sábado, 31 de janeiro de 2009

GAFANHA DA NAZARÉ: Residências paroquiais

:Primeira residência para o Prior Guerra
Segunda residência para o Prior Guerra
Terceira resiência para o Prior Bastos Quarta residência para o Prior Bastos e seguintes
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RESIDÊNCIA DO PÁROCO
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O processo de criação de uma paróquia, pelo menos no século passado, exigia, normalmente, uma residência para o pároco. Penso que ainda hoje se pensa assim, como garantia, à partida, para o pároco poder viver na comunidade que o acolhe. Quando foi criada a paróquia da Gafanha da Nazaré, o prior, padre João Ferreira Sardo, tinha residência própria, pelo que não foi preciso a comunidade preocupar-se com esse problema. Quando o padre José Francisco Corujo (Prior Guerra) veio para a Gafanha da Nazaré, foi necessário, então, preparar-lhe uma residência. A comissão da paróquia arrendou, por isso, uma casa, na Chave, pertencente ao proprietário Manuel Cravo. Mais tarde, o prior Guerra mudou-se para uma outra casa, que ainda existe, na actual Av. José Estêvão, e que era pertença do mestre José Lopes Conde, conhecido por mestre José Lázaro. Ali residiu até deixar de ser prior da nossa terra, em 1947. Entretanto, foi substituído pelo padre José Henriques Eira Bastos, que se instalou na residência que foi do prior Guerra. Algum tempo depois passou para outra casa, ali perto. Era uma moradia de João da Silva Caçoilo (João Encante). Porém, logo a seguir, lançou a ideia da construção de uma Residência Paroquial, que ainda existe, na rua João XXIII. Ficou habitável em 1950, mas como foi levantada com a ajuda do povo, que fazia de tudo um pouco, não terá sido construída com o rigor e a maestria suficientes. A partir daí, precisou regularmente de obras de reconstrução e de manutenção, que nunca lhe deram, a meu ver, a consistência precisa para se aguentar no tempo. Agora, no mesmo sítio, aproveitando-se o que for possível, será erguida uma nova Residência Paroquial, que responda às exigências do nosso tempo. Fernando Martins
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

GAFANHA: Coisas de antigamente - 3

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As Malhadas
Depois das sementeiras e regas, com sacha pelo meio, vinham as esperadas colheitas, nem sempre abundantes. Tudo feito a poder de braço e com a ajuda de alfaias simples. A foicinha, nas mãos hábeis dos nossos avós, fazia prodígios e campos enormes eram ceifados com rapidez. O transporte em carros de vacas ou bois era feito com alegria, que o osso mais duro já estava roído. Estamos a falar de cereais, está bem de ver. As batatas, arrancadas muitas vezes à mão, com as facilidades oferecidas pela areia, eram de seguida levadas para o celeiro à espera da melhor hora para a venda. Voltemos aos cereais e às malhadas que só mudaram de técnica em 1935, altura em que começaram a ser utilizadas as malhadeiras motorizadas. Até aí, a força humana e animal é que imperou. Diz o Padre Resende e disso fomos testemunha e interveniente: “Estendido na eira o cereal a debulhar, defrontavam-se duas alas de malhadores que começavam por dar pancadas rítmicas e cadenciadas no mesmo ponto, até que saíssem da espiga o grão e a pragana; deixando de sair o grão, as alas avançavam em eitos sucessivos até percorrer toda a malhada. Aquelas pancadas rítmicas obedeciam geralmente ao comando de um dos homens das duas filas, e eram executadas a compasso de dois tempos irregulares, isto é, quando a primeira fila de malhadores dava a pancada com o malho baixo, breve e fraca, a outra actuava do mesmo modo. Quando essa primeira fila dava o pancadão, de malho alto e repuxado, demorado e fortemente, assim também o executava a segunda fila. Percorrida pela primeira vez toda a malhada com pancadas e pancadões em série de eitos, ao que chamavam quebrar a pragana, retiravam a palha solta, levadiça, e percorriam novamente a malhada a propósito, diziam. O último eito da série de percorridas da malhada que eram necessárias para completa saída do grão era constituído somente por pancadões, executados à voz de quem dirige a malhada. Este, ao começar o último eito gritava: mat’ ò rato. E todos, de músculos tensos, corpo estendido e malho repuxado, percorriam a eito toda a eira, do princípio ao fim, repetindo a frase e em grande grita”. Mas se a malhada com o malho, como é óbvio, era a mais usual, não podemos esquecer outros processos empregados para separar o grão da espiga. Um deles, por exemplo, também teve a sua época. Referimo-nos à utilização de animais (vacas, sobretudo). Caminhando em círculo sobre o cereal estendido na eira, lá iam separando o grão da espiga com uma paciência inaudita, sob o olhar atento das pessoas que, de penico ou balde na mão, impediam que os excrementos e urina caíssem sobre os cereais.
Fernando Martins
NOTA: A foto não é das Gafanhas. Não há por aí quem me ofereça uma?
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

GAFANHA: Coisas de antigamente - 2

: Restos de um poço de rega
Sementeiras e colheitas eram feitas em espírito de entreajuda
Nas primeiras décadas do século XX, a terra começa a ser repartida e dez por cento da população emigra. Os proprietários maiores (ou remediados), como afirma o Padre Rezende, constituem seis por cento da população, sendo os proprietários menores cerca de 50 por cento. Os jornaleiros são já 34 por cento da população da Gafanha. Também nesta altura surgem os Róis do Gado. Eram associação de socorros mútuos que os nossos avós criaram para se auxiliarem em caso de doença prolongada ou morte de animais. Leite de Vasconcelos sublinha que o nome destas Associações (Róis do Gado) era incorrecto porquanto também se destinavam aos donos. Sementeiras e colheitas eram feitas em espírito de entreajuda. Os lavradores e seus familiares ajudavam os amigos e vizinhos para ganhar tempo. Os ajudados tinham de pagar na mesma moeda. Estas reminiscências comunitárias, que num ou noutro aspecto ainda perduram, constituem prova evidente da vivência de uma certa fraternidade e das necessidades económicas por eles sentidas. É que os gafanhões de antanho não tinham dinheiro que abundasse para pagar jornas. As sementeiras do milho e as plantações da batata eram feitas por processos muito simples e rudimentares, já que a escassez de recursos lhes não permitia a aquisição de máquinas agrícolas. E o mesmo se diga em relação a outras sementeiras e plantações. Tudo era semeado e plantado em regos abertos na terra pelo arado, seguindo-se a cobertura com a grade de dentes de madeira. Só por volta de 1880, como afirma o nosso guia, é que as terras começaram a ser cavadas mais profundamente à enxada, por se reconhecer, talvez por qualquer experiência colhida noutras paragens, que as terras assim produziam mais. Surge então a surriba, cava profunda para bem remexer a terra. A utilização da enxada em todos os trabalhos de sementeira justificava-se pela dificuldade económica dos agricultores. O pouco dinheiro não lhes dava possibilidades de possuir e sustentar gado para a charrua. Aliás os pastos também eram pouco abundante nas Gafanhas. E a charrua acabou por entrar na região somente em 1928. As regas não eram muito usadas porque a água não andava. As areias, muito permeáveis, impossibilitavam esse serviço. Quando os terrenos se tornavam mais escuros, por força de humos, então sim começou a rega. Construíram-se poços com engenho por volta de 1920. Enquanto o boi ou a vaca tirava a água com os alcatruzes do engenho, um garoto ou mesmo um adulto ia deitando na água a lama previamente trazida da ria. A lama impedia a infiltração da água e enriquecia os próprios terrenos. Em 1937 construíram-se 100 poços em toda a Gafanha, mas também já havia quem regasse por meio de motor.
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Fernando Martins :

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

GAFANHA: Coisas de antigamente – 1

:Jardim e esteiro Oudinot de outros tempos
Há séculos o mar por aqui cirandava
Qualquer gafanhão que se preze e que da Gafanha procure saber o mínimo não ignora que há séculos o mar por aqui cirandava e que estes areais, agora férteis, foram construídos pouco a pouco pelos aluviões do Vouga e pelas ofertas das correntes marinhas. Aluviões e areias brancas, com anos e paciência da natureza, formam hoje rincão apetecido, não tanto por lavradores, que esses, a cair em desuso, deram lugar a industriais e comerciantes. Agora o apetite vem mais de quem tem dinheiro para construir e investir, quer em habitação própria, quer em espaços comerciais e industriais. A agricultura, essa ficará para as horas de folga ou para servir de complemento à economia doméstica de operários e pequenos comerciantes e industriais. E já não será muito mau, nestes tempos em que, por exigências da UE, só os grandes agricultores terão hipóteses de sobreviver. Mas quem nos nossos dias aprecia os campos ainda verdejantes da Gafanha, embora aqui e ali não faltem campos abandonados, talvez longe esteja de pensar que há uns três século o verde tinha custado muito suor e lágrimas a implantar. Podemos mesmo dizer que a vida dos primeiros gafanhões constituiu odisseia muito pouco apreciada e até às vezes denegrida por pseudo-intelectuais da vizinhança. Têm procurado eles rir-se da simplicidade dos gafanhões mais antigos, da sua pouca cultura académica ou livresca e dos seus parcos conhecimentos de vida em sociedade. Hoje já não será assim, mas ainda restam vestígios dessa maneira de ver os gafanhões. Os gafanhões das novas gerações têm sabido impor-se com muita inteligência e dignidade, porque aprenderam com os seus avós a vencer dificuldades e a demonstrar, pelo progresso que souberam construir, que são gente de valor. A Gafanha aí está para o demonstrar. Os gafanhões das últimas décadas orgulham-se dos seus antepassados e apreciam as suas extraordinárias capacidades de trabalho e de perseverança, o seu espírito de poupança, o seu apego à terra, a sua humildade e determinação. E os que ao longo do tempo aqui se radicaram e misturaram com os primeiros também souberam, duma maneira geral, aceitar e viver o mesmo estilo de vida. São hoje tão gafanhões como os que de Vagos e Mira, sobretudo, para aqui vieram. O povo que se instalou na Gafanha era gente pobre. Foi no século XVII que os primeiros, como caseiros, começaram a agricultar estes areais. Acossados certamente pela fome, no dizer do Padre João Vieira Rezende, procuraram melhores condições de vida. As areias não os assustaram, já que a elas andavam de certo modo habituados. A instalação não deve ter sido difícil. Era gente não muito exigente e com grande capacidade de sacrifício e de adaptação. As casas de habitação eram modestíssimas. De madeira ou de barro amassado com felga, limitar-se-iam à cozinha e a um ou outro compartimento que servia de quarto de dormir. As camas seriam esteiras ou pobres enxergas estendidas sobre bicas ou junco. Outras divisões e comodidades só muito mais tarde. Mas deixemos hoje estas coisas, aliás curiosas, e falemos da agricultura dos gafanhões dos fins do século XIX. Dos outros pouco reza a história. Terra para cavar não lhes faltava e vontade de a fazer produzir também não. A ria logo os atraiu, não tanto para a aventura da pesca, mas para o aproveitamento do que ela de mão beijada lhes oferecia: o moliço. Rapado na borda por ancinhos de dentes de madeira, lá ia curtir nos areais à espera da hora das sementeiras. Na MONOGRAFIA DA GAFANHA, o padre Rezende sublinha a riqueza do moliço, constituído por limos, sibarro, sirgo, seba, folhada ou alface do mar, fita gorga e rabos ou rabão. Diz também que a seba e a fita desapareceram desde a Cambeia até à Murraceira com as obras da Barra em 1936. Este estrume verde constituía, pela sua composição orgânica e química, um precioso adubo que muito ajudou na transformação destas areias improdutivas em espaços verdejantes. Acrescenta o Padre Rezende que “nos sapais das praias de cabeço, também abundavam a junça, a bajunça e, mais para o seco, o junco e o feno, que subministravam bela cama para os estábulos e que, fermentados com os excrementos dos animais, fornecem por sua vez um óptimo adubo que, diga-se de passagem, por muito tempo era mal apreciado e se ia vender às ribeiras de Vagos, de Aradas, de Salreu e do Boco. Outro tanto acontecia às cinzas do borralho”. Claro que estes adubos naturais logo deixaram de ser vendidos para serem utilizados pelos gafanhões. As cinzas, por exemplo, eram empregadas como fertilizantes de cebolas e alhos. Em 1927 fizeram-se as primeiras experiências de adubações químicas, com bons resultados. Entretanto o medo da água da ria deu lugar à aventura do moliceiro e da bateira. “A maré está feita – diz de forma poética o Padre Rezende, nosso cicerone, neste como noutros trabalhos – e o barco começa a adernar. O sol aproxima‑se do zénite e os estômagos latejam em vão, estão vazios. O José da Luz, de ceroulas curtas, camisa de estopa, e de careca tisnada pelos raios solares, com os filhos impando de mocidade, olha sofregamente para a pequena cozinha voltada para a Ria, aguado pelas batatas e pela sardinha, e às vezes pelo carnêro... que a Luz lá lhes preparara. As telhas da choupana já não fumegam, o que é sinal certo de que o repasto já espera os laboriosos moliceiros. Duas bombadas de vertedoiro a aliviar o barco da água escorrida do moliço e... ala para a fossa ou para a borda”. E como era a alimentação desta gente que se casou com os areais e com a ria para deles viver? Pasmem os que, nos nossos dias, têm tudo à mesa e a todas as horas e em abundância. Salienta o nosso cicerone: “A alimentação média, diária e habitual de cada família de seis pessoas, é a seguinte: ao almoço somente broa; ao meio-dia (jantar) caldo com ou sem carne; à noite (ceia) dois quilos de batatas inteiras ou cortadas, com ou sem peixe, a que se adiciona algumas vezes cebola com algumas gotas de azeite. Muitas vezes a ceia é caldo que cresceu do jantar, ou papas condimentadas com feijão e carolo de milho, cozidos no caldo que ficou do jantar. Esta família gasta diariamente três a três quilos e meio de broa. O vinho raramente aparece às refeições”. O carolo era feito na mó manual. E que cultivavam? Diz Amorim Girão que, aproveitando a “fertilidade do solo e os adubos que a Ria lhes ministrava, se cultiva a batata, feijão, milho, centeio e algum vinho, este, porém, de inferior qualidade”. O grande etnógrafo Leite de Vasconcelos diz que “se dá tal apreço à batata gafanhense, que no mercado todos a preferem à de outros sítios”. E citando o Padre Rezende, o mesmo sábio etnógrafo salienta que não só as batatas eram vendidas, mas também outros produtos. “Aos domingos vê-se uma verdadeira flotilha de barcos moliceiros no cais da cidade, que no sábado à tarde ali chegam das margens de todas as Gafanhas carregados desses géneros. Com o produto da venda acode-se a despesas miúdas de primeira necessidade (comestíveis, etc.). Em casos de maior vulto (compra de adubos, lenhas, transacções de gado, etc.) recorre-se à venda por atacado dos mesmos géneros a negociantes revendedores”.
Fernando Martins
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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

GAFANHA DA NAZARÉ: Cortejo dos Reis

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TRADIÇÕES PARA ESPEVITAR A MEMÓRIA
No domingo, 11 de Janeiro, vivi o Cortejo dos Reis experimentando a proximidade com as pessoas, muitas delas envolvidas na vivência desta antiga e sempre renovada tradição. Para quem gosta da sua terra, o encontro com alguns conterrâneos proporcionou-me a oportunidade de voltar aos tempos em que eu, menino, com meu irmão, mais novo três anos, participámos no Cortejo dos Reis, de uma ponta à outra, cada um com a sua cana às costas. Na ponta da cana lá ia a prenda para o Menino Jesus. Não consigo recordar toda a pequena carga, mas dela fazia parte um chouriço, um pequeno bacalhau e umas laranjas. Tudo o mais se varreu. Mas também é verdade que os nossos frágeis ombros não suportariam muito mais. O meu pai levou-nos até Remelha, de bicicleta, como era hábito na altura, entregando-nos ao cuidado de pessoa sua conhecida. Ainda me lembro de ouvir a minha mãe dizer que estaríamos assim a pagar uma sua promessa, coisa que na altura não compreendi. Mas se ela dizia que tínhamos de ir no Cortejo, não haveria razões para discordar. Recordo-me, com que saudade, de que, mal o cortejo chegou à igreja, eu e o meu irmão corremos para casa com os presentes ao ombro. Estava terminada a promessa. Quando entrámos na cozinha, os meus pais ficaram admirados e logo nos questionaram: - Então não deixaram os presentes para o Menino Jesus, como vos recomendei? Respondemos com o silêncio. A minha mãe, mulher prática, resolveu a situação. - Vai lá, Armando, e paga os presentes. E assim foi. Afinal, as tradições são sempre excelentes motivos para reconstruirmos as nossas histórias de vida. Fernando Martins

domingo, 4 de janeiro de 2009

Linguajar dos gafanhões

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Triga-milha
Salgadeira - Espécie de caixa grande, feita de paredes de cimento; Nesse lugar da casa, bastante aconchegado, salgava-se o porco, em camadas sucessivas de carne e sal e era o sustento das famílias para o ano todo. Claro que não havia a preocupação com a limpeza e a manutenção das casas que hoje há, pois como é de calcular, a zona circundante àquela onde estava implantada a salgadeira, ficava cheia de salitre! As pessoas trabalhavam de sol a sol para angariar o seu sustento, pelo que pouco lhe restava para este tipo de preocupações. Taleigo - Saco estreito e comprido usado para transportar a farinha de milho e de trigo; ir de taleigo à cabeça. Triga-milha - Pão feito com as farinhas de trigo e milho misturadas cozido no forno do lavrador e que era uma delícia. Sugo – Líquido escuro e viscoso, composto por urina, excrementos do porco e água, de cor acastanhada, que escorria por um furo, na parede da pocilga. Escorria para uma pequena fossa no exterior; sendo usado como fertilizante na horta. Ironicamente, a palavra em Italiano do mesmo étimo, sucho, significa molho.
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Maria Donzília Almeida
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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

AS CASAS GAFANHOAS

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A Cale da Vila já competia com qualquer vila ou cidade,
na década de 40 do século passado
“A sucasa era destinada, como as poucas que ainda existem, para colocar a salgadeira e para arrecadação de algumas alfaias e ferramentas agrícolas, bem como para a instalação das camas das filhas do casal. Os filhos dormiam fora de casa: ou nas proas dos barcos presos ao moirão na borda, ou nas mesmas proas dos barcos cortados que para esse fim eram instalados nos pátios, ou ainda nos palheiros. Este costume vinha dar relevo ao rifão, ainda agora muito em voga: cama de rapaz solteiro - ninho de cão!”, lê-se na Monografia da Gafanha, do Padre João Vieira Rezende. “A altura destas casas, que tinham quanto muito duas pequenas janelas, não ultrapassava três metros. Ainda agora - prossegue o Padre Rezende - se nota o seu pouco pé direito, com as soleiras e soalhos quase empastados no solo. Concorrerá para isso a tradição e também o desabrigo da região”. Claro que este tipo de habitação foi-se modificando, graças ao poder de compra dos gafanhões. Os terrenos foram melhorando, mercê da utilização do moliço que começou a ser apanhado à beira-ria, que os primitivos gafanhões não tinham embarcações para se aventurarem na Ria. Só depois, com o decorrer dos tempos, isso aconteceu. Mas foi então o moliço e o esterco do gado, como já dissemos, que levaram os campos a produzir mais, dando aos agricultores a possibilidade de ter mais algum dinheiro no canto da arca. “Começaram desde logo a aparecer os soalhos, forros, guarda-louça, e também as casas de arrumação e as casas da eira, para onde foram passando todas as coisas que até ali ocupavam lugares indevidos. Apesar desse avanço, ainda hoje (1940) existem casas daquele antigo tipo, embora poucas, sem soalho nem forro, mas ainda há bastantes com a sucasa. Quem hoje, porém, visita a Gafanha verificará que nos últimos tempos, com todas as modernas manifestações da vida social, também se operou nela uma verdadeira revolução no que diz respeito ao tipo de casas. Têm sala e dois ou três quartos espaçosos, duas cozinhas, servindo uma delas de sala de mesa, e corredor que em muitos casos já ocupa o centro da habitação. Os compartimentos amplos, as salas e as janelas rasgadas, enchem a casa de comodidades, ar, sol e luz. Ao norte da região há muitíssimas casas com o seu gradeamento de ferro, átrio e pequeno jardim de entrada. A Cale da Vila, com o aspecto das suas construções, está a competir com qualquer vila ou cidade modernas. E lembrar-nos nós que os ascendentes da actual geração habitavam outrora casas de madeira e de barro! Hoje vivem em lindos chalets, ou casas bastante cómodas, os filhos daqueles que há pouco mais de um século foram batidos pela miséria e pela fome que os assediavam nas aldeias de origem. Hoje, porém, como então, este povo é caracteristicamente bom, generoso, simples, tratável e resignado, conformando-se admiravelmente com toda a situação, ainda as menos desejáveis.” Assim falava e escrevia o Padre Rezende na década de 40.
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Crepioca de Sr. Bacalhau

Fonte: Agenda "Viver em..." da CMI