Gafanha da Encarnação é vila há oito anos

As efemérides, sobretudo as que nos são mais queridas, devem ser recordadas. Deixá-las cair no esquecimento, por incúria ou má memória, é crime imperdoável. Na certeza de que o presente se alicerça no passado e de que o futuro tem de estar enraizado naquilo que somos e fazemos, então urge valorizar as conquistas alcançadas, para que sirvam de estímulo aos nossos herdeiros. 

A elevação da Gafanha da Encarnação a vila, que hoje aqui evocamos, tem de ser assumida por todos os seus naturais e residentes, numa perspectiva de futuro. E para isso torna-se necessário conhecer a terra e as gentes que Maria Donzília de Jesus Almeida e Oliveiros Alexandrino Ferreira Louro retrataram no livro que publicaram em 2009. 

Para que o livro seja lido, aqui deixamos, como desafio pertinente, o discurso de apresentação da obra, proferido pela minha amiga e colaboradora, que felicito de maneira especial.

FM


Gaivotas na borda

Discurso de apresentação do livro 
"Língua e Costumes da Nossa Gente", 
da autoria de Maria Donzília Almeida 
Oliveiros Ferreira Louro 

Ilustres colegas, 
minhas Senhoras e meus Senhores,
 caros Amigos! 

Contrariando a letra, do fado clássico, acerca da cidade berço, da nossa formação académica, minha e do Professor Oliveiros, “Coimbra tem mais encanto, na hora da despedida”, nós diríamos com toda a convicção, que a Gafanha teve mais encanto, na hora do nosso regresso. 
Com efeito, desde muito cedo que andámos a calcorrear cidades e vilas, tendo começado o afastamento da nossa querida Gafanha, nos tenros 10 anos de idade, quando iniciámos estudos, na cidade de Aveiro. 
Quis o destino que nos viéssemos a reencontrar nos bancos da Lusa Atenas, onde fomos beber a sabedoria aos mestres do conhecimento. Aí, na primavera das nossas vidas, cheia de sonhos, aspirações e alguma utopia, construímos o nosso futuro profissional, que haveria de ser dedicado ao magistério. 
Pelas vicissitudes da própria profissão, fizemos vida de saltimbancos, conhecemos muita gente, adquirimos experiência, maturidade e gosto pela arte literária. 


No nosso périplo pelo país, fomos enriquecendo a nossa bagagem, nos múltiplos contactos que tivemos, com as várias faixas etárias que conhecemos e com novos e sempre atractivos espaços geográficos. 
Ao cabo de um largo percurso docente, eis-nos de regresso às origens e dá-se o nosso reencontro em escolas vizinhas, ambas na península das Gafanhas. O espaço mantinha-se quase inalterado, no entanto, o tecido social tinha sofrido uma grande metamorfose. Uma avalanche de gentes migratórias viera dar às Gafanhas, à procura de formas de subsistência. Estas ofereciam um manancial de oportunidades, as indústrias cresciam e um novo tecido social ganhava consistência. 
Foi neste contexto que ambos assentámos arraiais, na terra que nos viu nascer. 
Ao regressar, com a nossa fixação, no meio social onde nascemos, reatou-se o convívio com pessoas que sendo nascidas e criadas nesta terra, ainda mantinham traços da linguagem que remonta à nossa meninice. Aberta assim a porta das recordações, vieram à luz do dia, memórias antigas que guardávamos no nosso subconsciente. Cedendo ao apelo telúrico que nos arrebatou, surgiu o imperativo e a quase obrigação de registar no papel, o melhor que existia ainda, na tradição oral que é a essência da riqueza cultural desta gente. 
Estamos, aqui, hoje, para fazer precisamente, a apresentação desse trabalho, a que devotadamente, nos temos dedicado, nos últimos anos, com especial intensidade nos últimos meses. 
Conscientes das nossas limitações, sabemos que é um trabalho modesto, mas pretendemos que seja o impulsionador de novas abordagens, investigações mais profundas e compilações mais exaustivas sobre o que foi e o que é o sentir e o viver do povo das Gafanhas. Só assim, sabendo o que fomos, mantendo-nos fiéis à nossa identidade, não nos sentiremos perdidos no futuro. 
Esperamos que, nestas páginas, todos se revejam e se sintam retratados, nas histórias que, linha a linha, palavra a palavra, fomos escrevendo, dando liberdade ao fluir do mais profundo orgulho gafanhense. 
Tenho dito! 

M.ª Donzília Almeida 

6 de Junho de 2009

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