A Nau Portugal

::
D. João Evangelista

A NAU

Já estou velhinho, já sinto o frio da cova nos pés. É natural que nos meus longos anos, expostos de mais a mais às ondas, nem sempre calmas, do destino que Deus me marcou ao nascer, eu tenha sentido pancadas terríveis no peito, capazes de o quebrarem, de o fazerem em pó, se não se tornasse em bronze indestrutível a mísera carne que o Senhor predestinou para o mais agitado dos apostolados, o apostolado das almas. Às vezes até parece que a vaga passa por uma tal forma por cima da cabeça que nos prega para sempre no fundo de tenebrosos abismos, e não mais voltamos à tona d’água a rivedere le stelle, como dizia o Dante ao fim do Inferno.
Tudo pareceu porém ontem diluir-se, e como que perder-se nas recordações longínquas a ponta mais aguda e mortífera dos seus espinhos, a gota mais amarga do meu veneno, ao golpe imprevisto, mil vezes trágico, que me esmigalhou a alma na Gafanha da Nazaré.
Parecia uma noiva, a nau Portugal, pronta a entrar na Igreja, com a coroa da glória na fronte e o manto de virgem a arrastar na história. Eu passei-lhe a mão pela quilha, ávida de cortar para a frente as águas, de fazer espuma ao passar, como quem faz uma festa na face de um filho, como quem beijaria, a transbordar de ternura, os olhos da sua mãe. E, senti, nessa carícia, bater lá dentro o coração da Pátria; eu ouvi, assim encostado o ouvido à proa altiva do barco, a voz de oito séculos que se não calava. Eu dei-lhe a bênção do meu ritual, mas dei-lhe ainda mais talvez – quem sabe se não me fez irreverente o delírio! – a bênção do meu amor. Estava-me a parecer que, se eu fosse embrulhado para a terra numa dobra daquela bandeira, nenhum verme me tocaria, até o peito morto teria vibrações misteriosas no túmulo.
Quando lhe cortaram a amarra, que a prendia ainda às areias, dir-se-ia que a alma de Portugal estremeceu e parou. Ia dobrar-se o Bojador? Descobriu-se a Índia? Iam outra vez ultrapassar-se as tormentas? Quem era aquele que estava lá em cima, erguido ao centro como um gigante, agarrado às cordas com os cabelos ao vento, gritando descobrimentos, conquistas, império? Era o Gama?? Era Alenquer, Albuquerque, maiúsculas ou minúsculas dos navegantes, das estrofes de Luís de Camões? Era um tal encontro de heroísmos e de glórias no crânio, eram clarins e tambores de triunfo a rotarem por tal forma, com tanto estrondo, na alma, que a alucinação me invadia e nem parecia que tocava no chão com os pés.
A esposa de Portugal cortou em triunfo pelo estaleiro e acordou alegremente a ria à entrada. Por um momento ainda tudo delirou e sorriu, o sol, o Vouga, o coração de toda a terra de Portugal. De repente, porém, vimo-la nós todos entristecer, ela tombou a face para o lado, como quem já não tem força para resistir à morte, e caiu fulminada no leito das águas.
Até ninguém queria acreditar ao princípio, abriram-se olhos grandes, mas era verdade; a nossa nau, a nossa filha, a nossa irmã, estava ali morta, com o fundo para o ar, com a face colada ao martírio, caíam-lhe ainda as lágrimas dos mastros, das velas, do leme em luto. Era um cadáver!
Ó mundo cheio de ilusões e de enganos! Que frescura e que pompa, há dois minutos apenas! Que cemitério, agora!
Já lá vão quase vinte horas depois do desastre, e eu ainda não sei como poderá passar no meu peito, sem o fazer estalar, o choque de duas paixões tão intensas, de duas loucuras, ia eu a dizer: a alegria da nau em triunfo com as flâmulas a tremularem no azul, e o seu naufrágio, com a água agora a cuspir-lhe na fronte.
Mónica, ó mestre, não foste tu só, durante a noite, a arrepelar os cabelos, a molhar das tuas lágrimas uma cama de febre. Outros houve, quem sabe quantos, que não fecharam os olhos também.
Mas sossega. Esta morte há-de ter a sua ressurreição. Lázaro poderá estar quatro dias na sepultura, mas virá o taumaturgo que lhe há-de dizer:
– Levanta-te!

D. João Evangelista de Lima Vidal,
Arcebispo-Bispo de Aveiro


Nota: Texto publicado, sem assinatura, no Correio do Vouga, em 13 de Julho de 1940. O bota-abaixo, em que a nau, ao entrar na ria, se inclinou até os mastros pousarem na água da laguna, aconteceu em 8 de Julho de 1940. D. João Evangelista conta, de forma poética, como ele tão bem sabia fazer, o que viu e sentiu. Actualizei alguns vocábulos.

FM

::

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A Ponte da Cale da Vila que ruiu

A Borda