segunda-feira, 30 de março de 2009

Povoamento da Gafanha: História ou lenda?

Diz o Padre Rezende, na sua Monografia da Gafanha: (…) “Esta tradição diz-nos que a Gafanha teve como primeiros habitantes quatro criminosos, a quem a Justiça do tempo, que se não pode precisar, mandou cumprir a pena de degredo nesta África Continental. Si vera est fama não têm os nossos briosos gafanhões pergaminhos muito honrosos e limpos com que possam gloriar-se. Felizmente que estes povos desmentem cabalmente a tradição desonrosa. Adiante. O argumento colhe, e senão vejamos. Não é ainda hoje designado com o nome da Quinta-dos-Degregados um extenso território ao norte da Torreira, de que a Gafanha de pode considerar o prolongamento? Esta designação supre quaisquer documentos abonatórios das condenações presidiárias para esta região semi-africana. É presumível que tais documentos existam, mas não é fácil que cheguem às mãos de qualquer obscuro investigador das coisas da Gafanha. (…) Para satisfazer, porém, a uma tradição corrente, voltemos aos quatro criminosos, dos quais um, segundo se diz, seria murtoseiro (vulgarmente chamado marinhão) e que se instalou no local que, por isso, ainda agora se denomina Quinta-do-Marinhão; outro vareiro (habitante de Ovar), que construiu a sua cabana onde actualmente existe a Quinta-do-Vareiro; um outro, de proveniência desconhecida, que se fixou onde agora conhecemos a Quinta-do-Carramão, que dele tirou o nome; e o quarto, de quem também não me puderam informar a proveniência e bem assim para onde foi a arrastar a sua suposta grilheta.”

sábado, 28 de março de 2009

Devoção pelas Almas do Purgatório

Gafanha da Nazaré: Tópicos para uma palestra proferida hoje

Painel das Almas à frente do grupo

Perde-se no tempo a devoção pelas Almas do Purgatório. Antes do cristianismo, já os filhos de Abraão rezavam pelos mortos, na esperança de que Deus os conduzisse e aceitasse no paraíso. Depois, com a Boa Nova de Jesus Cristo, intensificou-se esta devoção, sendo certo que ainda hoje se mantém, talvez não tanto como na nossa meninice. A devoção do Povo de Deus, bem alimentada pelas prédicas e catequeses dos sacerdotes, levou ao surgimento de Irmandades, que tinham por missão estimular o culto, participar nos funerais e encomendar a celebração de missas pelas almas, entre outras obrigações. Mas o culto dos mortos, como é sabido, não existe só no catolicismo. (Há Igrejas cristãs que não aceitam o Purgatório, razão de ser das orações pelos almas dos mortos). Noutras civilizações e culturas também houve e há a crença na vida do além, a que estão ligados muitos actos cultuais. Permitam-me que lembre hoje as “Alminhas”, junto às estradas ou nas encruzilhadas dos caminhos. Pequenos nichos ou capelinhas que nos recordam os que morreram e que são um convite a que rezemos por eles. Aqui na Gafanha da Nazaré também havia “Alminhas”, com um postigo para deixarmos as nossas ofertas. O dinheiro era recolhido pelo proprietário, para mandar celebrar missas. Havia dentro um painel que nos recordava o sofrimento dos que estavam no Purgatório. Uma lamparina e flores completavam o quadro. As Alminhas da Cale da Vila e da Chave, as que conhecemos mais de perto, eram antigas. A da Cale da Vila foi construída em 1864 e a Chave em 1910. Recordo, com saudade, os tempos em que, na quaresma, as devoções se intensificavam. O sofrimento de Cristo, do tamanho dos pecados do mundo, era sentido pelos fiéis, com especial envolvimento de toda a gente crente. Crente e menos crentes, porque de alguns destes ouvi que só participavam nas missas que se celebravam pelas almas, quer no dia dos funerais, quer do sétimo dia, quer nos dias dos fiéis, 2 de Novembro, em que havia três missas seguidas, com as igrejas sempre cheias. Na quaresma, nas Gafanhas e noutras comunidades religiosas, as devoções pelas almas proporcionavam vivências muito fervorosas, com o povo a reunir-se, para, em grupo, visitar todas as casas, não só para rezar e cantar, mas também para recolher esmolas, para mandar rezar missas. Havia a tradição de “ouvir” missas pelos fiéis defuntos, tarefa que competia a pessoas idosas e disponíveis, mas também pobres, que recebiam esmolas por isso. Substituíam as que trabalhavam ou muito ocupadas. Sem luz eléctrica que iluminasse caminhos, noites escuras se a Lua estivesse escondida, lá íamos, respeitosamente, rezando e cantando, atrás da claridade frouxa de duas lanternas, que ladeavam o Painel das Almas. O grupo ia engrossando, ou diminuindo, com gente que entrava e saía, porque nem todos podiam caminhar muito, afastando-se demasiado das suas habitações. Mas ouçamos a descrição que o Padre João Vieira Rezende faz destas devoções, já que, na Gafanha da Encarnação, de que foi pároco, entre 10 de Novembro de 1928 e 1948, as vivenciou e das quais deixou expressivos registos, na sua “Monografia da Gafanha”, conforme se lê na segunda edição que possuo, com data de 1944. “... Às 9 horas da noite tocava o búzio a lembrar aos fiéis as almas dos seus defuntos. Mais tarde, era o badalar plangente do sino que recordava a devoção pelos defuntos... Foi um século de oração quotidiana em favor dos defuntos e que as leis draconianas de 1910 sufocaram com mordaça inclemente. “Para os habitantes do lugar à lareira, para os moliceiros e pescadores das aldeias, de Ílhavo, Vagos e Murtosa, que a essa hora mourejavam na faina da ria, e para as almas retiradas no Purgatório, emudecera aquele despertador salutar que a todos levava consolações suavíssimas, restando agora somente a emoção saudosa de tempos que não voltam! (Nas famílias, à noite, depois da reza do terço, antes ou depois da ceia, era interminável o número de mortos que se recordavam e pelos quais rezávamos um Pai Nosso e uma Ave Maria, e “Dai-lhes, Senhor, o eterno descanso…) “A par deste costume, um outro do mesmo género se manteve por mais tempo. Em certos e determinados dias da Quaresma, homens e mulheres, em grupo, que a pouco e pouco ia crescendo, percorriam o lugar quando todos se preparavam para descansar das fadigas diurnas. “Painel de madeira à frente, ladeado de duas lanternas, lá seguia o grupo que ajoelhava a cada porta, de mãos postas, rostos piedosamente inclinados, a rezar, a pedir pelos que tinham partido daquele lar. A treva da noite quebrada pela luz baça das lanternas, a efervescência das preces, a toada fúnebre e plangente dos cânticos, tornavam solenemente lúgubre o cortejo deprecatório. “E a pintura das figuras resignadas do painel, a sobressair da penumbra das lanternas, com toda a liturgia do coro que deambulava a sufragar a almas que esperavam libertação, tornava o cenário mais emotivo e confrangedor. “No plano inferior da pintura do painel, Reis, Marqueses, homens e mulheres de mãos suplicantes e envoltas em línguas de chamas, a esperar amorosamente o momento da libertação, olham o Crucifixo nimbado por raios divergentes do Coração do Redentor. “A sobrepujar no plano superior, S. Miguel, de balança e espada na mão, subjuga sob os pés o dragão alado em cujo arreganho infernal e olhar demoniacamente coruscante se adivinha a raiva de um plano frustrado. E o grupo continua a cantar sentimentalmente, comovedoramente, a elegia dos mortos, com o pensamento no mundo do além.” O Padre Rezende ainda acrescenta que “A promiscuidade dos sexos, os abusos em actos tão santos, de noite e em tempos de depravação, não abonavam a intenção dos bons, antes aconselhavam a supressão desta tão antiga e simpática devoção. Assim se fez, e hoje [1944] apenas se tira a esmola de dia com o mesmo fim”. Permitam-me que sublinhe que, durante a minha curta experiência e vivência desta devoção, nunca presenciei qualquer atitude menos correcta, fosse de quem fosse. Pelo contrário, na minha memória perdura a devoção que o Cantar das Almas suscitava em toda a gente que formava o grupo. Na monografia da paróquia, “Gafanha – Nossa Senhora da Nazaré”, publicada em 1986, diz-se que a Irmandade do Senhor e Almas foi responsável pelo ressurgimento desta última devoção, que o Padre Rezende tão bem descreve: “Lá vai o painel ladeado pelas duas lanternas, o membro da Confraria, de opa, com a cruz que todos beijavam, de joelhos, dentro de casa ou fora, depois de se estender a esteira.” E cantavam-se estes versos que aqui vão ser cantados como uma relíquia. Joélhemos nós in terra Já nusêmos os premêros Nossa companhia banha Jesus Cristo berdadêro. Atromantadas de dôras De continu padecer, Assim são nas almas santas Nu Prugatório arder Das almas do Prugatório É bem que nos alembremos; Nós havemos de morrer Sabe Deus pâr donde iremos. “Se não queriam que cantassem (por ter morrido alguém na família!), então rezava-se um Pai Nosso e uma Ave Maria. “O da opa levava uma saca para dinheiro e outros levavam sacos para milho, feijão, cebolas, o que dessem. Deixávamos estes sacos em casa de lavradores de confiança e, ao outro dia, íamos lá buscá-los. Vendíamos tudo e juntávamos o dinheiro. Mandávamos celebrar missas pelas alminhas do Purgatório. “Era bonito e fazia-se bem. “Agora, com a televisão... “Tenho saudades desse tempo... “E uma lágrima teimosa ia caindo, enquanto nós, admirando a candura destes homens (João Francisco da Rocha e Manuel Soares Sardo) de rostos bem marcados, pensávamos no que de bom vamos permitindo que desapareça, quantas vezes por comodismo e falsos respeitos humanos.” Assim ficou escrito na monografia da paróquia de Nossa Senhora da Nazaré, há 23 anos. Gafanha da Nazaré, 28 de Março de 2009 Fernando Martins

quinta-feira, 26 de março de 2009

Há 20 anos: Gafanha, 1 – Nege, 1

Mesmo sem foto, que não tenho, aqui fica um apontamento desportivo, para suscitar a colaboração. Não há por aí fotos deste jogo ou de outros, em que participou o Grupo Desportivo da Gafanha e o NEGE? Fico a aguardar.
FM
GAFANHA, 1 - NEGE, 1
Jogo no Complexo Desportivo da Gafanha da Nazaré Árbitro: Martinho Cândido, auxiliado por Manuel Rodrigues e António Fidalgo Gafanha: Telmo, Zé Victor, Ramos, João Figueiredo (cap.)e Nogueira; Bola (Bodas), Baptista e João Eduardo (Miguel Ângelo); Nelso, Ginho e Marito. Treinador: Prof. Josué Ribau Nege: Jorge, Sérgio, José Mário e Boia; Falcão, Caleiro, Victor Vergas e Pedro Silva; Florêncio, Jorge Nelson e José Victor (José Alberto). Treinador: Loura Timoneiro, Junho de 1989

sábado, 21 de março de 2009

Faz hoje 19 anos que faleceu o Padre Rubens

Compulsando as edições do TIMONEIRO de 1990 dei de chofre com a notícia da morte do Padre Rubens, em 21 de Março. No jornal de Abril do mesmo ano, escrevi um artigo, onde sublinhei, de forma sentida, o triste acontecimento, infelizmente aguardado desde que se manifestou a doença terrível que o acometeu. “O Padre Rubens deixou-nos, mas o seu exemplo de homem humilde e dedicado à Igreja permanecerá connosco, para nos iluminar uma vida mais desprendida e mais voltada para os outros. Falar do Padre Rubens, da sua vivência entre nós, da sua total disponibilidade, da sua humildade em tantos gestos manifestada, e do seu espírito de pobreza, é deveras difícil. E é difícil porque sentimos a perda de um amigo com tudo quanto de bom sabia dar-nos no dia-a-dia do nosso viver comunitário e das nossas preocupações e anseios individuais. É difícil e doloroso porque sentimos como poucos quanto tinha ainda para nos transmitir numa doação não muito frequente nos tempos que correm, numa entrega enraizada numa fé toda ela impregnada duma simplicidade que cativava e sensibilizava Acompanhámo-lo desde que aqui se fixou para entre nós viver todo o seu sacerdócio, sem limites nem fronteiras. Sem limites, porque todo se dava a tudo quanto considerava útil e importante para a comunidade, e sem fronteiras, porque não olhava a convicções políticas e religiosas das pessoas com quem convivia e das que, por tantas razões, o procuravam. Via em todo o homem um irmão com quem era preciso dialogar e a quem era preciso ajudar. (…) O sacerdote que ele foi deixou marcas bem nítidas no coração de cada um de nós, pelo exemplo de total entrega à missão de pastor e guia desta comunidade com a qual ele tão bem se identificava. E a solidariedade cristã que a sua grave doença gerou prova à saciedade a estima que todos por ele nutriam.” Fernando Martins

sábado, 14 de março de 2009

Padre João Vieira Rezende, primeiro pároco da Gafanha da Encarnação

O Padre João Vieira Rezende, autor da “Monografia da Gafanha”, nasceu a 7 de Março de 1881, em Vale de Ílhavo de Cima, freguesia de Ílhavo. Filho de João Vieira Rezende e de Ana Vieira dos Santos, foi ordenado presbítero em 22 de Dezembro de 1906, depois de se dedicar à lavoura, trabalhando bastante na apanha do moliço na Ponte de Água Fria (Vista Alegre). Quando foi criada a paróquia da Gafanha da Encarnação, o Padre Rezende deixou a paroquialidade de Vagos, sendo nomeado primeiro pároco, cargo que exerceu entre 10 de Novembro de 1928 e 1948. Durante os 20 anos, foi o Padre Rezende o verdadeiro construtor da nova freguesia, desde a reorganização da Irmandade e do Apostolado de Oração, da criação de novas estruturas que fomentassem a espiritualidade dos seus paroquianos até à realização de obras indispensáveis na igreja e na residência paroquial. Fruto do seu amor a esta região, escreveu um livro indispensável a todos os estudiosos que queiram conhecer o seu passado, a “Monografia da Gafanha”. Retirou-se então para a residência de familiares, em Vale de Ílhavo. Faleceu no dia 13 de Outubro de 1959, com 78 anos de idade.
In “Gafanha da Encarnação – Monografia da Paróquia”, de Manuel Olívio da Rocha

sexta-feira, 13 de março de 2009

Gafanhas: Notas soltas

No ano de 1937 completou-se a construção do primeiro Cinema na Gafanha da Nazaré, sendo seus proprietários Manuel Fernandes Caleiro, José António dos Santos e José Vieira.
Além dos telefones para os serviços da Aviação de S. Jacinto, do Farol da Barra e da Mata Nacional, há dois telefones públicos na Gafanha da Nazaré [1944] e dez particulares na mesma freguesia.
Até ao ano de 1939 não houve fontes em toda a região das Gafanhas. A água para uso interno ainda agora é captada em covas instáveis e abertas nas antigas vertentes das dunas, ou em poços construídos junto das habitações. Esta água tem sido fina, cristalina, inodora, leve e saborosa. Ultimamente começou a declinar com o revestimento florestal e herbáceo das dunas e dos terrenos aráveis, o que levou à sua exploração em sítios ainda não inquinados pelas raízes e pelos detritos terrosos.
Fonte: Monografia da Gafanha do Padre João Vieira Rezende

quarta-feira, 11 de março de 2009

GAFANHA: Notas soltas

Censo de Portugal 1930: Gafanha da Nazaré: 791 famílias; 2245 almas Gafanha da Encarnação: 405 famílias; 1840 almas 1936: Gafanha da Nazaré: 950 fogos Gafanha da Encarnação: 800 fogos Fonte: Etnografia Portuguesa de Leite de Vasconcelos

terça-feira, 10 de março de 2009

A Gafanha, por Campos Lima

Sobre o que escreveu Campos Lima, Leite de Vasconcelos diz o seguinte: "Do segundo escrito, consta-me, por um Catálogo, que saíram a lume, pelo menos, três fascículos. Obtive casualmente um exemplar do 3.º (impresso em Famalicão e publicado em Lisboa em 1909), que vejo ser de carácter politico-utopístico. Já se mostrou que no Rei da Gafanha havia também algo de política. Por eu não haver lido o Rei da Gafanha, nem dois fascículos de Campos Lima, foi que escrevi acima segundo penso. Acrescentarei que me faltou tempo para fazer maiores buscas."
NOTA: É curioso como se escreveu nos princípios do século XX , utilizando a vocábulo Gafanha, sem que os escritos tivessem algo a ver com a história desta terra e do seu povo. Contudo, sabe-se que, a partir daí, muito mais se escreveu, agora com estudos académicos, que seria interessante divulgar. É óbvio que eu, como amador destes assuntos, não tenho tempo nem acesso a muitos escritos sobre a Gafanha. Porém, quero admitir que um dia destes surja por aqui alguém com vontade de dar uma ajuda... FM

segunda-feira, 9 de março de 2009

O Rei da Gafanha

Leite de Vasconcelos sublinha, na sua Etnografia Portuguesa, referências literárias à Gafanha, nomeadamente, O Rei da Gafanha e A Gafanha. A primeira é a tradução de uma peça francesa intitulada Le Roi e a segunda trata de um escrito de Campos Lima, que o próprio Leite de Vasconcelos não pôde estudar convenientemente. Diz o etnógrafo, citando Eduardo Noronha, que "Le Roi é uma comédia em quatro actos, original de G. A. de Caillavet, Robert de Flers e Emmanuel Arène. Foi representada pela primeira vez em 24 de Abril de 1908, no Teatro das Variedades em Paris. Foi traduzida para português com o título de Rei da Gafanha por Cunha e Costa & Machado Correia, por causa da exaltação [política] dos ânimos, por um lado, e como recordação das piadas da Gafanha atribuídas ao José Luciano de Castro, por outro. Representou-se pela primeira vez no D. Amélia, em Lisboa, em 20 de Dezembro de 1908. Incumbiram-se dos papéis principais: Augusto Rosa, António Pinheiro, José Ricardo, Chaby Pinheiro, Ângela Pinto, Emília de Oliveira, Alexandre de Azevedo, Henrique Alves, etc. Foi representada uma segunda vez por Amelie Dicterle, Hebert, Louvain e Titts, e actores Lormel, Calvin, artistas de uma companhia francesa, de segunda ordem, no Amélia, em Lisboa, de passagem para o Brasil. É quanto sei."
Foto: Leite de Vasconcelos

sábado, 7 de março de 2009

Gafanha da Nazaré: Cantigas Populares

Registo de 1919 Senhora da Nazaré, Ó Nazaré da Gafanha, A quem Deus quer ajudar, O vento l'apanha a lenha! A Gafanha foi à bulha, A Barra foi acudir, S. Jacintro teve medo, Costa-Nova pôs-se a rir. Hei-de casar na Gafanha, Hei-de ser um gafanhão, Para vender as batatas, Às meninas de Alqueidão. In Etnografia Portuguesa de Leite de Vasconcelos, Vol. III

segunda-feira, 2 de março de 2009

GAFANHA DA NAZARÉ: Delimitações

É IMPORTANTE DIVULGAR DOCUMENTOS HISTÓRICOS

Tivesse eu tempos livres e não me cansaria de divulgar tudo quanto diz respeito à nossa terra e às nossas gentes. Assim, só de vez em quando o poderei fazer. Como hoje, em que, por esta forma, consigo divulgar um documento que saiu, em 1985, no Boletim das Festas das Bodas de Diamante da criação da freguesia, promovidas pela Junta.
(Clicar na foto para ampliar)

domingo, 1 de março de 2009

GAFANHA DA NAZARÉ: Notas soltas

Ponte da Gafanha da Nazaré (Clicar na foto para ampliar)
De acordo com várias fontes, a região das Gafanhas começou a ser habitada por modestos agricultores no século XVII, havendo registo de um baptizado, em 1686, como sinal de que as pessoas começaram, antes dessa data, a viver nestes areais. Em 1758 era já uma povoação com 14 vizinhos ou fogos e 140 pessoas de sacramento, como se lê em carta de Joaquim da Silveira, publicada, em nota de rodapé, na Monografia da Gafanha, do Padre João Vieira Rezende. Os primeiros habitantes eram gente pobre, oriunda dos concelhos de Vagos e Mira, que buscou terras para cultivar. Com esforço sobre-humano, os gafanhões conseguiram transformar dunas estéreis em terra produtiva, aproveitando os moliços que as marés depositavam na borda-d’água. Não eram pessoas que se aventurassem na ria ou no mar, mas cedo descobriram a riqueza que deles podiam extrair. A certeza de que os primeiros habitantes vieram dos concelhos de Vagos e Mira está bem patente nos apelidos que perduram nos dias de hoje: Domingos da Graça, Vechinas, Rochas, Ritos, Covas, Merendeiros, Caçoilos, Sarabandos, Esgueirões, Maguetas, Estanqueiros, Apolinários, Carapelhos, Frescos, Patas, Costas e Creoulos, entre outros. Toda a Gafanha começou por pertencer ao Concelho de Vagos, assim permanecendo até Março de 1835, altura em que passa a depender religiosamente de Ílhavo. Nessa mesma data, é desanexada civilmente de Vagos e passa a integrar a freguesia de Ílhavo. Porém, só o decreto de 24 de Outubro de 1855 veio definir as fronteiras entre Vagos e Ílhavo. Em 19 de Setembro de 1856 o movimento paroquial de Ílhavo considera a Gafanha como povoação em crescente desenvolvimento, quer sob o ponto de vista demográfico, quer agrícola, sendo os seus produtos, especialmente a batata, preferidos nos mercados de Aveiro e Ílhavo, conforme lembra Leite de Vasconcelos, na Etnografia Portuguesa. Em Agosto de 1910, por decretos de D. Manuel II e do Bisco-Conde de Coimbra, D. Manuel Correia de Bastos Pina, é criada a freguesia da Gafanha da Nazaré, sendo seu primeiro Prior o Padre João Ferreira Sardo, também o primeiro gafanhão a concluir um curso superior. E a igreja matriz, uma humilde capelinha situada na Chave, deu lugar à actual igreja, construída no centro geográfico da freguesia e inaugurada em 1912. O seu desenvolvimento sempre crescente, graças decerto à abertura da Barra de Aveiro, em 3 de Abril de 1808, e à implantação dos portos de Pesca Costeira e Longínqua, Comercial e Industrial, viabilizou a elevação a vila em 1969 e a cidade em 2001, tendo em consideração a importância económica e social da Gafanha da Nazaré, no contexto regional. Podemos sintetizar, dizendo que a Gafanha da Nazaré deve o seu incremento ao esforço dos gafanhões e a todos os que, através dos tempos, na freguesia se instalaram. Agricultura, Obras da Barra, Estaleiros, Oficinas, Empresas de Pesca, Salinas, Obras Públicas, Construção Civil e toda uma panóplia de pequenas indústrias, comércio e serviços atraíram gentes de mais mil povoações, do país e do estrangeiro. Fernando Martins

Crepioca de Sr. Bacalhau

Fonte: Agenda "Viver em..." da CMI