postava-se, atento, um garoto, com um bacio na mão, à espera que um qualquer animal resolvesse esvaziar a tripa ou a bexiga! Porém, as manifestações comunitárias não se circunscreveram, nos primórdios da Gafanha, aos trabalhos agrícolas, mas estenderam-se, também, a outras actividades mais ou menos importantes. Recordo ainda hoje a azáfama no fabrico dos adobos nos areais esbranquiçados, junto à mata. A cal viva era transportada em carros de bois desde os locais de origem, das bandas da Bairrada, até à Gafanha. Uma vez nos areais, era queimada pela simples junção de água dum poço que ali mesmo era aberto. Juntavam-se, depois, as famílias dos nubentes e os amigos e vizinhos, com os mais entendidos no comando das operações, para amassarem a cal com a areia e para moldarem os adobos em formas previamente feitas de tábuas. Os mais experientes manejavam a colher da cal, ajeitando e apertando a massa sobre a forma de madeira, que era retirada, pouco depois, para se continuar a operação tantas vezes quantos os adobos necessários. E ali ficavam eles a secar à torreira batida pelos ventos que só os pinheiros enfrentavam corajosamente. Vinham, a seguir, as “ajuntadelas”. O mesmo rancho lá ia empilhar os adobos para que adquirissem a consistência que só o tempo podia dar. Nas vésperas da construção da casa, procedia-se à “acartadela” em carros de bois ou de vacas postos à disposição dos interessados pelos que os possuíam. Sabiam estes que tais favores eram sempre compensados, em maré semelhante, pelos que eram agora beneficiados. Depois, essa mesma gente ajudava, na hora própria, a “levantar a casa”, tarefa orientada pelo mestre ou familiar mais conhecedor. Logo que a casa ficasse coberta, e quantas vezes sem o mínimo conforto, ali se recolhia o jovem casal para iniciar vida nova sob a bênção de Deus e dos pais. Os acabamentos seguiriam quando houvesse dinheiro, porque o hábito de “ficar a dever” foi coisa que surgiu apenas nos nossos dias.
FM

GASTRONOMIA: LASANHA DE BACALHAU

Preparação:  Comece por preparar o molho bechamel, juntando  a farinha, o leite, a pimenta e a noz-moscada. Leve ao lume até engro...