Colónia Agrícola da Gafanha da Nazaré

Alguns subsídios para a sua história


Em 1888,  inicia-se a sementeira do penisco no pinhal velho, terminando, na área da atual Gafanha da Nazaré, em 1910. Somente em 1939 ultrapassou o sítio da capela de Nossa Senhora da Boa Hora, ficando a Mata da Gafanha posteriormente ligada à Mata de Mira. (MG)
A Colónia Agrícola da Gafanha da Nazaré foi inaugurada numa segunda-feira, 8 de dezembro de 1958, Dia da Imaculada Conceição, Padroeira de Portugal. Contudo, o processo desenvolvido até àquela data foi demorado e complexo. Aliás, a sua existência legal data de 16 de novembro de 1936, decreto-lei 27 207.
Os estudos do terreno foram iniciados pela Junta de Colonização Interna em 1937, onde se salientaram as «condições especiais de localização, vias de comunicação e características agrológicas», como se lê em “O Ilhavense”, que relata o dia festivo da inauguração.
O projeto foi elaborado em 1942 e, após derrube da mata em 1947, começaram as obras no ano seguinte. Terraplanagens, rebaixamento para adaptação a regado, remoção de areias, construção de 16 quilómetros de estradas e rede de rega com a extensão de 30 quilómetros de caleiras foram operações morosas que empregaram inúmeras pessoas das Gafanhas e região, sempre com o apoio e direção de técnicos à altura do projeto.
Paralelamente a estes trabalhos, houve a estrumação de fundo (35 mil toneladas), construção de habitações para 77 colonos, Posto Médico, Centro de Assistência Técnica, Posto Social, duas escolas com habitações para outros tantos professores, uma capela, residências para funcionários e um Posto de Reprodução Animal. Estava em estudo a eletrificação. Assim se pôde ler em “O Ilhavense”.
Na festa inaugural marcaram presença o secretário de Estado da Agricultura, Eng. Luís Quartim Graça, e o Eng. Vasco Leónidas, presidente da Junta de Colonização Interna.
Da parte da tarde compareceu o Bispo de Aveiro, D. Domingos da Apresentação Fernandes, que benzeu a capela e celebrou missa pelas 16 horas. Na capela existe a imagem de Nossa Senhora dos Campos, padroeira da Colónia Agrícola, informa ainda o periódico de Ílhavo.
O Padre Domingos Rebelo diz, no seu livro “O Culto a Maria na Diocese de Aveiro, que a capela da Colónia Agrícola da Gafanha fora inaugurada em 16 de junho de 1956, o que contradiz a informação de que foi benzida no dia da festa de inauguração da Colónia Agrícola, no dia da Imaculada Conceição de 1958.
Antes da Colónia Agrícola, os gafanhões podiam ir à Mata apanhar bicas, pinhas, lenha seca que se desprendia com o vento (frança), uma vez por semana. Há quem recorde que era às quartas-feiras. Quando autorizados, podiam os próprios partir esses ramos secos, com a ajuda de uma foice aplicada na ponta de uma vara. Quem transgredisse não escapava às multas aplicadas pelos guardas-florestais, que eram temidos e respeitados pelo povo, na ânsia de merecerem as suas benesses.

Mudança de paróquia

Desde sempre a área correspondente à atual Colónia Agrícola, numa parte significativa, foi considerada parte integrante da paróquia da Gafanha da Nazaré. De tal forma que a sua constituição, desde os projetos até à sua implementação, foi designada por Colónia Agrícola da Gafanha da Nazaré, como, aliás, ainda hoje é conhecida.
No entanto, razões consideradas pertinentes por D. João Evangelista de Lima Vidal levaram o Prelado aveirense a transferir, para a jurisdição da paróquia de S. Salvador, a paroquialidade da referida Colónia Agrícola.
Em 10 de dezembro de 1956, refere D. João Evangelista: «Atendendo ao incremento populacional e social que tem tomado nestes últimos tempos a Colónia Agrícola da Gafanha da Nazaré, dispersa presentemente pelas três freguesias de Ílhavo, Gafanha da Nazaré e da Gafanha da Encarnação, e considerando que esta Colónia tem, e convém que tenha, um aspeto unitário e não se divida em três partes com prejuízo da sua vida comum, de acordo com os Reverendos Párocos das freguesias a que atualmente pertence a Colónia, não havendo motivos de interesses ou sentimentos locais que possam obstar à realização do intento, a Colónia Agrícola da Gafanha da Nazaré, como ela se encontra constituída, ficará pertencendo, desta data em diante, à freguesia de Ílhavo».

Só mais uma palavra

É pertinente sublinhar, meio século passado, a importância da Colónia Agrícola da Gafanha para a região. Dezenas de famílias nela se estabeleceram, criando raízes que perduram. Mas não foi fácil a vida de muitos colonos que aceitaram o desafio do Governo.
Compará-los com os primeiros gafanhões que desbravaram as dunas, criando riqueza agrícola à custa de muita tenacidade e coragem, é injusto. Os gafanhões não tinham, nos seus horizontes, outros estímulos para além da terra que a natureza lhes ofertava. Não tinham outra saída, que não fosse cavar e cavar, semear e voltar a semear, colher pouco, que muito só por milagre…
Os colonos, aqui chegados, não puderam deixar de mirar ao largo o que havia: secas, oficinas, navios, ria, mar, indústrias várias, mais perto ou mais longe, com acessos fáceis e com meios de transporte.
Os colonos gozavam de apoios variados: técnicos, sementes e gado selecionados, equipamento agrícola, incentivos, casa para viver. Mas nem isso os impediu de rumar a outras atividades. A Colónia entrou em degradação e hoje é uma pálida ideia do projeto inicial.

Fernando Martins

Comentários

João Marçal disse…
Os colonos acabaram por ganhar a sua vida fora da Colónia Agrícula contra o que estava inicialmente instituído, usufruindo de habitação gratuita e deixando para os seus herdeiros os terrenos onde se tem construído a ermo na clandestenidade. Não há comparação possível com os antigos povoadores das Gafanhas que foram inicialmente rendeiros e trabalhadores por conta dos titulares dos terrenos que os mais sabidos souberam segurar para si.
Os colonos consideram-se agora donos das propriedades mas ainda não vi sinal de qualquer um tentar recuperar a floresta que herdaram, plantada pelos nossos avós. Inicialmente a vida não lhes foi fácil, mas logo que se afoitaram a arriscar emprego fora da Colónia ficaram em melhores condições que os gafanhões autótenes. Esta é a realidade.

João Marçal
Armando Cravo disse…
Parabéns João pelo teu comentário. Tens toda a razão!

A. Cravo
Joaquim Amaral disse…
Pois, bem, se a Colónia Agricola fosse mel........os gafanhões não deixavam ir para os colonos,e se alguem tem direito aquelas terras,que segundo se diz, foram oferecidas, são os colonos k pagaram as propriedades , sim porque ainda hoje existem colonos a viver nas habitações que nem um tostão deram por elas, e aquando da possibilidade de os colonos poderem comprar a casa, ou a casa e o terreno, ou ainda a casa o terreno e o pinhal circundante ao seu " casal" como era e ainda é designado o lote de cada colono, alguns ainda compraram e é esses que defendo , porque não poderão os filhos construir naquilo que os pais compraram?

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