Gafanha da Nazaré — Quarta Década

1940 – 1949


A quarta década foi marcada por avanços significativos em vários campos, que elevaram a qualidade de vida das populações. Em 1940, o sector da saúde viu chegar a primeira farmácia — Farmácia Morais —, que ainda é hoje [2010] propriedade da atual diretora técnica, Maria Ester da Silva Ramos Morais. Por pura coincidência, na mesma altura montaram consultório na nossa terra os médicos Maximiano Ribau, da Gafanha da Nazaré, e Joaquim António Vilão, natural de Mata-dos-Lobos, Figueira de Castelo Rodrigo. Um outro médico, natural da Gafanha da Nazaré, mas residente em Ílhavo, onde casou, José Rito, também aqui dava consulta. Foi o primeiro clínico gafanhão.
O célebre desastre da Nau Portugal, que adornou na ria, aquando do bota-abaixo, tornou mais famoso o Mestre Mónica, que, segundo a tradição popular, havia previsto essa situação. Na altura, a nossa terra foi muito badalada, persistindo na memória de muitos o que aconteceu, com a Nau a deitar-se lentamente na laguna.
O naufrágio do lugre-motor “Maria da Glória”, atacado em 1942 por um submarino alemão, no auge da II Grande Guerra, quando regressava da Groenlândia da pesca do bacalhau, deixou de luto, nas Gafanhas, 12 famílias. Dos sete sobreviventes, três eram gafanhões.
D. João Evangelista foi eleito Bispo de Aveiro nesta década, assumindo desde logo a realização do I Sínodo da Igreja de Aveiro, sob o signo da unidade. A nossa Diocese, restaurada, havia sido constituída por paróquias oriundas das dioceses do Porto, Coimbra e Viseu, tendo este sínodo a finalidade de ultrapassar tradições religiosas, determinações eclesiásticas, histórias e costumes locais, estabelecendo a unidade necessária e possível.
A Gafanha da Nazaré acolhe novo Prior, Padre José Henriques da Eira Bastos, e a Ação Católica dá os primeiros passos entre nós. Inicia-se a construção da primeira Residência Paroquial.
Termina a II Grande Guerra e crianças austríacas são acolhidas na nossa paróquia, como noutras do nosso país, na qualidade de refugiadas.
Nesse período é publicado o célebre Despacho 100/45, com o intuito de renovar e ampliar a frota mercante nacional, o que aconteceu. A Gafanha da Nazaré vai lucrar bastante com essa decisão do Estado Novo. Mais construção naval, mais pesca do bacalhau, mais trabalho para muitos.
Nesta década, já com idade para ouvir os mais velhos, tive a sorte de conhecer e de conviver com um patriarca da Gafanha da Nazaré. Vivíamos numa sociedade que cultivava o respeito pelos mais idosos. Naquela altura quem olha de baixo, vê os adultos como velhos. O tio João Catraio era portanto, para mim, um velhinho que minha mãe me ensinara a respeitar. Ouvia-o com frequência. Todos os dias à noite ia a sua casa comprar o leite para a manhã seguinte. Nunca me cansei de o ouvir. E dessas conversas, algumas vivências e informações dele nos hão de acompanhar na vida.
A Ação Católica entra na Gafanha da Nazaré, como Movimento de conscientização e de formação, tendo por base a Doutrina Social da Igreja e como objetivos a luta pela justiça no mundo profissional, académico e noutras frentes, nomeadamente na política.
Surge um visível descontentamento em relação às políticas seguidas pela Câmara Municipal de Ílhavo, no concernente à indiferença com que a autarquia olha para as Gafanhas, e disso falaremos um dia destes.
Em 10 de Dezembro de 1948, as Nações Unidas proclamam a Declaração Universal dos Direitos Humanos, um conjunto de princípios que definem o essencial do que diz respeito ao homem, no seu sentido mais amplo, ocupe ele o lugar que ocupar no universo.
Na quarta década, registou-se e renovação da Marinha Mercante Nacional, à sombra do célebre Despacho 100, sob patrocínio do então ministro da Marinha, Américo Tomás. Era uma resposta concreta ao «sufoco que Portugal sentiu durante a guerra por não ter navios próprios para o transporte de bens essenciais à sua sobrevivência e depois do desaparecimento quase total de navios estrangeiros nos nossos portos».
Com o incremento provocado pelo badalado despacho, a frota nacional cresceu substancialmente. «De 1934 a 1967 o total de navios que vão ao bacalhau quase duplica. A campanha de 1958 foi aquela que contou com maior número de unidades — 77.» Isto significa mais construções de navios, mais trabalho, mais pescas. E intensificam-se as migrações para a Gafanha da Nazaré.

Do livro “Gafanha da Nazaré — 100 anos de vida”, de minha autoria, publicado em 2010

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