Avançar para o conteúdo principal

GAFANHA: Coisas de antigamente - 3

:
As Malhadas
Depois das sementeiras e regas, com sacha pelo meio, vinham as esperadas colheitas, nem sempre abundantes. Tudo feito a poder de braço e com a ajuda de alfaias simples. A foicinha, nas mãos hábeis dos nossos avós, fazia prodígios e campos enormes eram ceifados com rapidez. O transporte em carros de vacas ou bois era feito com alegria, que o osso mais duro já estava roído. Estamos a falar de cereais, está bem de ver. As batatas, arrancadas muitas vezes à mão, com as facilidades oferecidas pela areia, eram de seguida levadas para o celeiro à espera da melhor hora para a venda. Voltemos aos cereais e às malhadas que só mudaram de técnica em 1935, altura em que começaram a ser utilizadas as malhadeiras motorizadas. Até aí, a força humana e animal é que imperou. Diz o Padre Resende e disso fomos testemunha e interveniente: “Estendido na eira o cereal a debulhar, defrontavam-se duas alas de malhadores que começavam por dar pancadas rítmicas e cadenciadas no mesmo ponto, até que saíssem da espiga o grão e a pragana; deixando de sair o grão, as alas avançavam em eitos sucessivos até percorrer toda a malhada. Aquelas pancadas rítmicas obedeciam geralmente ao comando de um dos homens das duas filas, e eram executadas a compasso de dois tempos irregulares, isto é, quando a primeira fila de malhadores dava a pancada com o malho baixo, breve e fraca, a outra actuava do mesmo modo. Quando essa primeira fila dava o pancadão, de malho alto e repuxado, demorado e fortemente, assim também o executava a segunda fila. Percorrida pela primeira vez toda a malhada com pancadas e pancadões em série de eitos, ao que chamavam quebrar a pragana, retiravam a palha solta, levadiça, e percorriam novamente a malhada a propósito, diziam. O último eito da série de percorridas da malhada que eram necessárias para completa saída do grão era constituído somente por pancadões, executados à voz de quem dirige a malhada. Este, ao começar o último eito gritava: mat’ ò rato. E todos, de músculos tensos, corpo estendido e malho repuxado, percorriam a eito toda a eira, do princípio ao fim, repetindo a frase e em grande grita”. Mas se a malhada com o malho, como é óbvio, era a mais usual, não podemos esquecer outros processos empregados para separar o grão da espiga. Um deles, por exemplo, também teve a sua época. Referimo-nos à utilização de animais (vacas, sobretudo). Caminhando em círculo sobre o cereal estendido na eira, lá iam separando o grão da espiga com uma paciência inaudita, sob o olhar atento das pessoas que, de penico ou balde na mão, impediam que os excrementos e urina caíssem sobre os cereais.
Fernando Martins
NOTA: A foto não é das Gafanhas. Não há por aí quem me ofereça uma?
:

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Gafanha em "Recordações de Aveiro"

Foto da Família Ribau, cedida pelo Ângelo Ribau António Gomes da Rocha Madail escreveu na revista “Aveiro e o seu Distrito”, n.º 2 de 1966, um artigo com o título de “Impressões de Aveiro recolhidas em 1871».   Cita, em determinada altura, “Recordações de Aveiro”, de Guerra Leal, que aqui transcrevo: (…)  «No seguimento d'esta estrada ha uma ponte de um só arco, por baixo da qual atravessa o canal que vai a Ilhavo, Vista Alegre, Vagos, etc., e ha tambem a ponte denominada das Cambeias, proxima à Gafanha.  É curiosa e de data pouco remota a historia d'esta povoação original, que occupa uma pequena peninsula. Era tudo areal quando das partes de Mira para alli vieram os fundadores d' aquelIa colonia agricola, que á força de trabalho e perseverança conseguiu, com o lodo e moliço da ria, transformar uma grande parte do areal em terreno productivo. Foi crescendo a população, que já hoje conta uns 200 fogos, e o que fôra esteril areal pouco a pouco se transformou em fertil e

Colónia Agrícola da Gafanha da Nazaré

Alguns subsídios para a sua história Em 1888,  inicia-se a sementeira do penisco no pinhal velho, terminando, na área da atual Gafanha da Nazaré, em 1910. Somente em 1939 ultrapassou o sítio da capela de Nossa Senhora da Boa Hora, ficando a Mata da Gafanha posteriormente ligada à Mata de Mira. (MG) A Colónia Agrícola da Gafanha da Nazaré foi inaugurada numa segunda-feira, 8 de dezembro de 1958, Dia da Imaculada Conceição, Padroeira de Portugal. Contudo, o processo desenvolvido até àquela data foi demorado e complexo. Aliás, a sua existência legal data de 16 de novembro de 1936, decreto-lei 27 207. Os estudos do terreno foram iniciados pela Junta de Colonização Interna em 1937, onde se salientaram as «condições especiais de localização, vias de comunicação e características agrológicas», como se lê em “O Ilhavense”, que relata o dia festivo da inauguração. O projeto foi elaborado em 1942 e, após derrube da mata em 1947, começaram as obras no ano seguinte. Terraplanagens,

1.º Batizado

No livro dos assentos dos batizados realizados na Gafanha da Nazaré, obviamente depois da criação da paróquia, consta, como n.º 1, o nome de Maria, sem qualquer outra anotação no corpo da primeira página. Porém, na margem esquerda, debaixo do nome referido, tem a informação de que faleceu a 28-11-1910. Nada mais se sabe. O que se sabe e foi dado por adquirido é que o primeiro batizado, celebrado pelo nosso primeiro prior, Pe. João Ferreira Sardo, no dia 11 de setembro de 1910, foi Alexandrina Cordeiro. Admitimos que o nosso primeiro prior tomou posse como pároco no dia 10 de setembro de 1910, data que o Pe. João Vieira Rezende terá considerado como o da institucionalização da paróquia, criada por decreto do Bispo de Coimbra em 31 de agosto do referido ano. Diz assim o assento: «Na Capella da Cale da Villa, deste logar da Gafanha e freguesia de Nossa Senhora de Nazareth, do mesmo logar servindo provisoriamente de Egreja parochial da freguesia de Nossa Senhora de Nazareth, concelho d’Ilh