segunda-feira, 5 de agosto de 2019

O Galafanha fica para a história


Este meu blogue vai continuar no ciberespaço para memória futura. Poderá sempre ser consultado.
A partir de hoje, passarei a estar apenas aqui, com a minha terra sempre presente.

Fernando Martins

sábado, 1 de junho de 2019

Bacalhau Gratinado


Preparação: 

Comece por demolhar bem o bacalhau. Escorra-o,
passe pela farinha e frite em azeite.
No azeite da fritura, coloque a cebola, o alho, louro,
sal, piripiri, noz-moscada, massa de tomate e regue
com vinho branco. Depois de apurado, triture e
disponha por cima do lombo do bacalhau. Leve ao
forno a gratinar.
Guarneça com a maionese e os picles finamente
cortados e sirva com batatas fritas às rodelas e
tomate a gosto.

Ingredientes:

350 g de bacalhau (lombo)
1 cebola
3 dentes de alho
1 dl de azeite
2 colheres de sopa de farinha
1 pimento vermelho
1 folha de louro
2 colheres de sopa de massa de tomate
Noz-moscada qb
Sal qb
Piripiri qb
4 colheres de sopa de maionese
2 batatas
Vinho branco
Tomate cherry
Picles

Receita apresentada pelo Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré e que obteve o 3.º lugar na Categoria “Inovação” no Concurso de Gastronomia “Prato Tradição & Prato Inovação”, realizado no Festival do Bacalhau 2018

Fonte: Agenda "Viver em junho" da CMI

domingo, 5 de maio de 2019

Gafanha do Carmo — Breves apontamentos

Igreja da Gafanha do Carmo

A Gafanha do Carmo insere-se, por direito próprio, na região das Gafanhas, sendo inicialmente conhecida por Gafanha dos Caseiros, por razões compreensíveis: predominavam naqueles areais os caseiros, cultivando terras de proprietários provavelmente abastados ou pouco dados aos trabalhos agrícolas. Sem mais delongas, admitimos que as origens dos caseiros eram as mesmas das demais Gafanhas. Contudo, sabe-se que as suas mais naturais ligações foram com os povos da vizinha Gafanha da Encarnação, mas oficialmente aquele lugar estava formalmente integrado na freguesia de São Salvador, Ílhavo, a partir do século XIX. Antes, todas as Gafanhas pertenciam a Vagos.
Aquando da criação da freguesia e depois paróquia da Gafanha da Encarnação, em 1926 e 1928, respetivamente, gerou-se um conflito relacionado com as delimitações, o que levou o Bispo de Coimbra a decidir integrar a Gafanha dos Caseiros ou do Carmo na paróquia da Gafanha da Encarnação, por decreto de 18 de julho de 1934. Mas se assim foi em relação à paróquia, tal não se verificou em relação à freguesia, pelo que os mortos continuaram a ser inumados no cemitério de Ílhavo, com todos os inconvenientes que daí advinham.
A comunidade da Gafanha do Carmo passou a paróquia, sendo desmembrada da Gafanha da Encarnação, em 6 de novembro de 1957, por decreto de D. João Evangelista, Arcebispo-Bispo de Aveiro. Nele, D. João confirma que atendeu à petição dos chefes de família, à concordância do pároco da Gafanha da Encarnação e aos compromissos assumidos pela Comissão Promotora, quanto à côngrua a atribuir ao pároco, às obras a realizar na capela do lugar e à aquisição da residência paroquial. Decreta ainda, para além dos limites com as freguesias vizinhas, que a nova paróquia ficará integrada no Arciprestado de Ílhavo. O primeiro pároco foi o Padre José Soares Lourenço. Nessa altura, havia uma capela de pequenas dimensões, sem valor arquitetónico, que, por estar demasiado junto à via pública, foi destruída, construindo-se a atual igreja paroquial, iniciando-se as obras em 2 de junho de 1969. Foi benzida e inaugurada em 17 de novembro de 1974, por D. Manuel de Almeida Trindade.
A freguesia foi criada por Decreto-Lei n.º 43 165, com data de 17 de setembro de 1960, tendo em consideração a petição da maioria dos chefes de família do lugar da Gafanha do Carmo, havendo 297 fogos e 1155 habitantes. A Junta de Freguesia foi constituída em 26 de dezembro do mesmo ano, presidida por António Maria Louro Domingues, que, no ato de posse, proclamou: «A Junta foi legalmente constituída e é com verdadeiro júbilo, e emocionado, que tenho a honra de presidir à sua primeira reunião.»
A Gafanha do Carmo tem sido, fundamentalmente, uma povoação agrícola, mas houve sempre outras atividade. Muitos homens foram marnotos e moços de salinas, pescadores do bacalhau e da ria, trabalhadores nas companhas de pesca e na construção civil, mas ainda no comércio e indústrias locais. A emigração também foi uma opção constante para o Brasil e Estados Unidos, Venezuela e Canadá, França e Alemanha. As mulheres, contudo, as que não emigraram, laboraram na lavoura, nas secas do bacalhau da Gafanha da Nazaré, enquanto outras vendiam produtos agrícolas na Costa Nova, na época balnear, e nas feiras próximas, em especial na da Vista Alegre.

Fernando Martins

sábado, 16 de março de 2019

Entrevista que concedi ao "Correio do Vouga"

Foi à sombra da Igreja que surgiram 
as principais instituições da Gafanha da Nazaré 




A Gafanha da Nazaré, paróquia e freguesia, tem vindo a celebrar os 100 anos de existência. D. Manuel II assinou o decreto no dia 23 de Junho de 1910 (provavelmente, o último de criação de uma freguesia na monarquia), enquanto o Bispo de Coimbra criou canonicamente a paróquia no dia 31 de Agosto de 1910. Para assinalar o centenário, entre outras iniciativas, publicou-se o livro “Gafanha da Nazaré, 100 anos de vida”, da autoria de Fernando Martins, antigo professor do ensino básico, diácono, director do “Correio do Vouga” entre 1992 e 2004, profundo conhecedor da terra que o viu nascer. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira. 

CORREIO DO VOUGA – Escreveu este livro (apresentado publicamente no Centro Cultural da Gafanha da Nazaré, no dia 7 de Agosto) num tempo recorde. Tal deve-se, também, ao facto de há muito investigar e escrever sobre a Gafanha da Nazaré… 

FERNANDO MARTINS – A paróquia fez-me o desafio no final de 2009: um livro para celebrar o centenário. Aceitei a missão, embora pensasse que não seria tarefa para uma pessoa só. Fiquei encarregado de arranjar uma equipa, mas depois resolvi assumir integralmente a tarefa da escrita. Na minha óptica, teria menos trabalho, evitando reuniões e revisões do trabalho de outros, até porque, de facto já tinha alguma coisa escrita e tenho as minhas próprias ideias. A verdade é esta: a paróquia tem 100 anos e eu vivi quase três quartos desse período. Março, Abril e Maio foram os meses mais intensos de investigação e escrita. 

O livro não é uma autobiografia, mas alimenta-se certamente das suas vivências… 

Eu estive sempre, desde menino, integrado na paróquia, desde a pré-JOC (Juventude Operária Católica – de que seria dirigente diocesano). Na freguesia, a mesma coisa. Sempre lutei, desde jovem, em defesa da Gafanha, quer integrando os seus organismos e associações, quer escrevendo nos jornais da JOC, no “Timoneiro” [mensário da paróquia], como correspondente do Comércio do Porto… 

Hoje prossegue essa defesa na rádio e na imprensa regional e nos seus blogues Pela Positiva e Galafanha. Mas o uso mais eficaz da comunicação social talvez tenha sido aquando da elevação a vila… 

Sim, antes da Gafanha ser elevada a vila (1969), dinamizei a campanha pela comunicação social, que na altura eram os jornais. Trouxe cá, com a colaboração do Daniel Rodrigues, um jornalista do “Diário Popular”, o Ângelo Granja, que fez a reportagem: “Do deserto nasceu uma vila” (21-12-1966). O processo de recolha de elementos para o processo de elevação foi elaborado pelo P.e Domingos Rebelo e por mim. Fui próximo dele e também de outros párocos. 

O Daniel fez várias reportagens no “Comércio de Porto”, um jornal que na altura não era lido aqui. Tinha apenas um leitor. Fez-se então uma campanha de porta a porta, com ardinas a apregoar o jornal que trazia a reportagem do pedido de vila. Na minha sala foi dado um lanche aos jornalistas convidados para visitar a Gafanha da Nazaré… 

Apesar de há muito escrever sobre a Gafanha, encontrou aspectos novos na investigação para este livro? 

Destaco uns artigos que saíram no “Diário de Lisboa”, em 1947. Alguém alertou o jornal para o descontentamento que havia na Gafanha da Nazaré. Nas reuniões da Câmara só se falava da Ílhavo e da Costa Nova. Um enviado especial não identificado fez quatro reportagens. Penso que terá sido Carolina Homem Cristo, directora da revista “Eva”, a alertar o jornalista para o descontentamento. “Mão fina de mulher trouxe à nossa redacção…”, diz o jornal. Falava-se então da pretensão da Gafanha se desligar de Ílhavo e integrar Aveiro. Tínhamos na altura cinco mil habitantes. O mestre Mónica dinamizou uma petição que apresentou ao governador civil. Toda a gente assinou. A petição não seguiu para Lisboa porque o governador achava que era gente de mais. Procurei esse documento no Governo Civil, mas não o encontrei. Pode ter sido levado pelo fogo que entretanto atingiu o edifício. Houve uma manifestação em Aveiro com grande participação popular, mas o governador não apareceu. “Levei lá a gafanhotada toda”, dizia o mestre Manuel Maria Bolais Mónica [construtor naval]. 

As reivindicações contra Ílhavo são uma constante da história da Gafanha da Nazaré? 

Ainda em relação a este episódio, deixe-me dizer-lhe que depois foram entrevistar João Senos, presidente da Câmara Municipal de Ílhavo, que disse: “Acredito que daqui a uns tempos a Gafanha da Nazaré não pertencerá a Aveiro nem a Ílhavo, porque será um concelho”. Disse aquilo para amaciar o pessoal. Mais tarde, um vereador escreveu para o jornal a protestar que o presidente não queria dizer isso. O jornalista respondeu que “podia não ter querido dizer isso, mas foi o que disse”. 

Havia de facto mal estar entre a Gafanha e Ílhavo. O presidente da Câmara era sempre um ilhavense. Isso só foi atenuado quando foi para a presidente Humberto Rocha (da Gafanha da Nazaré), seguido de Ribau Esteves (da Gafanha da Encarnação), que apagou todas essas fogueiras. Ribau Esteves teve a preocupação de alterar a situação, cumprindo a lei de distribuição de verbas proporcional ao número de pessoas e ao território. 

O abandono da Gafanha da Nazaré estava especialmente patente na questão eléctrica… 

Quando nos finais da década de 1940 a energia eléctrica passou para a Costa Nova, com a intenção de chegar ao Farol da Barra, a Gafanha continuava sem nenhuma espécie de energia. Foi aí que o povo se reuniu, de certa forma revoltado, e fez a Cooperativa Eléctrica, que foi a maior acção da unidade de um povo que apostava em si próprio. Era uma das maiores cooperativas de Portugal, porque todos os habitantes faziam parte dela. Para terem energia eléctrica tinham de ser sócios. Durou até depois do 25 de Abril. A cooperativa só foi dissolvida com a nacionalização da distribuição da energia e a criação da EDP. Era eu o presidente da assembleia-geral da cooperativa. 

Que importância teve a paróquia nesta comunidade relativamente jovem? 

Há quem me diga que o livro fala muito da paróquia. Mas foi sem dúvida nenhuma à sombra igreja que surgiram as principais instituições. Restaurou-se, por exemplo, o Grupo Desportivo da Gafanha, tendo eu empurrado para presidente da assembleia-geral o P.e Domingos Rebelo, na década de 50 do século passado. Outro exemplo: o Grupo Etnográfico nasceu a partir do desafio do P.e Miguel Lencastre. A catequese fazia sempre uma festa no final do ano com peças de base bíblica e cantorias, às vezes sem nexo. O P.e Miguel laçou o desafiou: por que é que vocês não fazem umas danças como as dos vossos avós? O Alfredo Ferreira da Silva era na altura o presidente da catequese e é hoje o presidente do Etnográfico. As reuniões destes grupos e da cooperativa eram nas salas da igreja. Até a primeira Junta de Freguesia, segundo a acta, “reuniu-se na sacristia do lado sul da igreja paroquial”. 

Os padres foram pessoas determinantes no destino da Gafanha? 

Sim, conforme a época. Não tinham rasgos, como hoje se vê, em termos pastorais. A pastoral era de manutenção, tradicionalista, como noutros lugares. Só não conheci o Prior Sardo, que morreu 1925. Eu nasci em 1938. Do segundo prior, P.e Guerra, nunca me lembro de ter feito uma homilia. A missa era em latim, as mulheres estavam sentadas no chão, os homens à volta, de pé. Alguns, mais ricos, tinham cadeiras. O Sr. João Catraio, de que falo no meu livro, tinha uma com genuflectório. 

Mas o primeiro, o Prior Sardo (1873- 1925), foi fundamental para a criação da freguesia. 

O P.e João Ferreira Sardo foi um grande político. O P.e João Vieira Resende escreveu no jornal “O Ilhavense”, em 1958, que era importante ele meter-se na política para chegar aos seus fins, criar a paróquia e a freguesia: O P.e Sardo “dava ordens e directrizes em que era obedecido sem restrições ou quaisquer objecções, criando por esta forma ambiente favorável à criação da freguesia, que ele desde há muito tempo trazia em mente”. Era o “rei daquelas terras”. O Prior Sardo tornou-se vereador e foi vice-presidente da Câmara de Ílhavo. Aproveitando uma saída temporária do presidente, ordenou o pagamento da rua da Gafanha de Aquém até à Gafanha da Nazaré. E liderou, na realidade, o processo de criação da paróquia e freguesia. 

Entre os fundadores da freguesia e paróquia, além do povo, D. Manuel II, D. Manuel de Bastos Pina (Bispo de Coimbra) e o Prior Sardo, colocou no seu livro Nossa Senhora da Nazaré. Porquê? 

Porque andava tudo à volta do seu culto. Ninguém sabe como surgiu aqui o seu culto, que será anterior à constituição da paróquia. Quando o Bispo de Coimbra mandou os examinadores para confirmarem se havia condições, o povo disse que queria que a padroeira fosse Nossa Senhora da Nazaré. Assim ficou. 

Hoje a Gafanha está muito ligada ao mar, principalmente às actividades portuárias. No início também foi assim? 

Ao contrário do que muita gente pensa, não foi assim. Colhi esse testemunho dos mais velhos. Eram principalmente agricultores, embora hoje haja pouca agricultura. Tinham a ria ao pé, mas não pescavam, nem apanhavam o moliço. Os moliceiros vinham da Murtosa e de Estarreja. 

Mas a formação geológica da Gafanha – ou mesmo das Gafanhas – está muito dependente da regularização da Barra… 

Sim, mas quando abriram a Barra, em Abril de 1808, durante as Guerras Peninsulares [os barcos para a manutenção do exército luso-inglês já passaram pela Barra), o crescimento não foi de rompante. Mas hoje podemos dizer que a Gafanha é filha do porto, sem dúvida nenhuma. O primeiro estaleiro veio para aqui em 1889. 

Velha história é a da origem etimológica do nome “Gafanha”. Há hoje alguma teoria que seja mais consensual? 

Brinco com isso no livro. Uma teoria que diz que provém de “gadanha”, alfaia de cortar o junto e o recebolo. Como o gafanhão era muito iletrado e deturpava muito as palavras, gadanha teria dado origem a Gafanha. Outra teoria diz que provém de “pagar o gafar”, um imposto para atravessar a ria. Outra, ainda, diz que era uma “terra gafada”, cheira de gretas da lama e do sol, como a pele dos leprosos… Ou que provém de “gafo”, leproso. Mas não consta que os leprosos viessem para aqui, embora os houvesse em Vagos e Mira. 

A minha ideia é que “Gafanha” provenha de “Galafanha”, “Gala + Fânia”, que é também a opinião do Monsenhor João Gaspar, que muito preso. “Gala” quer dizer “terra alagada” (há uma Gala na Figueira da Foz); “fânia” é junco, que existe em abundância nas margens da ria. 

Para terminar, o que destaca como motivo para visitar a Gafanha da Nazaré? 

Tenho andado um bocado obcecado com a paisagem da ria. O desenvolvimento é muito bonito, mas tiraram a ria à Gafanha da Nazaré. A ria desaparece dos nossos olhares em toda a faixa até à Barra. Os portos industrial, comercial, de pesca longínqua e costeira ocuparam toda a faixa da ria. Só temos acesso à ria, muito apertado, na Associação Náutica e Recreativa da Gafanha da Nazaré. Julgo que a Câmara está interessada em desenvolver nova ligação. 

A nossa sala de visitas é o Jardim Oudinot, com o navio-museu Santo André. Não temos grandes monumentos. Há algumas estátuas e uma âncora que evoca os homens da nossa terra que andaram e andam no mar, mas somos uma terra pobre em história. Por sermos pobres temos de dar mais valor às nossas coisas. 


Entrevista publicada no “Correio do Vouga” em 1 de setembro de 2010


NOTA: Confesso que não sei se alguma vez publiquei nos meus blogues esta entrevista que concedi ao Correio do Vouga.Pelo sim pelo não, achei por bem publicá-la agora, por sugestão de uma mensagem que registei hoje, 16 de março.

sexta-feira, 1 de março de 2019

A Gafanha


Fonte: Arquivo do Distrito de Aveiro, revista n.º 164, 1975. Autor: José Ferreira da Cunha e Sousa (1813-1912). O trabalho tem por título "Subsídios para a história de Ílhavo, Gafanha e Costa Nova". Publicarei o restante texto, por partes, para não cansar os leitores.

NOTA: Está garantido que nunca foram desterrados para as atuais terras gafanhoas gafos ou leprosos.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

A FESTA DA BARRA DE AVEIRO

A Festa da Barra de Aveiro tem a sua história e continua a fazer história. Ainda bem, porque o que é bom tem de ser preservado e melhorado. Laudelino de Miranda Melo também contou a sua versão, com algumas estórias pelo meio. É legitimo e sabe bem, que a literatura é arte. Aqui a partilho, copiada, com a devida vénia, do "Arquivo do Distrito de Aveiro", n.º 84, 1955.







quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O Obelisco da Praia da Barra




NOTA: Aqui fica uma curta explicação sobre o Obelisco da Praia da Barra, que conhecemos. Não sei se todos quantos por ali passam se dão ao cuidado de ler as legendas com dados históricos, mas seria bom que o fizessem. Repesquei esta nota do "Arquivo do Distrito de Aveiro" que de vez em quando visito.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Um retrato bonito da Gafanha

Imagem que retrata tempos antigos

«A monografia da Freguesia rural de Ovar … contém elementos que explicam certos aspectos da etnografia ilhavense.
O próprio problema do povoamento da Gafanha não pode abstrair desta subordinação a Ovar; só a zona do Sul terá sido mais persistentemente ocupada por colonos de entre Mira e Vagos.
Tenho presentes documentos oficiais que pelo falecido historiador aveirense Marques Gomes me foram oferecidos, relativos ao protesto que os povos do concelho de Vagos levantaram ao aforamento dos areais do Sul pela família Pinto Basto; por um deles (ofício da Câmara de Vagos, de 6 de Junho de 1836, para o Governador Civil do Distrito) se verifica que esta municipalidade considerava os referidos areais “baldios deste concelho desde tempo imemorial”.
Seria de grande curiosidade para a história da região o conhecimento destes e de outros documentos ao assunto referentes; a história da Gafanha é, a bem dizer, de nossos dias, mas já por vezes há dificuldade em esclarecer determinados passos dela; em 1893 publicou-se a “Representação aprovada no comício que em 3 de Abril de 1893 se realizou na cidade de Aveiro com o fim de pedir o estabelecimento de um serviço de dragagem na Ria da mesma cidade”, folheto hoje muito raro, mas precioso para a história da região, e muitíssimo bem escrito; é assinado por Casimiro Barreto Ferraz Sacchetti, Edmundo de Magalhães Machado, e José Maria de Melo Matos, devendo supor-se que os dois últimos signatários tenham sido os seus redatores.
Pode dizer-se que alguns dos problemas vitais da verdejante e linda planície ainda hoje encontrariam a melhor solução nas páginas do esquecido opúsculo, que celebra nos seguintes termos o trabalho persistente profícuo de seus naturais:

… ainda que muitas pessoas se contam neste distrito que viram a Gafanha árida e despida de vegetação, como a maior parte dos areais do litoral, este trabalho foi tão proveitoso que é a Gafanha talvez um dos lugares deste distrito em que haja mais ouro amoedado, sem contar que literalmente fornece sustentação e trabalho a mais de oito mil pessoas sendo, por assim dizer, o celeiro dos concelhos de Aveiro, de Ílhavo, e ainda da maior parte do de Vagos.» 



António Gomes da Rocha Madail
In “Etnografia e História 
— Bases para a Organização 
do Museu Municipal de Ílhavo”
Ílhavo, Tip. Casa Minerva, 1934

sábado, 15 de dezembro de 2018

Freguesia e Paróquia da Gafanha da Encarnação

Gafanha da  Encarnação - Estufa


Costa Nova - Igreja 
A Gafanha da Encarnação insere-se na área geográfica das freguesias desmembradas de São Salvador, Ílhavo, constituindo uma identidade própria. Podemos dizer, com propriedade, que fazem parte de um todo, com características bem definidas. São elas as freguesias das Gafanhas da Nazaré, Encarnação e Carmo. As suas gentes têm sensivelmente as mesmas origens, as mesmas ocupações, as mesmas tradições, a mesma fé. 
Da comunidade humana, que assentou e criou raízes nestes areais inóspitos no século XVII, brotou a comunidade religiosa, com anseios,  normais, de independência, em relação às freguesias e paróquias a que estava ligada, inicialmente de terras de Vagos e depois de São Salvador. Daí nasceu o movimento que levou à constituição da freguesia, que ocorreu pela publicação do Decreto número  12 612, publicado no DG número 250, primeira  série, de 8 de novembro de 1926, em resposta «à representação de vários cidadãos eleitores do mesmo lugar, pela qual se verifica tal urgência». 
O Decreto, assinado em 1 de novembro daquele ano pelo Presidente da República, António Óscar de Fragoso Carmona, e demais autoridades governamentais, esclarece que na nova freguesia está «integrado o lugar da Costa Nova do Prado». 
A nova freguesia foi gerida por uma Comissão Administrativa até 15 de agosto de 1930, data em que tomou posse a primeira Junta de Freguesia, presidida João Ferreira Félix. 
A paróquia de Nossa Senhora da Encarnação, porém, só foi ereta canonicamente em 3 de maio de 1928 pelo Bispo-Conde de Coimbra, D. Manuel Coelho da Silva, diocese a que pertencia a nossa região. Nessa data, a nova paróquia é desmembrada da paróquia de São Salvador, de Ílhavo. Refere o Decreto do Bispo que no requerimento dos moradores dos lugares da Gafanha da Encarnação e Praia da Costa Nova do Prado, freguesia de Ílhavo, se pede a criação de uma paróquia no lugar da Gafanha da Encarnação, tendo sido ouvido o pároco de Ílhavo. Diz ainda que «esta nova freguesia [paróquia] fica anexada à freguesia [paróquia] de Ílhavo até que tenha residência paroquial própria. Só  depois disso lhe nomearemos pároco». 
Entretanto, o primeiro pároco, Padre João Vieira Rezende, foi nomeado, tendo exercido funções entre 10 de novembro de 1928 e 1948. A elevação a vila aconteceu em 9 de dezembro de 2004, no âmbito da Assembleia da República, nos termos da alínea c) do artigo 161 da Constituição. 
A promulgação do Presidente da República tem data de 7 de janeiro de 2005. No requerimento enviado à Assembleia da República, para além das notas histórias sempre importantes, sublinha-se a evolução crescente da freguesia, quer ao nível social e demográfico, quer cultural e económico. 
A Gafanha da Encarnação, beneficiando da proximidade do mar, da ria e do Porto de Aveiro, polo notório de desenvolvimento acentuado nas últimas décadas, tem sido palco de crescimento em variados setores, sendo justo realçar a dinâmica imposta pela Zona Industrial da Mota do Município de Ílhavo, com cerca de uma centena de empresas, as quais empregam, direta ou indiretamente, muitas centenas de trabalhadores e técnicos qualificados, graças a empresários com visão de futuro. 
Deixando para outra ocasião as áreas culturais, sociais, educacionais, recreativos, religiosas e desportivas, importa frisar que o povo da freguesia da Gafanha da Encarnação tem sabido contribuir para o progresso da sua terra, pelo bairrismo e capacidade criativa que ostenta no seu dia a dia. 
Quem fala ou escreve sobre esta freguesia do concelho de Ílhavo não pode nem deve esquecer o lugar da Costa Nova do Prado (Costa Nova, no dia a dia) que é parte integrante da comunidade, desde o seu início, como se diz acima. Curiosamente, a Costa Nova é paróquia, dedicada a Nossa Senhora da Saúde, tendo sido criada em 16 de julho de 1989, por decreto do Bispo de Aveiro, D. António Marcelino. 

Fernando Martins 

NOTA: Texto publicado no jornal "VOZ sénior" da US-GN, relativo a novembro de 2018.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Bacalhau confitado em pasta de azeitona























Ingredientes: 

2 lombos de bacalhau previamente demolhados 
6 dentes alho 
1 folha louro 
100g azeitonas pretas descaroçadas 
5 botões de alcaparras 
Sumo de limão q.b. 
Azeite q.b. 
Pimenta q.b. 
Orégãos q.b. 

Preparação: 

Coloque os lombos de bacalhau num tacho pequeno, junte 4 dentes de alho previamente descascados e esmagados e a folha de louro. Cubra o bacalhau com azeite e leve ao lume (muito brando) durante cerca de 20 minutos. 
Numa liquidificadora, coloque as azeitonas, os botões de alcaparras, 2 dentes de alho e a pimenta. Triture tudo até obter uma pasta fácil de espalhar. Junte o azeite, o sumo de limão e os orégãos e envolva bem. 
Espalhe a pasta sobre tostas ou pão torrado e disponha por cima as lascas do bacalhau confitado. 


Receita gentilmente cedida pela chef Patrícia Borges 
no âmbito do Festival Gastronomia de Bordo (14 a 18 de novembro) 

Nota: Receita publicada na Agenda "Viver em..."  da CMI

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Obra da Providência - Introdução à sua história

Maria da Luz Rocha e Rosa Bela Vieira com D. António Francisco num convívio
Mais de meio século de vida intensa em prol da comunidade, nomeadamente, da família e de quem mais precisa, a Obra da Providência bem merece que a sua memória seja preservada. Não para ficar guardada numa qualquer gaveta de boas recordações, mas para servir de estímulo a todos, no sentido de nos abrirmos mais à solidariedade social e à caridade cristã.
Nascida num contexto com regras morais rígidas, onde qualquer fuga às normas religiosas era ponto de partida para certas marginalizações, incompreensíveis, mas reais, a Obra da Providência quis mostrar que esse era um caminho errado, pois as mães solteiras ou raparigas “desonradas” não podiam nem mereciam ser ostracizadas pelas suas próprias famílias e pelas comunidades a que pertenciam, como, de facto, acontecia, mesmo quando se vivia a fé católica, com muita devoção.
Os tempos foram mudando e mudando também foi a instituição, num claro esforço de se adaptar a novas realidades sociais que exigiam respostas imediatas. De lar para raparigas ou mulheres marginalizadas, a Obra começou a fixar a sua intervenção nas dificuldades sentidas pelas famílias, quando a mulher seguiu a opção de entrar no mercado do trabalho ou a isso se viu obrigada por razões circunstanciais. Sem descurar, contudo, por outras formas de agir, a atenção às mulheres em perigo moral, que essas estiveram na matriz da Obra da Providência.
A história de uma instituição nunca estará completa, por mais rubricas que a constituam e pelos mais variados detalhes que se registem. Sempre ficarão de fora muitas vivências, sobretudo se tivermos em conta a matriz cristã das fundadoras, Maria da Luz Rocha e Rosa Bela Vieira, marcadas pela sensibilidade da caridade que receberam e da educação religiosa e humana em que foram criadas.
Porém, o que se regista neste trabalho servirá para compreendermos até que ponto o Evangelho pode ajudar a traçar caminhos diferentes e inovadores de justiça social, de caridade cristã e de solidariedade fraterna.

O Galafanha fica para a história

Este meu blogue vai continuar no ciberespaço para memória futura. Poderá sempre ser consultado. A partir de hoje, passarei a estar apen...