terça-feira, 30 de setembro de 2008

ROMARIA DA SENHORA DA SAÚDE MANTÉM A TRADIÇÃO

: Este fim-de-semana vamos ter festa rija na Costa Nova, em honra de Nossa Senhora da Saúde. Amanhã há missa, procissão e as tradicionais devoções particulares a Nossa Senhora. Para além disso, que é o substrato religioso das festividades em honra dos padroeiros, neste caso da padroeira da paróquia da Costa Nova, vem a romaria do povo das redondezas, ao jeito de quem encerra a época balnear. Diz o padre Rezende, na sua Monografia da Gafanha, que “Frei João Pachão, no século Jerónimo Pachão, das Aradas, naquele tempo já frequentador da Praia, fundou em 1822 ou em 1824, com o auxílio das companhas e com esmolas do povo, uma capela de madeira, que dedicou a Nossa Senhora da Saúde”. A história continua e a dado passo, com mais banhistas a procurarem a praia, José da Graça, de Ílhavo, gerente de uma das companhas, avançou com a ideia de construir outro templo, porque o primeiro não oferecia as condições mínimas para o culto. Continua o padre Rezende: “Com o concurso das outras companhas pôs mãos à obra, e em 1890 tinha erguido a linda capela, que a brisa do mar beija a toda a hora, numa saudação fagueira.” “Todos os anos – garante o autor da Monografia – desde a sua fundação, é celebrada a festa à sua excelsa Padroeira, no último domingo de Setembro, atraindo à praia multidões de devotos e forasteiros.” Mais adiante, sublinha que a devoção é tanta que não faltam ofertas valiosas, tais como “Cordões, libras, ligas, anéis, crucifixos, medalhas, (tudo de oiro), velas, ex-votos de cera, outros ex-votos, azeite, novenas, orações, tudo ali era levado pelos verdadeiros devotos em agradecimento à SS. Virgem, pelas graças recebidas”. E depois acrescenta: “Pena é que os pseudo-festeiros, ou devotos-arrecadadores, dessem aplicação desconhecida às esmolas que anualmente subiam a alguns contos.” (permitam-me um à parte: nestas coisas, de vez em quando, não falta quem se aproveite da devoção dos fiéis)Diz ainda o padre Rezende que, “Nesse tempo de esbanjamentos, foi a família do Dr. Luís de Magalhães, quem manteve com esplendor o culto da capela. Está bem paramentada pela generosidade das famílias Magalhães e Maia Alcoforado”. Fernando Martins

terça-feira, 23 de setembro de 2008

MOVIMENTO APOSTÓLICO DE SCHOENSTATT - 1





Quem hoje visita a Gafanha, ou nela vive, não pode deixar de passar pelo Santuário de Schoenstatt ou de sofrer, directa ou indirectamente, a influência da sua espiritualidade, tão bem ela casou com a maneira de ser destas gentes. De facto, o Movimento Apostólico de Schoenstatt, fundado em 18 de Outubro de 1914, na localidade do mesmo nome, na Alemanha, pelo Padre José Kentenich, entrou na Gafanha da Nazaré para dar os primeiros passos em 1970, com a vinda do Padre Miguel Lencastre para desempenhar as funções de coadjutor, e após a adesão do prior de então, Padre Domingos. Como é característica fundamental da sua missão, o Movimento necessitava de um Santuário, fonte de graças e local de veneração da «Mãe, Rainha Vencedora Três Vezes Admirável de Schoenstatt», Santuário esse que tinha de ser, como todos são, cópia fiel do original, e em torno do qual se desenvolveriam acções de âmbito espiritual e extensivas a todos os grupos etários, já que está vocacionado para despertar vivências apostólicas junto de jovens de ambos os sexos, mães, senhoras, Irmãs e Padres, quer regulares, quer seculares, sem esquecer os doentes e quantos desejam colaborar na formação de «um novo tipo de homem e de uma nova comunidade».
O Movimento de Schoenstatt tem um carisma Mariano, Apostólico e Comunitário, e, por inspirador, o fundador (o Pai-Fundador, como é mais conhecido), padre José Kentenich. Os membros deste Movimento estabelecem uma Aliança de Amor com Nossa Senhora, segundo múltiplos graus de pertença, desde o peregrino que visita o Santuário e esporadicamente toma parte em actividades de formação, até aos que ingressam nos Institutos, passando pelos que se vinculam às tarefas de auto-educação, através do cumprimento fidelíssimo do dever e de uma vida cristã autêntica, base essencial da renovação religiosa e moral do mundo.
Na Gafanha da Nazaré, o Movimento de Schoenstatt exerce a sua missão a partir do centro Tabor e da Casa de Sião, pelas Irmãs de Maria e pelos Padres de Schoenstatt, estando o Santuário no centro de todas as actividades, numa ligação plena à Igreja. A Família de Schoenstatt baseia-se na imagem da família natural para que, nas comunidades, o Povo de Deus se transforme em família de Deus, aceitando a protecção da Mãe, Rainha Vencedora Três Vezes Admirável de Schoenstatt, através do Santuário, como lar espiritual, onde se presta um contributo decisivo às tarefas que a Igreja, em especial, e o Vaticano II, em particular, têm indicado ao mesmo Povo de Deus.
Porque acredita que a liberdade é um dom fundamental da pessoa humana, o Movimento tem como determinantes o princípio: Liberdade quanto possível; Vínculos só os necessários; e Cultivo de espírito elevado ao máximo. Assim, Schoenstatt quer formar o homem novo, livre e capaz de se decidir, que sabe usar as coisas do mundo, estando desprendido delas, e que, com magnanimidade, aspira a ideias elevadas. Em Schoenstatt, Maria anuncia as verdades fundamentais da Fé Católica, tão ameaçadas no dia-a-dia por constantes injustiças e manipulações de toda a ordem que instrumentalizam o Homem cada vez mais, e procura restituir-lhe a dignidade de filho de Deus.
O Movimento de Schoenstatt mobiliza e tem mobilizado centenas de paroquianos na Gafanha da Nazaré e noutras paróquias da Diocese. Torna imprescindível, por isso, registar algumas notas do Padre Miguel Lencastre, grande obreiro de toda esta espiritualidade que se respira na região. Ouçamo-lo, pois: «Nos meus começos de coadjutor na Gafanha da Nazaré, procurei pesquisar as possibilidades que se abriram na paróquia e arredores. Por isso mesmo, tentei penetrar apostolicamente em Aveiro e paróquias vizinhas. Desta maneira, ia regularmente ao Colégio do Coração de Maria, tomando contacto com os jovens. Também procurei alguns padres que pareciam ter simpatia pelo Movimento. Cheguei a reunir uns oito ou nove, quase todos Aveiro.
Em Novembro de 1970, dava-se um facto, a meu ver muito importante. O «Símbolo do Pai», vindo da Suíça, fazia pela 1.ª vez a sua entrada em Portugal - Lisboa. Para quem conhece o Movimento, sabe bem o que representava essa visita e toda a corrente de vida e de graças que a acompanhava. Por isso mesmo, desabafei com o P. Domingos Rebelo, dizendo: «Hoje cheira-me a grande caçada. Temos que descobrir a lebre. Ou eu me engano muito, ou este dia vai ficar gravado na história da Igreja e do Movimento em Portugal». E com esta fé, o P. Domingos e eu entrámos no meu carro - o Maresia.
Demos uma grande volta, atravessando a paróquia, sem esquecer a Barra. Já no final, o P. Domingos levou-me até aos terrenos da Colónia. Encontrámos uma casa completamente abandonada — hoje Casa de Sião — e uma outra na sua frente, não abandonada, mas quase. Viviam lá colonos, que pouco tempo depois saíram. Ficava no terreno que hoje é o das Irmãs, logo à entrada, um pouco à direita. Junto da primeira casa, o P. Domingos e eu ajoelhámos e rezámos e também sonhámos: E se conseguíssemos fazer daqui um grande Centro Espiritual, talvez mesmo com um Santuário?...
Não tínhamos nem um centavo, mas nas mãos de Deus tudo seria possível. E nunca mais esta ideia me abandonou. Com o grupo desses padres simpatizantes de Schoenstatt, procurei transformá-la em realidade. Conversámos e fomos amadurecendo o projecto. Fiz também sondagens a nível das autoridades da Colónia e da Diocese.
Em Abril de 1971, chega à Gafanha o P. Celestino Trevisan. Ele ficou entusiasmado com a ideia, e dá-nos a sua força. E no dia 5 de Maio de 1971 esse grupo de padres resolveu escrever uma carta às autoridades competentes, pedindo a cedência gratuita dessa primeira casa abandonada, prometendo em contrapartida a construção de um Centro Social e Espiritual. A resposta veio mais tarde, mas a casa e terrenos só seriam cedidos a título precário. Escreveu-se, então, nova carta. E como o colono da 2.ª casa já tivesse saído (ou estava para sair…), pedimos também esta segunda com os seus terrenos anexos. Mas tudo isto demorou o seu tempo. Finalmente, veio o sim tão desejado em 25 de Maio de 1973.
Lembro-me do primeiro piquenique lá realizado, com os simpatizantes de Schoenstatt. Foi no dia 12 de Junho de 1972, dia do meu aniversário. Entre outras pessoas, estavam o P. Domingos, Maria Luísa, P. Celestino, minha irmã Margarida, um grupo de Unionistas brasileiras do Rio Grande do Sul, do qual fazia parte Anita Trevisan, uma outra senhora brasileira Flora Adami, além de D. Luz e Belinha. Também com o Bispo de Aveiro, D. Manuel de Almeida Trindade, e os padres do Arciprestado de Ílhavo. D. António dos Santos ainda era pároco. Fizemos lá vários almoços, nas nossas reuniões de zona, com alguns desafios de futebol de permeio. D. Manuel era sempre guarda-redes! E capitão! Chegou depois o final do meu contrato como coadjutor - 30 de Setembro de 1972. Por isso, regresso ao Brasil, assim como o P. Celestino. Passados uns seis meses, regresso à Gafanha - Abril de 1973, desta vez como pároco.
Começo de imediato a legalizar a situação dos terrenos, o que me deu grandes canseiras e preocupações, tanto com as autoridades eclesiásticas como com as civis, e também com os superiores do meu Instituto!... Mas, com a ajuda de Deus, tudo se resolve. Isto já em pleno 1974. Em 25 de Abril estoira a revolução nacional! Em Agosto desse ano, promovo um campo de trabalho para estudantes estrangeiros, começando assim as obras de restauro da futura Casa Sião, sem qualquer ajuda económica. Foi tudo na base das boas-vontades. Para dormir, utilizámos as instalações do antigo Lar da Obra da Providência - hoje Jardim-escola. Aí pernoitavam os estudantes. Finalmente, nesse ano de 1974, consegui uma verba da Alemanha, que me permitiu continuar e concluir a Casa Sião. Entretanto, o Movimento na Gafanha crescia.
Formaram-se grupos de Mães, um de rapazes e outro de raparigas, além do Movimento das Virgens Peregrinas e da celebração dos dias 18, na Capela da Igreja. Com este crescimento, veio naturalmente a primeira peregrinação oficial ao Santuário de Lisboa, a 14 de Setembro de 1975, inaugurado a 31 de Maio de 1974. Em Lisboa, encontrámos as Irmãs de Maria, recém-chegadas do Brasil. Convidei-as para uma visita à Gafanha. E no dia seguinte viemos de «Maresia» para a nossa paróquia, com passagem por Fátima.
As Irmãs, depois de visitarem Porto e Braga, decidiram-se a ficar na Gafanha. O primeiro lugar para onde elas foram, foi para o Jardim-escola, que havia sido fundado nessa própria altura, talvez começos de Outubro! Mas, pouco tempo depois, passaram para a Casa Sião, e mais tarde para o Tabor. E daqui para a frente a história é bastante conhecida.»

Fonte: Gafanha Nª Sª da Nazaré (Monografia da Paróquia) de Manuel Olívio da Rocha e Manuel Fernando da Rocha Martins
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terça-feira, 16 de setembro de 2008

Senhora dos Navegantes no Forte da Barra

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1 – Devoções Marianas

É conhecida, de há muito, a devoção que as gentes das Gafanhas têm por Nossa Senhora, à semelhança do que acontece um pouco por todo o País. A figura da Mãe, tanto no plano natural como divino, levou os crentes a aceitarem a Virgem Maria como símbolo da ternura, da disponibilidade, da protecção e do amor. Nessa linha, Maria nunca deixou de inspirar devoção a quem olha para Ela, sobretudo em momentos de aflição ou dificuldades. A Mãe de Deus, e nossa Mãe também, está permanentemente aberta ao povo sofredor. Nossa Senhora da Nazaré, da Encarnação, do Carmo, dos Aflitos, da Boa Hora, da Boa Viagem, da Saúde, dos Campos e, ainda, dos Navegantes. A mesma Nossa Senhora para cada situação. Não é de estranhar, pois, que a Senhora dos Navegantes tenha surgido em espaço e tempo de frágeis técnicas de marear, com perigos constantes, tanto à boca da barra como no mar alto. Embora não se saiba de onde partiu a ideia de venerar no Forte da Barra a Senhora dos Navegantes, é de presumir que a proposta, com toda a naturalidade, tenha nascido no coração de quem vive sentindo as riquezas do oceano, mas também a sua bravura.

domingo, 14 de setembro de 2008

Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré - 2

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Nascimento e baptismo do Grupo Etnográfico

Por mais complexo que seja o processo de nascimento de uma qualquer instituição, há sempre uma data que se fixa como a primeira. Assim, o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré nasceu oficialmente no dia 1 de Setembro de 1983, sendo lógico aceitar que a fecundação aconteceu anteriormente, com mais rigor em 1980/81, na referida festa da Catequese, em que alguém avançou com a ideia de se dançar e cantar modinhas dos nossos avós, no encerramento do ano catequético. E se é verdade que se assumiu aquela data como a mais próxima da realidade, também é certo que o registo do nascimento se fez em 11 de Julho de 1986, através de escritura notarial. Nesse dia, no Cartório Notarial de Ílhavo, a cargo da licenciada Maria Helena de Matos Ferreira, assinaram a escritura, como fundadores do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré, os seguintes: Alfredo Ferreira da Silva, José Manuel da Cunha Pereira, Maria Isabel Fidalgo das Neves Nunes, José Maria Serafim Lourenço, Maria Isabel da Rocha Ribau Amarante, Augusto Manuel da Rocha Amarante, José da Costa Ferreira, Maria de Lurdes Matias Cravo, Humberto Nunes Merendeiro, José Manuel Ribau Augusto, Maria Rosália Figueiredo Rodrigues Teixeira, Maria Helena Pereira de Sousa, David Soares Caçoilo, João Álvaro Teixeira da Rocha Ramos, José Augusto Vilarinho Fidalgo, Maria da Conceição Bola Soares e Manuel Joaquim Retinto Ribau. A publicação da escritura veio no Diário da República de 14 de Agosto de 1986, III Série. Entretanto, os corpos gerentes do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré ficaram assim constituídos: Assembleia Geral: Presidente — João Álvaro Teixeira da Rocha Ramos Secretários — Paulo Manuel Marques Riço David Soares Caçoilo Direcção: Presidente — Alfredo Ferreira da Silva Vice-Presidente — José Manuel da Cunha Pereira Secretário-Geral — José Augusto Teixeira Rocha Secretário-Adjunto — Paulo Jorge Albuquerque Teixeira Tesoureiro — José da Costa Ferreira Tesoureito-Adjunto —Maria Isabel Fidalgo das Neves Nunes Vogais — Maria Conceição Bola Soares Alda Rei Albuquerque Rosa Bela Vidreiro Pata Conselho Fiscal Presidente — Manuel Cravo da Rocha José Maria Serafim Lourenço Eduardo Aníbal Falcão Ribeiro Arvins O primeiro ensaiador do Grupo foi Acácio José Teixeira Rito Nunes, mas tempo depois, por motivos da sua vida profissional, teve de emigrar, sendo substituído por Carlos Alberto Pereira de Sousa, que acabou por abandonar essas funções por ter ingressado num Seminário, na perspectiva de vir a ser ordenado sacerdote, como veio a acontecer. O terceiro ensaiador foi Eduardo Aníbal Falcão Ribeiro Arvins.

FM

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domingo, 7 de setembro de 2008

Eça de Queiroz na Costa Nova

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...Filho de Aveiro, educado na Costa Nova, quase peixe da ria, eu não preciso que mandem ao meu encontro caleches e barcaças. Eu sei ir por meu próprio pé ao velho e conhecido "palheiro do José Estêvão".
Cartas a Oliveira Martins, 1884
NOTA: Texto e foto de Imagens do Portugal Queirosiano, de Campos Matos
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sábado, 6 de setembro de 2008

Eça de Queiroz na Costa Nova

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Palheiro de José Estêvão
a Costa Nova – e eu considero esse um dos mais deliciosos pontos do globo. É verdade que estávamos lá em grande alegria e no excelente chalé Magalhães.
(Eça de Queiroz Entre os seus, Cartas Íntimas, 15 de Julho, 1893)
Apesar de ter retardado ontem o meu jantar até às nove da noite, não pude desbastar a minha montanha de prosa. Levar as provas para os areais da Costa Nova, não é prático – ó homem prático! Há lá decerto a brisa, a vaga, a duna, o infinito e a sardinha – coisas essenciais para a inspiração – mas falta-me essa outra condição suprema: um quarto isolado com uma mesa de pinho. (Carta a Oliveira Martins, 1884)
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Do livro "Imagens do Portugal Queirosiano", de Campos Matos, 1976 :

Crepioca de Sr. Bacalhau

Fonte: Agenda "Viver em..." da CMI