TECENDO A VIDA UMAS COISITAS - 317

PITADAS DE SAL – 47


E OS PROPRIETÁRIOS DAS MARINHAS?!..

Caríssima/o:

As marinhas tinham donos (os proprietários) e havia pessoas que nelas trabalhavam: os marnotos, os moços, as mulheres... 
Nos tempos que já lá vão (há 50, 60 e mais anos…), tínhamos vizinhos em todas estas «classes». Com que deferência eram tratados os nossos patrícios donos de marinhas de sal! E na memória coletiva pairava a ideia de «pessoas ricas». 
Também os marnotos estavam uns degraus acima dos artistas nas várias profissões; trabalhavam muito e no duro, mas gozavam da fama de que tinham dinheiro. 

Mas afinal de quem são as marinhas?
Com vossa licença vou desdobrar algumas páginas que nos apresentam dados concretos e curiosos:


«De acordo com o estudo de mercado realizado pela empresa MultiAveiro (2006), as salinas de Aveiro são propriedade maioritariamente de particulares. Verifica-se também a existência de outra tipologia de proprietários, embora de forma residual, como empresas e bancos, (Soares da Costa e Banif). As entidades Câmara Municipal de Aveiro e Universidade de Aveiro são também proprietárias de salinas, 4 (quatro) e 5 (cinco) respectivamente, estando duas dessas salinas a produzir sal pelo método artesanal (uma de cada entidade). A Marinha da Troncalhada, propriedade da Câmara Municipal, assume-se como um Ecomuseu e a Marinha de Santiago da Fonte, propriedade da Universidade de Aveiro, foi objecto de uma intervenção no âmbito do projecto Interreg IIIB Sal do Atlântico (2004-2007), ao nível do armazém e da área exterior permitindo uma adaptação para novas funcionalidades, nomeadamente o desenvolvimento de actividades de investigação e científicas. Não existem vínculos claros entre os proprietários e os produtores, apenas existe uma ligação informal. Os proprietários não possuem conhecimento das quantidades de sal produzidas nas suas salinas, nem dos circuitos de comercialização. As salinas estão “cedidas” aos produtores sendo a contrapartida a sua manutenção.» 

E de quem eram?

Para o sabermos, teremos de consultar os escritos dos entendidos. Neste caso, consultemos Aveiro e os caminhos do sal – da produção ao consumo (sécs. XV a XX), de Inês Amorim e a partir da página 31 encontraremos, com certeza, material abundante que satisfará a nossa curiosidade. Sem entrar nos pormenores, apenas fixo a minha atenção no «parágrafo» relativo ao estatuto socioprofissional dos proprietários, nos finais do século XVII, limitando-me a uma enumeração: padres, freiras, conventos, capelas, misericórdias, Ordem de Cristo, Casa Real, Corte, homens de negócios e mercadores, familiares do Santo Ofício, funcionários, licenciados, cidadãos, irmãos da Misericórdia… 
E no desenrolar do escrito lá encontramos os Rangel, Perestrelo, Quadros, Silveiras… e mais tarde (1814), também os Bacelar, Oudinot, Gomes de Carvalho, Guerner (estes da cidade do Porto).

Não há dúvida que um dos capítulos bastante saboroso desta saga do sal é o do regime de exploração das marinhas e das relações estabelecidas entre o proprietário e o marnoto ao longo dos séculos; se aí mergulharmos e soubermos ler com humildade todas as suas lições, talvez a crise passe de largo! 

Manuel





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