Crianças austríacas refugiadas de guerra na Gafanha da Nazaré


Uma estória

Só me dão sopa

Meninos e meninas das minhas idades, deles guardo a sensação de que a maioria conseguiu adaptar-se ao nosso estilo de vida. Outros, nem por isso.
Quando as famílias que os receberam se situavam a um nível social médio, com filhos ou familiares das mesmas idades, era notória a alegria das crianças: brincavam, riam e folgavam com naturalidade; outras, em famílias sem filhos e sem crianças por perto, mostravam-se naturalmente mais reservadas. Procuravam, quando podiam, as suas compatriotas para conversarem e conviverem. Nenhuma, que me lembre, falava português, mas iam-se adaptando e descobrindo as nossas palavras e expressões.
Algumas começaram a encontrar-se em casas de famílias com melhores condições de acolhimento e então era agradável ver a satisfação com que passavam o dia. Ali comiam e se divertiam.
Depois começaram a querer ficar mais tempo até que um dia assisti a uma cena triste. A criança recusava-se a regressar à família de acolhimento. Entre choros e lágrimas, agarrada à senhora que havia acolhido uma sua amiga, justificava a sua recusa dizendo, repetidamente: «só me dão sopa... só me dão sopa!»

Do livro "Gafanha da Nazaré: 100 anos de vida"


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