Gafanha da Nazaré — Quinta década

1950-1959

Com a aplicação do Despacho 100/45, esta década saiu fortemente beneficiada. Os estaleiros souberam aproveitar a dinâmica imposta pelo despacho, respondendo aos desafios das empresas de pesca. Mais navios, mais pescas, mais trabalho nas secas, mais empresas paralelas, mais gente. O mesmo sucedendo com o tratamento do fiel amigo e sua secagem natural, ao sol e vento. Um pouco mais tarde, em estufas, de que foi pioneira a EPA — Empresa de Pesca de Aveiro.
As empresas de pesca do bacalhau recorreram a pessoal de várias regiões do país, nomeadamente das Beiras e do Norte, que aqui se estabeleceram. Daí resultaram problemas sociais graves, no início, já que em deficientes habitações se alojam diversas famílias, em situações deploráveis. 
Distinguiram-se nessas migrações pessoas de Fafe, que vieram para trabalhar nas secas do bacalhau. Trouxeram forte vontade de lutar e de poupar, pensando certamente no regresso, mas muitas por aqui se fixaram, integrando-se plenamente nas Gafanhas, em especial na Gafanha da Nazaré. Trouxeram, também, os seus usos e costumes, bem como os seus cantares, que exibiam de manhã e à noite, na ida e no regresso do trabalho. Está na memória de muitos gafanhões a forma descontraída e rápida como faziam meias, nas suas caminhadas, enquanto cantavam as modinhas da época e das suas terras.
Em 15 de Janeiro de 1952 é fundada a mais antiga associação da nossa freguesia, ainda em atividade: Grupo Columbófilo da Gafanha da Nazaré. Foram seus fundadores João Nunes Bola, Joaquim Robalo Campos, Augusto Francisco Ferreira e Joaquim Pereira. Tinha como objetivos principais cuidar, criar, selecionar e treinar pombos-correios para competição em concursos, quer a nível nacional quer internacional, organizados pela Federação Portuguesa de Columbofilia.
Com 85 associados maioritariamente da Gafanha da Nazaré, mobiliza para esses concursos, semanalmente, 1250 pombos, só da nossa freguesia, durante seis meses.
Nesta década verifica-se um acidente gravíssimo, que, felizmente, não provocou vítimas mortais. A ponte de madeira que ligava o Forte à Barra ruiu com o peso de uma camioneta, do senhor Manuel Russo, carregada com cinco toneladas de areia. 
O Mercado da Gafanha começa a criar raízes, em novo espaço, e entra na paróquia o quarto Prior, Padre Abílio Augusto Saraiva. Entre a saída do Prior Bastos e a entrada do Prior Saraiva acumulou o serviço paroquial, interinamente, o Padre António Diogo, ao tempo Prior da Gafanha da Encarnação.
Dá os primeiros passos a Obra da Providência, enquanto o Grupo Desportivo da Gafanha vê oficializados os seus estatutos. 
Em 1955 assume a paroquialidade da Gafanha da Nazaré o Padre Domingos Rebelo, que intensificou entre nós o culto a Nossa Senhora e implementou o estudo bíblico, como resposta à entrada na freguesia das ideias protestantes. 
Em agosto de 1958, D. Domingos da Apresentação Fernandes assume as responsabilidades de Bispo de Aveiro, sucedendo a D. João Evangelista. 
O jornal “O Ilhavense” transcreve de “O Século”, com data de 11 de novembro de 1958, um texto intitulado “Gafanha — Terra de Agricultores e Marinheiros, quer trabalhar para o seu progresso e para benefício da economia nacional”. E a dado passo lê-se:

«Terra árida e sem vegetação, queimada por um sol ardente e desabrigada, exposta aos ventos agrestes e calor sufocante; terra mártir, condenada ao abandono pelos dons da natureza, foi à custa de “sangue suor e lágrimas” dos seus habitantes que a Gafanha atingiu o atual alto grau, podendo orgulhar-se de ocupar lugar de relevo como centro industrial.
(…)
Mas um dia, um ser humano, mais forte e persistente, cheio de coragem e com ardor, cavou terra, remexeu-a, estrumou-a com os moliços da Ria, plantou e colheu o fruto do seu trabalho; a vegetação tinha começado. O homem mais uma vez vencera.»

A Colónia Agrícola é inaugurada e anexada, sob o ponto de vista pastoral, à freguesia de S. Salvador. Nasce o Timoneiro e a Catequese adapta-se às novas pedagogias. O protestantismo entra na Gafanha da Nazaré para ficar. Há novo Bispo de Aveiro. Instituições dão os primeiros passos.
Ainda nesse ano, Humberto Delgado disputa as eleições presidenciais, confrontando-se com Américo Tomás. Este vence oficialmente as eleições, mas a oposição democrática denuncia a fraude, atribuindo a vitória ao general que tinha garantido, na campanha eleitoral, que demitiria «obviamente» o chefe do Governo, António Oliveira Salazar.
Como consequência da campanha eleitoral, Salazar promove, em agosto de 1959 uma revisão constitucional, na qual se suprime o sufrágio direto para a eleição do Presidente da República, substituindo-o por um sufrágio indireto, proporcionado por um colégio eleitoral de total confiança do Governo.
Nessa mesma altura, na tomada de posse da União Nacional (partido único no País), Salazar ameaça rever a concordata se a Hierarquia da Igreja católica não for capaz de assegurar a manutenção da «frente nacional» entre o Estado Novo e os católicos. É justo lembrar que se deve em grande parte à Acão Católica esta tomada de consciência do povo português face aos problemas sociais, políticos, mas ainda face aos direitos fundamentais dos cidadãos.
Em 1959, Aveiro celebrou o milénio da sua existência, graças à referência feita pela Condessa Mumadona, quando legou as suas marinhas de sal que possuía em Alavarium. Também celebrou o bicentenário da sua elevação a cidade. Os festejos foram diversos e como nota interessante, para nós, o Mestre Manuel Maria Bolais Mónica, com a sua arte e saber, ergueu na ponte da Dobadoura um mastro de um navio, que assinalou durante algum tempo as referidas efemérides.
Nesta década e por iniciativa do Prior Domingos dão-se os primeiros passou para a organização da Catequese paroquial, destinada em especial à infância. Até aí, as senhoras mestras, e um ou outro mestre, encarregavam-se da tarefa de educar na fé as crianças, normalmente até à primeira comunhão. O crisma recebia-se sem qualquer preparação específica. O autor destas linhas foi crismado por D. Domingos da Apresentação Fernandes, por simples aviso. Todos em fila, com os padrinhos escolhidos no momento (um adulto era, como foi o meu caso, padrinho de muitos crismandos. depois aderiu a uma Igreja Evangélica), sem mais.

Fernando Martins

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