Texto lido na apresentação do livro “Gafanha… O que ainda vi, ouvi e recordo”, de Maria Teresa Filipe Reigota




CADA UM DE NÓS É O ESPELHO DO SEU PASSADO




Hoje mesmo [sábado, 24-10-2009], por volta do almoço, recebi o convite para proferir umas palavras nesta festa comemorativa dos 25 anos do Rancho Regional da Casa do Povo de Ílhavo, mais especificamente centradas no livro “Gafanha… O que ainda vi, ouvi e recordo”, de Maria Teresa Filipe Reigota, ela própria co-fundadora, ao lado de seu marido, do Rancho Regional em festa.
Deixando agora essa qualidade, que não pode ser esquecida, apraz-me sublinhar que a Teresa, professora do Ensino Primário aposentada, sempre manifestou interesse pelas tradições que a enformaram. No contacto com colegas, com alunos e pais, com pessoas jovens e menos jovens, de todos foi bebendo, sei que com sofreguidão, as marcas indeléveis destes povos que fizeram história pelo seu trabalho insano, no desbravar de terras maninhas, ancinhando a ria à cata do moliço, e alisando dunas, teimosamente soltas, que depois se tornaram terras férteis.
O seu ADN alberga, seguramente, essa capacidade de trabalho, de entrega a causas, de amor ao torrão-natal. Mas também alberga uma simplicidade cativante, um sorriso acolhedor (como os seus alunos terão apreciado esse seu ar!) e uma enorme predisposição para o diálogo, onde o saber ouvir é fundamental.
Saliento estes dons, porque o fruto deles está bem patente no livro que acaba de ver a luz do dia, nesta nossa época em que o essencial é o presente. O passado é da história, dizem, e o futuro logo se verá, referem muitos.
Mas se olharmos bem, cada um de nós é um espelho do seu passado, espelho esse vocacionado para reflectir no futuro aquilo que de bom herdámos, numa perspectiva de uma sociedade mais fraterna, mais livre, mais culta, mais solidária.
Ora a Teresa, atenta à importância do passado para a construção do presente, servindo eles como alicerces do futuro dos nossos filhos e netos, pegou no que viu, ouviu e ainda recorda da sua meninice, adolescência e juventude, que se estende esta até aos tempos actuais, e com carinho escreveu um livro, que eu tive o privilégio de ler na fase manuscrita, com aquela caligrafia, bem medida, que decerto ensinou aos seus alunos. Fotografias aplicadas no sítio certo, títulos a condizer, tudo muito certinho.
Recolheu, seleccionou, catou por aqui e por ali registos, gravou estórias, ouviu gente que sempre teve e tem muito que contar, de vidas, de lutas e labutas, de alegrias, de dores, de horas sem sono, de trabalhos duros, de preocupações. Com a educação de filhos, com os tempos agrestes, com magras colheitas, com fé. E dessas vivências nasceram orações papagueadas, curas assentes em palavras, superstições para sarar medos. Mas também fé, mamada no colo de mães santas, como foram todas as nossas mães, que levou o humano a aproximar-se do divino, no dia-a-dia de pessoas simples, agarradas, como lapas, à terra que as convidara a amar e a sonhar num progresso mais feliz.
Com Teresa Reigota por guia, fui há dias de abalada até ao passado da minha meninice. Debaixo do braço, como suporte das minhas motivações culturais, levei a sua obra, escrita com o coração, direi mesmo com muita paixão. E pelos caminhos de terra batida cruzei-me com gafanhões de fé simples, quantas vezes cheia de superstições e crendices. Entrei em casas térreas pintadas pelo fumo da fogueira, que se escapava através das telhas, e apreciei cavadores na labuta diária de quem aposta em transformar dunas estéreis em terras produtivas. Cheirei panelas ao lume e saboreei o caldo de feijão, os rojões e a boroa a sair do forno.
Apreciei o ar donairoso de gente jovem que se preparava para ir à festa, com cantigas das modas de então. E de idosos ouvi lengalengas, religiosas e profanas, que aprendi a papaguear com facilidade. E compreendi a sabedoria e a coragem destes povos que fizeram a Gafanha, com tenacidade, para a deixarem de velas ao vento, como oferta sadia, a todos os ílhavos [gafanhões e ilhavenses], rumo a um futuro risonho.
Teresa Filipe Reigota ensinou-nos, com este labor, como se pesquisa e ouve, mas também como se lê e dialoga para aprender e divulgar. Com alegria, com memória fresca, com fidelidade, com prazer e com muito amor à sua terra e suas gentes.
“Gafanha… O que ainda vi, ouvi e recordo” é, como todas as obras deste género, um trabalho inacabado. Daí que me atreva a pedir-lhe que não ponha de lado este gosto pela cultura popular. Sei, tenho a certeza, que na arca das suas recordações, já há mais para mostrar, em futuras edições. Que ela consiga cativar gente jovem, de todas as idades, para mais trabalhos deste tipo. Com outros ângulos de visão, com outras leituras, com outras sensibilidades. E mais: que o seu exemplo se multiplique entre os Ranchos Folclóricos e Grupos Etnográficos. Nesta época de globalização, em que as culturas tendem a diluir-se num mundo que se transformou em pouco tempo numa aldeia, onde o tu cá tu lá em português passou a conversa de múltiplos linguajares, ali à esquina de cada rua, importa registar, por todas as formas, os usos e costumes dos nossos ancestrais. Penso que as futuras gerações saberão agradecer.

Fernando Martins




Comentários

Anónimo disse…
Boa tarde!
Parece-me um livro bastante interessante para quem é da terra e não só. Gostava de saber onde se encontra à venda.

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