Gafanha da Nazaré — Sexta Década

1960-1969
A ponte que ruiu em 1994
Cada década está recheada de acontecimentos, qual deles o mais expressivo. Mas há alguns que deixaram marcas indeléveis, pela negativa, que jamais poderão ser apagadas da alma do povo. Refiro-me à Guerra Colonial que, alimentada por obsessões irrealistas e por princípios políticos ultrapassados, feriu Portugal e os portugueses.
Com o Concílio Vaticano II, anunciador de novas esperanças para a Igreja e para o Mundo, aconteceu o contrário da guerra: as marcas foram agora pela positiva. A Igreja aceitou o desafio de João XXIII e varreu os bolores e o pó dos corredores do Vaticano, deixando entrar rajadas de ar fresco.
O concílio abriu as portas à discussão e à reflexão no dia 25 de Dezembro de 1961 e encerrou os seus trabalhos no dia da Imaculada Conceição, 8 de Dezembro, do ano de 1965. Uma nova caminhada eclesial saltava os muros do Vaticano e abria-se ao mundo.
Em 1962, é nomeada Bispo de Aveiro D. Manuel de Almeida Trindade, com o Concílio Vaticano II já a decorrer, sendo considerado, por isso, um bispo conciliar. Entrou na nossa diocese em 23 de Dezembro daquele ano, depois da sua ordenação episcopal, em 16 do mesmo mês.
A Gafanha da Nazaré dá mais um salto nos caminhos do progresso, atingindo a categoria de vila, em respeito pelo seu crescente incremento industrial, aliado à sua situação geográfica, que lhe granjeou posição de excepcional relevo no conjunto portuário de Aveiro. Ainda se intensificou a emigração para França e Alemanha, sobretudo. 
A inauguração da ponte da Gafanha, junto à Friopesca, com a presença do ministro das Obras Públicas, Eng. Arantes e Oliveira, e demais autoridades locais e regionais, também aconteceu nesta década. Mas a nova ponte veio a ruir em 29 de novembro de 1994, por força das correntes que, activadas por aterros laterais ali colocados inadvertidamente, puseram a nu pilares centrais. Foi reaberta no dia 3 de janeiro de 1995.


Destaques nesta década 


1.Guerra Colonial 

No dia 4 de Fevereiro de 1961, começou, em Angola, a guerra colonial portuguesa, ao abrigo das políticas defendidas por Salazar, que proclamavam que Portugal era um país multicultural, multi-racial e multicontinental, uno e indivisível. Nas escolas, desde tenra idade, todos eram doutrinados para estes princípios, de que Portugal se estendia do Minho ao Algarve, chegando a Timor e Macau, depois de passar por Angola e Moçambique, Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Açores e Madeira. 
Alheio ao que acontecia no mundo, com países colonizadores a aceitarem a autodeterminação dos povos que durante séculos mais exploraram do que ajudaram, Salazar, fechado sobre si próprio, impôs a guerra, em força, «Porque Angola é nossa», ouvia-se na rádio, em hinos chamados patrióticos, que até comoviam.
Descontentes com a teimosia do Estado português, grupos clandestinos ousaram enfrentar a luta armada contra o opressor e as independências nasceram, concretamente, com o 25 de Abril, em Angola, Moçambique, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe e Guiné. Mais tarde, muito mais tarde, em Macau e Timor. 
A guerra está na memória da minha geração, pelas mortes que custou, pelos traumas que provocou, pelos mutilados que deixou. Tudo tende a esquecer-se, mas tal não é fácil para os que por lá passaram e para milhares de famílias que viram partir para a luta tantos dos seus filhos. Muitos por lá ficaram. Da Gafanha da Nazaré também ficou muito sangue e lágrimas de conterrâneos nossos. Foi uma guerra sem glória. Foi uma guerra perdida, que tingiu de sangue e de ignomínia uma nação que tantos rasgos de humanização, em tão diversas situações, mostrou ao mundo.
Muito se interrogam sobre o envolvimento do povo nesta política do Portugal indivisível e da guerra colonial. Os tempos, que eram outros, tudo pretendem justificar. A verdade é que não havia liberdade de imprensa nem sequer de reunião e de opinião. A propaganda abafava a informação esclarecedora e com direito a contraditório. O analfabetismo e a iliteracia, com ausência de um ensino democratizado, alimentaram a ignorância. Os mais esclarecidos e politizados eram apenas os que saltavam estas barreiras, o que acontecia naturalmente nas Universidades e na emigração. O povo, salvo raras excepções, vivia, sofrendo, a indiferença. 

2. Concílio Vaticano II

Vamos recordar que até ao Concílio Vaticano II a Igreja vivia a liturgia e a doutrinação do velho Concílio de Trento. Fechada sobre si mesma, olhando de soslaio e em tom crítico as correntes protestantes, ensaiando mais o sacramental do que o “fermento” na massa, missas em latim, com o celebrante de costas voltadas para o povo, a pregação do inferno onde por tudo e por nada se atiravam as almas para o fogo eterno, alheia e temerosa face à co-responsabilidade eclesial, com leigos como meros assistentes. Assim era a Igreja que eu senti até 1965. 

Estória

O mistério

Recordo, com saudade, os tempos em que discutia com católicos amigos, clérigos e leigos, o porquê das missas em Latim, com o povo a assistir sem participar. O sacerdote, de costas voltadas para os assistentes, que outra coisa não eram, lá ia lendo a correr os textos próprios da missa. Por vezes até ficava admirado com a velocidade com que o Latim saltava até nós como fila indiana sem paragens. Aquilo decerto estava decorado. Em dias festivos um padre cantava o Evangelho e nós, de olhos bem abertos, ali a ouvi-lo sem qualquer enfado. Parecia um ritual mágico. E um dia, já depois das missas em português, compreendi que o era mesmo. Um amigo, um pouco mais velho do que eu, quando manifestei a minha satisfação por agora se perceber o que era lido e dito na eucaristia, comentou muito sério: «É isso, meu amigo; nós precisamos de mistérios!»
Voltando atrás, quando avancei com as vantagens das missas em Português, um velho clérigo olha para mim e considerou-me literalmente um analfabeto. E disse. 
— O Latim, meu amigo, é a língua oficial da Igreja e como tal tem de ser usada em todas as situações importantes e em todas as cerimónias, como sinal de unidade.
— Mas não acha que seria melhor para o Povo de Deus perceber o que se está a ler?
— Nem pensar — ripostou ele —; o importante é que o sacerdote perceba. O povo não está à altura nem precisa de saber.
Veio tempos depois a decisão do concílio e o meu velho amigo clérigo virou acérrimo defensor da inovação.
— Que me diz a isto? — perguntei-lhe.
— Concordo, naturalmente. Fazia lá sentido as missas em Latim.

Durante séculos, o Espírito Santo passou a vida à porta das igrejas (passe a expressão, dita sem maldade) para não deixar fugir o povo. Este é que foi o grande mistério… ou milagre.

A frase atribuída a João XXIII, de que era imprescindível varrer os bolores dos paços da cúria romana, com cheiros bafientos a incomodarem uma visão realista do mundo, onde se sentia a falta de um novo homem capaz de lutar por um mundo novo, é a resposta cabal a quem duvidava da urgência de um Concílio Ecuménico.

Em 25 de Janeiro de 1959, contra os que temiam o esboroar de uma Igreja multi-secular e presa, aqui e ali, a teias de aranha que bloqueavam qualquer anseio de mudança, o bom Papa João anuncia um Concílio, que foi como semente lançada «com ânimo e mãos trémulas». E em 25 de Dezembro de 1961 convocou para o ano de 1962 a celebração do Concílio Ecuménico Vaticano II.

João XXIII, disse, na abertura do grande concílio, em 11 de Outubro de 1962, ao dirigir-se aos padres conciliares: «Queira o céu que as vossas canseiras e os vossos trabalhos, para os quais se dirigem não só os olhares de todos os povos, mas também as esperanças do mundo inteiro, correspondam plenamente às aspirações universais.» 

Depois desta evocação, seria justo e quiçá oportuno que continuasse a escrever sobre a importância deste concílio no mundo contemporâneo, quer citando as Constituições, Decretos, Declarações e demais documentos pontifícios, quer escalpelizando as transformações que implicaram uma nova visão do mundo e do homem, quer, ainda, no diálogo que estabeleceu com todas as correntes do pensamento e das crenças, valorizando sobremaneira o sentido ecuménico no contacto mais próximo com as diferentes versões do cristianismo.
«É esta, pois, a Nossa saudação: oxalá possa acender essa nova chispa da caridade divina em nossos corações; uma chispa que pode chegar o fogo aos princípios, às doutrinas e aos propósitos que o Concílio predispôs, e assim inflamados de caridade, possam de facto operar na Igreja e no mundo aquela renovação de pensamentos, de actividades, de costumes, e de força moral e de alegria e de esperança, que foi o fim do Concílio», proclamou Paulo VI, o Papa do encerramento e do lançamento, em 8 de Dezembro de 1965.
O Vaticano II não chegou a todas as frentes de imediato. Numa instituição multi-secular, as mudanças são difíceis e o Concílio continua. Até ao próximo. De concreto, o Povo de Deus deixou de assistir à missa passando a participar na missa. Na sua própria língua. O latim foi para o museu da história. E outras mudanças continuaram e outras se seguirão.

3. Bispo de Aveiro: D. Manuel de Almeida Trindade

Com o falecimento de D. Domingos, o novo Bispo de Aveiro veio do Seminário de Coimbra, onde era Reitor conceituado desde muito novo. Embora de ascendência anadiense, estava muito ligado a Coimbra, onde se formou e onde recebeu a ordenação presbiteral e episcopal. 
Conhecido pela sua serenidade, prudência e sabedoria, soube pacificar comunidades paroquiais, enquanto dinamizou as Semanas de Estudos Pastorais. Bispo dialogante e próximo, tanto junto dos sacerdotes como dos leigos, participou no Vaticano II e deste concílio soube dar testemunho, tendo participado em inúmeros encontros sobre o essencial da renovação da Igreja Católica. 
Desempenhou, também, durante seis triénios, entre 1970 e 1987, os cargos de presidente e vice-presidente do Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa. Teve, entre muitas outras tarefas próprias do seu múnus pastoral, um envolvimento muito significativo e corajoso, durante a Revolução do 25 de Abril, na defesa da liberdade. Nesse sentido apoiou e participou, em espírito de liderança, numa grandiosa manifestação de cristãos, em defesa das liberdades democráticas e pela dignificação das pessoas e da sociedade em geral.
Durante o seu ministério episcopal, D. Manuel promoveu a fundação do Carmelo de Cristo Redentor, a criação do CUFC — Centro Universitário Fé e Cultura, da Casa Diocesana de Nossa Senhora do Socorro e do Círculo de Cultura Católica. Ainda promoveu a formação do primeiro grupo de Diáconos Permanentes.
Escreveu diversos livros, de que destaco, entre outros, “O padre Luís Lopes de Melo”, “Pessoas e Acontecimentos”, “Memórias de um Bispo”, “Apontamentos de Retiros” e “Sinfonia — Notas biográficas sobre o Padre Arménio Alves da Costa Júnior”.

4. Elevação a Vila da Gafanha da Nazaré

Sendo presidente da Junta da Freguesia o comerciante da nossa terra Albino Miranda, a autarquia iniciou o processo do pedido ao Governo da elevação a vila da Gafanha da Nazaré. Os documentos a apresentar incluíam a indicação das infra-estruturas sociais, culturais, desportivas, religiosas e recreativas, bem como tudo o que dissesse respeito ao desenvolvimento e ao progresso demográfico, económico, social, comercial e industrial.
Paralelamente a essa vertente oficial, em que colaboraram alguns amigos, nomeadamente o Prior Domingos e eu próprio, fiquei responsável pela divulgação do projecto através da comunicação social. Era também uma forma de difundir o sonho dos habitantes da Gafanha da Nazaré.

O vespertino “Diário Popular” foi o primeiro jornal, que se saiba, a fazer uma reportagem sobre a pretensão das nossas gentes, feita pelo jornalista Ângelo Granja e publicada em 21-12-1966. No antetítulo sublinhava «Do deserto nasceu um oásis…» e no título «A Gafanha da Nazaré luta pela sua elevação à categoria de vila». Numa caixa, destacava «Aspirações de uma aldeia conquistada às dunas e transformada numa das mais importantes do País». Acompanhei a equipa de reportagens e recebi-a em minha casa.
Seguiu-se o Comércio do Porto, graças à excelente colaboração do jornalista Daniel Rodrigues, correspondente, em Aveiro, daquele matutino portuense, que aproveitou as suas reportagens, inclusivamente, para se lançar na Gafanha da Nazaré aquele diário, onde apenas tinha um leitor, que a loja de jornais e revistas do ilhavense José Quinteles Pereira, antecessora do actual Quiosque Terramar, lhe vendia diariamente, perto da igreja, em espaço arrendado, que foi dos pais de Dona Maria da Luz Rocha.
O decreto da elevação a Vila, assinado pelo Presidente da República, Américo Thomaz, em 29 de Outubro de 1969 e publicado no Diário do Governo n.º 254 (1.ª série), na mesma data, especificava, precisamente, as razões que justificavam a categoria de Vila, a saber:
«O crescente incremento industrial da referida freguesia, factor que, aliado à sua situação geográfica, lhe granjeou posição de excepcional relevo no conjunto portuário de Aveiro»; e «O progresso social registado na povoação da Gafanha da Nazaré, o qual se traduz na existência de diversas instituições de interesse público, entre as quais Casa dos Pescadores, Posto Médico da Previdência, Grupo Desportivo, Cinema e Mercado.»
Na altura, como sempre, não faltaram os “Velhos do Restelo”, que Camões tão bem retratou. Que ganharia a Gafanha da Nazaré com tal promoção? Que condições tinha para ostentar esse título? — questionavam eles.
A resposta que mais ouviam sublinhava que o título de Vila serviria para, com mais veemência e razão, se reclamar, junto dos poderes constituídos, o que faltava a uma terra que acabara de ser promovida.
A Gafanha da Nazaré, com tal categoria, encheu de brio os gafanhões, que outros sonhos começaram a alimentar. Depois de Vila há-de vir a Cidade. Como veio. 

Também outros começaram a alimentar o sonho da criação do concelho da Gafanha da Nazaré, havendo os que contestavam tal propósito, a par dos que lutavam sem medir consequências. Falava-se menos da transferência para o concelho de Aveiro e mais da criação de um concelho próprio que, previsivelmente, seria o concelho da Gafanha, numa óptica de incluir todas as Gafanhas ou parte delas.

Decreto n.º 49332

«Considerando o acentuado desenvolvimento demográfico da freguesia da Gafanha da Nazaré do concelho de Ílhavo, designadamente da povoação sede da mesma freguesia;
Considerando o crescente incremento industrial da referida freguesia, factor que, aliado à sua situação geográfica, lhe granjeou posição de excepcional relevo no conjunto portuário de Aveiro;
Considerando o progresso social registado na povoação da Gafanha da Nazaré, o qual se traduz na existência de diversas instituições de interesse público, entre as quais Casa dos Pescadores, Posto Médico da Previdência, Grupo Desportivo, Cinema e Mercado;
Tendo em vista os pareceres concordantes da Junta Distrital e do Governador Civil do Distrito de Aveiro;
Nos termos do Art.º 12.º do Código Administrativo;
Usando da faculdade conferida pelo n.º3 do Art.º 109.º da Constituição, o Governo decreta e eu promulgo o seguinte:
Artigo Único – É elevada à categoria de Vila a povoação da Gafanha da Nazaré, sede da freguesia do mesmo nome, do concelho de Ílhavo.

Marcelo Caetano e António Manuel Gonçalves Rapazote
Promulgado em 15 de Outubro de 1969

Presidência da República, 29 de Outubro de 1969
Américo de Deus Rodrigues Thomaz»

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