segunda-feira, 30 de abril de 2012

Catitinha: achegas para a sua biografia

Catitinha



Foi em casa do tio João Catraio que um dia, aí por 1945, conheci uma figura típica e algo misteriosa. Aparecia de tempos a tempos e fixava residência em casa de alguns gafanhões, que o recebiam como se fora um parente próximo. Cediam-lhe um quarto, comia à mesa com as famílias que o acolhiam, conversava e dava conselhos a todos. 
Das suas palavras, serenas e bem medidas, saíam conceitos cheios de filosofia, que eu não entendia, mas que os sentia nos rostos extasiados de gafanhões iletrados e pouco viajados. Era o Catitinha, que os fotógrafos da região gostavam de registar para a posteridade. E quando nos falava, como qualquer avô extremoso e sábio, mostrava-nos fotografias das localidades por onde passara, viajando sempre de comboio. Dizia-se, então, que tinha livre-trânsito para poder andar de terra em terra. 
Não estava muito tempo no mesmo sítio. De repente, sem que nada o fizesse prever, anunciava a partida, e lá ia. Vim a referenciá-lo, mais tarde, noutras terras, sobretudo da beira-mar. 
Um dia de manhã, em casa do tio João, assisti à forma como cuidava da sua higiene pessoal. No tanque de lavar a roupa, dava à bomba com a mão direita, enquanto a água lhe caía pela cabeça. Ensaboava-se todo, da cinta para cima, e depois, com um pente que guardava num saquinho, penteava cabelo e barbas, com gestos bem pensados para tudo ficar certinho. 
Vestia-se com algum esmero, como quem vai para uma festa. A festa era a vida descontraída que levava, qual romeiro à procura da felicidade perdida. 
Vinha normalmente no Verão, ajudava os da casa em que se acolhera, comia do que havia, sem qualquer exigência, lia o que calhava, tomava notas num caderno que o acompanhava e saía para um passeio ou para visitar outros amigos. 
Na rua, quando via automóveis ou camionetas, apressava-se a proteger as crianças, como se temesse que elas fossem atropeladas. 
Com muita frequência passava pelas praias da Barra e da Costa Nova, onde mostrava as mesmas preocupações com as crianças que tomavam banho. Dava-lhes orientações para que não fossem levadas pelas ondas, chamava a atenção dos pais para que olhassem pelos seus filhos e quedava-se, tempo sem fim, a contemplar o mar, ao jeito de quem conta as ondas que se espraiavam no areal, a seus pés. 
Desse tempo, recordo que se dizia que essa inquietude, que levava o Catitinha a andar de terra em terra, como fugido de alguém ou da sua própria sombra, se devia ao facto de ter perdido uma filhinha, por atropelamento ou levada pelas ondas do mar. 
Um dia deixei de ouvir falar dele. Mas a sua imagem de ancião, que parecia transportar na alma um mundo poético ou cheio de sonhos ou de desilusões, nunca mais me deixou. 
Entretanto, vim a saber que Catitinha escondia o verdadeiro nome de António Joaquim Ferreira, nascido em Torres Novas, na freguesia de S. Tiago, em 23 de Outubro de 1880. Formou-se em Direito e exerceu a profissão de notário até ao dia em que morreu a sua única filha. 

Notas: 

1 — Frequentador de diversas praias, na Póvoa do Varzim colhi algumas informações sobre a sua naturalidade e identidade. No fim da vida, muito debilitado, foi acolhido em Avanca pela família de António Moutinho, que o tratou com todo o carinho. Faleceu a 9 de Abril de 1969 naquela freguesia, onde está sepultado. Jornal de Avanca, Novembro de 2004. [Texto publicado em “Gafanha da Nazaré — 100 anos de vida”] 

Catitinha numa praia


2 — Ontem, 29 de abril, recebi um e-mail de Joaquim Madeira, com esclarecimentos preciosos sobra a identidade e vida do Catitinha, que repõem a verdade sobre o ancião que conheci na minha meninice. Sublinha o leitor do meu blogue que o Catitinha «Nunca se formou em Direito ou coisa parecida. Quando muito, teria o equivalente à época da instrução primária. Notário não foi, mas sim padeiro entre outras profissões diversas (até cavaleiro tauromáquico). É verdade que a sua única filha morreu. Mas de velha, com cerca de 100 anos, no lar da Misericórdia da Golegã. Tanto ela como a sua mãe, esposa do Catitinha, viveram quase toda a vida em Riachos, terra onde se fixou quando se casou, que fica a 4 km de Meia Via, praticamente abandonadas pelo António Ferreira, que,  contava-se, até lhes terá deixado um pezito de meia quando morreu. 
Muitas das coisas que se contavam acerca dele, nunca passaram de mitos, que possivelmente até o próprio terá alimentado a fim de manter aquela áurea de mistério que havia em redor da sua pessoa, o que lhe permitiria manter aquele modo de vida.» 



3 — O meu leitor, porventura esporádico, acrescenta que «em Riachos nunca se deu grande importância à sua pessoa, uma vez que quase toda a sua vida viveu ausente. Em Meia Via, muito menos. Conheci a sua filha que morreu há cerca de 15/20 anos. Os meus pais, quando casaram em 1950 foram morar para uma casa contígua à da esposa do Catitinha. 
Sei que por volta do ano da sua morte, o jornal Diário Popular publicou um artigo (que nunca li) sobre ele. Há um par de anos perguntei ao jornalista Ângelo Granja, que penso ter sido o autor, (entretanto falecido) onde poderia consultar o DP daquela época. Infelizmente, disse-me, todo o espólio se havia perdido. Talvez na Biblioteca Nacional. 
No entanto irei abordar o assunto com o meu pai se ele souber de algo relevante sobre ele, enviar-lhe-ei posteriormente. Para já junto o que tenho dele e que, se calhar, também possui: 2 fotos e um recorte de jornal.»

4  — As fotos e o recorte do jornal foram-me fornecidas por Joaquim Madeira, gesto que agradeço.

5  — No meu livro apenas pretendi evocar uma memória de infância, colhendo na altura, 2010, alguns elementos, sem muito rigor histórico. De qualquer modo, é sempre tempo de repor a verdade necessária e possível.

FM 

sexta-feira, 27 de abril de 2012

A Pesca Artesanal na Ria de Aveiro


Texto de Faria dos Santos,

Em  “Aveiro e o seu Distrito”, n.º 23/25, 1977/1978


Ilustração de Zé Penicheiro, no mesmo artigo


«Ao longo dos seus 45 quilómetros de comprimento, de Norte a Sul, existem na Ria de Aveiro povoações piscatórias com elevada actividade na pesca artesanal. Nomes  como  Ovar,  Torreira,  Murtosa,  S.  Jacinto, Costa Nova e Vagueira, estão intimamente ligados à ideia de pesca.

Os dados actuais sobre as quantidades e valores de pescado retirado da Ria de Aveiro são inexistentes. Na realidade com a extinção do chamado «imposto de pescado», foram encerrados os 13 postos de despacho alfandegário existentes na Ria. Sem eles não foi mais possível determinar os níveis de captura alcançados. Numa tentativa de análise do problema recordemos alguns dos valores recolhidos».

Com as dúvidas inerentes aos valores de vendagem declarados, pode-se todavia afirmar que rondariam as 700/800 toneladas/ano as capturas efectuadas na Ria de Aveiro. Admitindo que a riqueza piscícola da Ria haja sido afectada pelos factores ecológicos e poluitivos do conhecimento geral, mas, analisando também  o número de embarcações artesanais ainda em actividade e o seu número de tripulantes, é aceitável o cálculo de 500 toneladas/ano para as capturas actuais na Ria de Aveiro.

Em paralelo com a pesca na Ria de Aveiro desenvolve-se ainda a pesca costeira utilizando as tradicionais e belíssimas embarcações de «Arte de Xávega». Actualmente estão ainda em actividade cerca de dez destas embarcações, sendo os seus lugares de actividade Mira, Vagueira, Costa Nova, Torreira e Furadouro.

sábado, 21 de abril de 2012

O cabo, o engenheiro e a atitude desmanchada deste

História da Junta Autónoma da Ria e Barra de Aveiro


Dique da Gafanha - 1930

O engenheiro saiu "gesticulando e gritando, numa atitude tão desmanchada, em plena rua e adiante de subordinados, dele e meus, do respeito que deve a si próprio e ofendendo-me a mim, desprestigiando-me e desautorando-me no exercício das minhas funções".

Na origem do episódio esteve o facto do trabalhador Manoel Monteiro Claro não ter respeitado a advertência do guarda pelo incumprimento do artigo n.º 2 da ordem de Serviço de 18 de Setembro de 1929 e, na sequência da reprimenda ter "abandonado o serviço de maroto" para ir fazer outra tarefa. Tendo-lhe ordenado que retomasse, imediatamente, o trabalho de picagem que estava a fazer "para que não fosse tempo perdido e dinheiro mal gasto como sucede noutros casos como a porção de railes e um chassi de uma vagoneta" que foram "picados e repicados e estão cobertos de ferrugem por não terem sido mandados pintar convenientemente". 

Participação do Cabo da Polícia, Salvador Garcia, sobre o comportamento de um Eng. da Junta Autónoma referente a uma ordem que tinha dado a um trabalhador, Forte da Barra, em 13 de Novembro de 1930.

Exposição patente no Centro Cultural da Gafanha da Nazaré até 28 de abril.

Ver mais aqui 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Gafanha da Nazaré, cidade há 11 anos


19 de Abril de 2001






Criada freguesia em 23 de junho de 1910 e paróquia em 31 de agosto do mesmo ano, a Gafanha da Nazaré é elevada a vila em 1969. A cidade veio em 2001, por mérito próprio. O seu desenvolvimento demográfico, económico, cultural e social bem justifica as promoções que recebeu do poder constituído no século XX, a seu tempo reclamadas pelo povo e delas se fazendo eco a Junta de Freguesia. 
A Gafanha da Nazaré é obra assinalável de todos os gafanhões, sejam eles filhos da terra ou adotados. De todos os pontos do País, das grandes cidades e dos mais pequenos recantos, muitos chegaram e aqui se fixaram, porque não lhes faltaram boas condições de vida. 
A Gafanha da Nazaré é, hoje, uma mescla de muitas e variadas gentes, que, com os seus usos e costumes e muito trabalho, enriqueceram, sobremaneira, este rincão que a ria e o mar abraçam e beijam com ternura. 

terça-feira, 3 de abril de 2012

Ria com Farol à vista


Alguém gostou muito desta minha fotografia tirada durante a procissão pela ria de Aveiro, mais concretamente no momento da chegada ao Forte da Barra. O reflexo do sol está bem à vista, com embarcações que animaram, com  povo, as festas em honra da Senhora dos Navegantes. Aqui a partilho com os meus amigos e leitores.

Abertura da Barra de Aveiro


3 de abril de 1808



Em 1800, a Gafanha era já bastante povoada, na sua maioria por foreiros, e em 1808, a 3 de Abril, Luís Gomes de Carvalho abre então a Barra, no local estrategicamente definido por estudos exaustivos levados a cabo por si próprio, na sequência de outros iniciados pelo Engenheiro Oudinot, de nacionalidade francesa, entretanto destacado para a Madeira, onde o esperavam outras tarefas urgentes.
O Comandante Rocha e Cunha descreve o feito com alguma poesia de permeio, que bem simboliza a fama deste acontecimento vital para estas terras e suas gentes:

«Em 3 de Abril, domingo, verificou que o desnível era de dois metros do interior para o exterior. Às 7 horas da tarde, em segredo, acompanhado por Verney3, pelo marítimo Cláudio e poucas pessoas mais, arrancam a pequena barragem de estacas e fachina que defendia o resto da duna na cabeça do molhe, cortam a areia com pás e enxadas, e Luís Gomes de Carvalho, abrindo um pequeno sulco com o bico da bota no frágil obstáculo que separava a ria do mar, dá passagem à onda avassaladora da vasante para a conquista da libertação económica de Aveiro depois de uma opressão que durara sessenta anos.»

GASTRONOMIA: LASANHA DE BACALHAU

Preparação:  Comece por preparar o molho bechamel, juntando  a farinha, o leite, a pimenta e a noz-moscada. Leve ao lume até engro...