Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 13


TORREIRA

Eu não gosto de exageros de espécie nenhuma, embora ache às vezes graça a certas palavras grandíloquas, altissonantes, ou a certas imagens ou panoramas vistos à lente de aumento, sem cerimónia coloridos, hipertrofiados, com que nós, na febre do entusiasmo, pretendemos pôr em relevo a beleza que nos fascina ou a admiração que acima de nós e da nossa pequena medida nos ergue. Também a hipérbole pode servir para, feitos os devidos descontos, ficarem as coisas no seu quadro justo.
 Nesta ordem de ideias é que eu não receio de dizer que, de todas as terras que eu conheço no mundo, sem falar de Aveiro, porque afinal de um aspecto de Aveiro se trata, outra não há que tenha um encanto, uma magia de águas, de sons, de ruídos, uma luz tão doce, um sol tão límpido, um céu tão transparente, tão meigo, como tem a Torreira. Das terras que não conheço, se alguém me disser que há alguma em qualquer parte mais linda do que a Torreira, tenham paciência, eu não acredito.

E para prova é que eu, no passado domingo, durante a procissão do rio ao mar, do mar ao rio, e do rio pela lomba à igreja, com uma capa de asperges por cima dos ombros, com uma mitra apertada na fronte, com um báculo de ferro maciço nas mãos, à hora dum dia quente, senti por tal maneira refrescado a velhice, acordados os lânguidos nervos, que, quando alguém me perguntou se eu iria porventura cansado, eu respondi, quase indignado pela injúria que essa dúvida poderia representar para os ares da Torreira:
– Ó meu caro senhor, na Torreira nem os velhos se cansam, ainda que os ponham solenemente debaixo dum pálio, cobertos de espessas vestes umas por cima das outras, levando às costas ou nos braços o peso de um mundo! Como é que na Torreira se morre?
E o que ainda mais completa o enlevo do quadro e lhe imprime carácter é que a gente que a anima está em perfeita harmonia com as cores inefáveis do ambiente que a cerca. As criancinhas têm nos olhos a candura dos anjos; embora mais ou menos torradas pelo sol do seu berço e pela áspera exalação das águas, mesmo assim, descalcinhas algumas, de andarem habituadas aos pés na areia, fariam lindas figuras no paraíso, com umas asas aos ombros, a voar e a piar como os passarinhos à roda de Nossa Senhora. Teria aqui Murillo farta fonte para se inspirar.
Dizem que os pescadores são rudes e não se acanham lá muito de deitar a sua praga ao mar, às redes, aos barcos. Isso não teria lá grande alcance e estaria para os pescadores pouco mais ou menos como a camisola aos quadrados com que andam cobertos ou como o barrete de maçaneta que, como uma bandeira, lhes flutua à cabeça. Mas estes, é vê-los: sem afectação, sem arranjos, todavia tão correctos, tão graves, tão sociais, tão gentis, digamos mesmo tão afectuosos, tão abertos de alma, de coração, que até faz bem estar com eles. Até na maneira como as mulheres e as raparigas da terra se aproximavam do pálio para deitar as suas flores à passagem do Bispo, com aquela compostura elegante e modesta que faria lembrar o Arcanjo S. Gabriel no quadro da Anunciação de Fra Angélico, pétala por pétala até à última, e depois a reverência, o olhar, o sorriso final, confundindo-se em seguida na multidão, até nisto, neste pequeno detalhe, se nota qualquer coisa de polido, eu diria de aristocrático, se não tivesse medo de algum sarcasmo, de diamante a luzir através das sombras da sua capa.
Está-se a ver portanto o aprazível cenário que foi no fim, quando, ao sair da igreja, todos passaram diante de mim e uns, com a moeda pronta nas mãos, outros a procurá-la nos bolsos para a deitar na bandeja, foram enchendo das suas esmolas a sacola do Seminário.
Quando eu dizia a um pequenito, por exemplo: – Mas agora ficas sem dinheiro para os teus rebuçados – ele encolhia os ombros num ar de isenção, e dizia: – Ora! – como quem diz: não se trata agora de rebuçados! maiora premunt!
Quando eu dizia por exemplo à mulher do sacristão ou a outras mulheres em igualdade de circunstâncias: – Mas o seu homem já deu; já deu o seu filho! – elas, baixando os olhos, quase envergonhadas do justo reparo, diziam algumas: somos nove lá em casa! diziam outras: somos dez, somos doze! e acrescentavam todas: não há nenhum lá que não queira dar!

Do livro «Aveiro – Suas Gentes. Terras e Costumes»
 de D. João Evangelista de Lima Vidal

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