quarta-feira, 22 de março de 2017

A propósito da abertura da Barra de Aveiro

Para Memória Futura

Carta de Luís Gomes de Carvalho 
ao futuro rei D. João VI



Nota: Carta publicada no Arquivo do Distrito de Aveiro, integrada em artigo da autoria de Ferreira Neves, um dos fundadores e  diretor da revista,

sábado, 18 de março de 2017

Mulheres das Gafanhas



Esta fotografia não é minha, mas fui eu quem a divulgou pela primeira vez. Faz parte de um livro de Maria Lamas — Mulheres do meu país — que li e consultei há muitos anos. Hoje, como andei a tentar arrumar algumas fotos que tenho armazenadas em nuvens e discos externos, passou-me pelos olhos este registo que me transporta a tempos idos da minha infância e juventude. Conheci algumas destas mulheres das nossas Gafanhas (Nazaré, Encarnação e Carmo), tidas por trabalhadoras indomáveis. Matriarcas muitas vezes com maridos ausentes, na pesca do bacalhau ou na emigração. E reparem como em muitas se mantém um ar sorridente. Todas decerto já faleceram, mas deixaram raízes indeléveis na nossa memória.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Gafanhas no Concelho de Ílhavo


Teresa Reigota: Um exemplo a seguir

“Gafanha… O que ainda vi, ouvi e recordo”



“Gafanha… O que ainda vi, ouvi e recordo” é um livro de Teresa Filipe Reigota, natural da Gafanha da Nazaré e residente na Gafanha da Boavista, S. Salvador. Gafanhoa de gema, como gosta de afirmar, esta professora aposentada tem uma indesmentível paixão pela etnografia. 
Com seu marido, o também professor aposentado João Fernando Reigota, funda o Rancho Regional da Casa do Povo de Ílhavo, em 1984. O envolvimento nas tarefas de recolhas, pesquisas e estudos, levou-a a sentir a necessidade de preservar e divulgar os usos e costumes das gentes que a viram nascer e das quais guarda gratas recordações. Assim nasceu o livro “Gafanha… O que ainda vi, ouvi e recordo”, que vai ser lançado no dia 24 de Outubro, sábado, pelas 21 horas, no Centro Cultural de Ílhavo, em cerimónia que encerra as celebrações das Bodas de Prata do Rancho Regional.
Sobre este livro pronunciar-me-ei numa outra altura, pois considero importante não só manifestar a agradável impressão que a sua leitura me suscitou, mas também estimular a nossa juventude para que se embrenhe nestes estudos, fundamentais à cultura da identidade do povo que somos e que queremos continuar a ser, sobretudo no que diz respeito à manutenção dos valores que enformam a nossa sociedade.
Garanto, aos meus amigos, que a leitura deste trabalho da Teresa Reigota, inacabado como todas as obras do género, suscitará em cada um a revivência de estórias iguais ou semelhantes às que a autora agora nos oferece. E como recordar é viver, estou em crer que todos aceitarão a minha proposta.

Fernando Martins

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Famílias Tradicionais da Gafanha

Um trabalho de Orquídea Ribau


CURIOSIDADES À VOLTA 
DE ALGUNS NOMES 
DE FAMÍLIAS TRADICIONAIS NA GAFANHA

Assento de óbito de António Ferreira
Fonte: A.D.A., S.Tiago de Vagos, Óbitos, Lv. nº 16, Fl .nº 11-verso.
Foto obtida sob autorização do A.D.A.

Como em qualquer outro universo comunitário, alguns nomes de familia, ainda hoje utilizados na Gafanha, têm uma origem muito particular e um pouco à revelia das diferentes“normas” aplicadas ao longo do período compreendido entre a fixação dos primeiros habitantes, no final do séc. XVII, e o final do séc. XIX. Esses nomes adoptados adquiriram tal importância dentro da comunidade que fizeram mesmo desaparecer um ou mais apelidos familiares oficiais. Eis alguns exemplos:

SARDO – Surgiu como alcunha. António Ferreira, assim se chamava o visado, obteve o nome por ser de “cor sardo e cabelo avermelhado”, de acordo com o assento de óbito. Pertencia à família Ferreira, uma das primeiras a fixar-se definitivamente nas areias da “Gafenha” no virar do séc. XVII para o seguinte. Viveu durante a segunda metade do séc. XVIII, e deixou de herança o apelido da familia e a alcunha aos seus descendentes – FERREIRA SARDO. Nas ocasiões em que tinham que mencionar oficialmente a sua filiação, tais como baptismos ou casamentos, os seus filhos identificavam-no como António Ferreira Sardo.

No séc. XIX fixou-se na Gafanha um indivíduo da Murtosa, Mateus Fernandes Sardo, sem ligação aparente à família da Gafanha. Aqui deixou descendentes com esse apelido, que deverá ter uma origem diferente.

O referido António Ferreira Sardo teve um sobrinho, filho de seu irmão mais velho Joaquim Ferreira, de seu nome José Ferreira, a quem, ainda não descobri porquê, apelidaram de “fidalgo”, alcunha que também vingou e se transmitiu como apelido até aos nossos dias - José FERREIRA FIDALGO.

FILIPE – Também numa das primeiras familias que definitivamente aqui se fixaram, a família Fernandes Cardoso, nasceu no primeiro quartel do séc. XVIII Filipe Fernandes Cardoso. Teve vários filhos varões que assumiram como apelidos o Fernandes do pai, seguido do seu nome próprio, Filipe - FERNANDES FILIPE - até hoje.

VILARINHO – Ainda no Séc. XVIII, um membro da família de apelidos “Francisco Sarabando” – outra das tais três ou quatro primeiras famílias que aqui se enraizaram – casou com Maria de Pinho, nascida no lugar de Vilarinho, da freguesia de São Julião de Cacia, conhecida, devido a essa origem, por “a vilarinha”. Os seus filhos passaram a ser os “da vilarinha”, acabando por adoptar oficialmente a alcunha e deixando cair o apelido Sarabando - Fulano FRANCISCO DA VILARINHA. De “da Vilarinha”, a alcunha evoluiu, através dos cento e cinquenta anos seguintes, para “da Veleirinha” e “Vileirinha”, depois para “Veleirinho” e “Vileirinho”, e finalmente para “Vilarinho”, que é a forma correcta e utilizada hoje, ainda que a forma “Veleirinho” tenha sobrevivido na zona sul da Gafanha.

GAFANHÃO – Dois irmãos, primos do anterior, também de apelido Sarabando, casaram em Aveiro em meados do séc. XVIII. Um na freguesia da Apresentação - território que pertence hoje à Freguesia da Vera Cruz - e outro em São Miguel, que hoje faz parte da Freguesia da Glória. Ambos receberam a alcunha de “Gafanhão”, supostamente por serem da Gafanha, embora um deles tenha nascido na freguesia da Apresentação por os pais lá terem vivido alguns anos; até as suas esposas, aveirenses, passaram a ser conhecidas como “Gafanhoa” – ex.: Maria Luiza Gafanhoa, a da Apresentação, no Assento do seu óbito em 1806. Apesar de alguns dos seus descendentes terem mantido o apelido Sarabando, que ainda existe em Aveiro, a alcunha sobreviveu, tendo viajado para o lugar de S. Bernardo, onde um deles casou e a deixou como apelido dos filhos e netos; um outro descendente, Manuel Francisco Gafanhão, já no séc. XIX, regressou às origens familiares com a esposa, e veio enraizar o “GAFANHÃO” na Gafanha.

MARÇAL – Mais um caso idêntico ao FILIPE. Aqui, o patriarca chamava-se Marçal Rodrigues, do lugar do Paço, freguesia de Esgueira, e o filho, que casou na Gafanha em 1837, chamou-se Manuel RODRIGUES MARÇAL, deixando os apelidos aos descendentes.


MARTINHO – Outra situação semelhante às anteriores: Martinho José dos Santos veio do lugar de Santiago, freguesia de São Miguel de Aveiro. Os seus descendentes, presentes na Gafanha a partir de meados do Séc. XIX, adoptaram os apelidos DOS SANTOS MARTINHO.

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NOTA: Esta é uma segunda edição do mesmo texto, publicado no meu blogue Galafanha - Sapo. Reedito-o na convicção de que não é muito lido, apesar das curiosidades que encerra. Vou tentar convencer alguns amigos a cooperarem com textos semelhantes. Lembro, no entanto, que é necessário evitar as fantasias. O rigor histórico é muito  importante.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Gastronomia: Bacalhau de Outono




NOTA: Receita gentilmente cedida pelo Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré e apresentada no "Concurso Prato Tradição & Prato Inovação", na categoria "Inovação", realizado no âmbito do Festival do Bacalhau 2016.
Publicado na Agenda "Viver em..." da CMI

sábado, 14 de janeiro de 2017

Gafanha do Carmo — Jardim das Alminhas








Durante a minha recente passagem pela Gafanha do Carmo, rápida que o tempo urgia, procurei apreciar mais o que salta à vista. Numa bifurcação, bem visível para quem circula, lá estava o Jardim das Alminhas, com data de 1997, que traduz a fé das gentes do Carmo. O painel, que outrora nos assustava com as chamas do purgatório ou do inferno a infligirem um castigo terrível, temporário ou eterno, continua a dar que pensar. E a Nossa Senhora do Carmo lá estará a consolar algumas almas, lembrando, decerto, que Deus Misericordioso perdoará sempre...
Entretanto, fui informado por Domingos Vilarinho que as Alminhas já existiam antes da inauguração  do Jardim das Alminhas. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A Borda

Portas d'Água (Foto da rede global)

Para os gafanhões, a borda era o local de acesso mais fácil à Ria. Com maré baixa, era certo e sabido que o povo se abastecia de berbigões (cricos, na gíria popular), amêijoas, lingueirão de canudo e de uns peixitos que por ali cirandavam aflitos e sem força para chegar aos regos de água salgada. O mexilhão e lapas arrancavam-se das pedras que defendiam os terrenos das marés vivas. Há décadas, o marisco era apanhado livremente, dia a dia, sempre ao sabor das marés. Apenas se respeitavam, em obediência ao saber de experiência feito, os meses sem erre. Nessas alturas, sem avisos das autoridades marítimas, o povo sabia que as diarreias eram perigosas.
A borda era um convite à proximidade franca com a laguna. Nadava-se, chapinhava-se nas lagoas que a maré cheia deixava para deleite da pequenada. A borda era espaço de encontro e de cavaqueiras das gentes da pesca e da apanha do moliço, chamado arrolado, porque era oferecido de mão beijada pelas águas quando fugiam para o mar.
A borda beneficiava todas as Gafanhas e matava a fome a imensa gente. Mas a borda de hoje, não era como dantes. As obras portuárias, cais, diques, navios, arruamentos, ferrovia e outras estruturas ligadas às pescas, como estaleiros, oficinas e espaços comerciais, fecharam a sete chaves a ria aos gafanhões. A laguna ficou para turistas que por ela navegam em épocas de lazer. Agora, apenas num ou noutro recanto, ainda vale a pena arregaçar as calças para apanhar marisco. A cerveja fresquinha espera.

FM

domingo, 1 de janeiro de 2017

Cruzeiro da Gafanha do Carmo



No dia 29, quinta-feira, senti um apelo que me levou a passar pela Gafanha do Carmo. Eram as minhas raízes, do lado materno, a chamarem-me. A minha avó Custódia Luís Ferreira nasceu na então Gafanha dos Caseiros, em 28-08-1867.

Em adolescente e jovem por lá andei imensas vezes de casa em casa com os meus pais. Na rua por onde andava pouco resta daquilo que conheci há uns 70 anos. Passei, olhei numa tentativa de recordar. E fui atraído pelo cruzeiro que é quase da minha idade. Parei, fotografei, procurei registos, mas nada. Um casal que terá apreciado a minha curiosidade suscitou uma curta conversa. Garantiu-me que está como na origem, apesar de ter sido derrubado por um carro que se despistou. O marido da senhora evocou que ele próprio e uns vizinhos tiveram o cuidado de o reconstruir, aproveitando ao máximo o que era de aproveitar. E lá está ele. 
Na minha memória estava um cruzeiro maior, mas não, não senhor. Disse a senhora: — Talvez por nessa altura o senhor ser menino… 
É verdade. Em menino, coisas pequenas parecem-nos maiores. A memória não será tão rigorosa quanto julgamos.
Depois fui à cata. E aqui fica a nota do Padre Resende na sua Monografia:

«O terceiro Cruzeiro, ou melhor o Cruzeiro-Crucifixo, foi benzido e inaugurado na Gafanha do Carmo em 21 de Agosto de 1939, em Comemoração dos Centenários da Independência e Restauração de Portugal. Sobre a base com três degraus de cimento assenta o Crucifixo de pedra de Ançã, medindo a altura do conjunto 2m,50. 
O terreno e alguns materiais para a construção foram cedidos por Joaquim Maria Caçador.
O resto da despesa, que foi de 240$00, foi custeado pela Irmandade de Nossa Senhora do Carmo.»

Notas:

1. Atrevo-me a sugerir que seja aplicada no cruzeiro uma placa simples com a legenda: "Inaugurado em 21 de Agosto de 1939  - Irmandade de Nossa Senhora do Carmo". É importante esclarecer quem passa, seja gente da terra ou algum turista, como foi o meu caso.

2. Algumas vezes ouvi, até de gente com alguma cultura, que os cruzeiros são pelourinhos. Não têm nada a ver com os pelourinhos. São, simplesmente, monumentos religiosos comemorativos da Independência e Restauração de Portugal.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Sport Club União Gafanhenses


Em 1947, o avô do Grupo Desportivo da Gafanha chamava-se Sport Club União Gafanhense. Posteriormente terá mudado de nome. Mais tarde veio o Grupo Desportivo da Gafanha.
Pessoa amiga, Margarida Bola, descobriu nos papéis que herdou algumas curiosidades, que publicarei num futuro próximo. Seu pai, João da Conceição Bola, sócio n.º 3 (na foto, à esquerda), e João Lé, irmão do Padre Lé (na foto à direita), eram dirigentes. E quem era os jogadores? Aqui deixo o desafio a todos. Quem poderá dar uma ajuda?

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

A Gafanha e a sua água taumaturga

Se fosse hoje, D. João gostaria desta água serena

«À Gafanha, a Verdemilho, a São Bernardo e à Presa eram os passeios que eu mais preferia nas minhas férias de professor de Coimbra.
Quem me levava sobretudo à Gafanha era a água que, taumaturga por excelência, com o seu contacto, com o seu murmúrio, com as suas frescas exalações, me aquietavam brandamente os nervos, mais ou menos fora do ritmo pela continuidade das excitações académicas; e para tal ela não precisava mais do que duma sessão: à primeira vez era logo.»

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Gafanha da Nazaré — Décima década

2000 – 2009


Jardim Oudinot
Santo André no Canal de Mira, no Oudinot

Entrámos na décima década de vida da freguesia e paróquia com a certeza de que o centenário teria de ser um acontecimento para ficar na memória do nosso povo. Cem anos não se celebram todos os dias e se olharmos para trás, para apreciar os caminhos andados, temos de reconhecer e admirar a luta constante e tenaz que foi necessária para alcançar o progresso, em vários setores, do material ao espiritual, numa perspetiva de contribuir de forma significativa para o bem-estar de todos os gafanhões, sejam eles de origem ou por opção pessoal.
Fixando os nossos olhares na idosa senhora que é a Gafanha da Nazaré, vemos, com ternura, quanto ela quer e tem rejuvenescido nas últimas décadas, com os pés bem assentes no trabalho exemplar que nos foi legado pelos nossos avós. 
Durante o Jubileu do ano 2000 há referências à construção da Tenda de Jacob, espaço de convívio e reflexão, na zona da Colónia Agrícola, e em novembro de 2007 são dadas por concluídas as obras em todo o recinto, agora denominado Centro de Recursos Mãe do Redentor.
Para preservar a memória dos seus princípios como freguesia e paróquia, foi inaugurada a Casa Gafanhoa, símbolo do viver de um agricultor rico, que merece novas estruturas de apoio, para dinamizar a divulgação do nosso artesanato e de sinais escritos e outros do nosso passado.
Sentimos, nesta década, que seria importante preparar-lhe uma boda festiva e condigna. Foi elevada à categoria de cidade, o bicentenário da abertura da Barra de Aveiro foi celebrado com pompa e circunstância e o Jardim Oudinot, ampliado e com adaptações aos novos ares, foi oferecido à nossa terra e arredores, como era de justiça, tornando-se numa sala de visitas da região, em especial, e do concelho de Ílhavo, em particular.
O velho e glorioso Santo André, um arrastão que chegou a ser campeão na pesca do bacalhau, foi salvo da sucata e transformado, com muita dignidade, em navio-museu, integrado no Museu Marítimo de Ílhavo, este último de projecção mundial.
A igreja matriz, dedicada a Nossa Senhora da Nazaré, foi profundamente melhorada, com bom gosto, apresentando-se agora muito mais funcional e disposta a acolher novas propostas pastorais para um futuro mais de acordo com a Boa Nova, com projetos de um futuro espiritual mais dinâmico e interventivo.
Em 8 de dezembro de 2006, D. António Francisco dos Santos, até então Bispo Auxiliar de Braga, foi nomeado pelo Santo Padre para Bispo de Aveiro.
Com a saída do Prior Fidalgo, assume o cargo de Administrador Paroquial o Padre Paulo Cruz, pároco da Costa Nova e da Praia da Barra, que contou com a colaboração no serviço paroquial do Padre Luís Filipe. Não foi, nem podia ser, um período de grandes alterações no quotidiano da paróquia, salvo uma ligação mais próximo que ambos conseguiram imprimir nos contactos com o povo. 
Entrou também na paróquia um novo Prior. É ele o Padre Francisco Melo, jovem e dinâmico sacerdote, que aposta em implementar uma pastoral de serviço a todos os gafanhões e a quantos optaram por residir nesta terra, com nova organização e com redobrada atenção à pastoral social. Paralelamente, é nomeado Prior da Gafanha da Encarnação, ao mesmo tempo que é responsável pela Vigararia da Pastoral Geral da Diocese de Aveiro.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Linguajar dos gafanhões

Para sorrir...

Em tempos que já lá vão, apresentaram-se duas comadres para baptizar uma criança, juntamente com a mãe, da mesma. O abade inquiriu: Então como se vai chamar a criança?
A 1.ª comadre respondeu: — Botelhana, Sr Prior! Botelhana!
A 2.ª comadre retorquiu: — Prantelhana, Sr Prior, Prantelhana!
Por fim, a mãe da criança também se pronunciou e anuiu: — Eu Cudcana.
Depois de ter ouvido as três versões, o padre ficou confuso e levou algum tempo até descobrir. Afinal, isto traduzia a maneira de falar das gentes da Gafanha, nos princípios do século passado e todas queriam dizer o mesmo.
Já naquela altura, como sempre, se aplicava à linguagem oral, a lei do menor esforço, pelo que, o povo despende a menor energia possível, para pronunciar as palavras (acto de fonação). Assim, o que as comadres queriam, realmente, dizer era o seguinte:
1.ª Comadre: — Bote-lhe Ana, Sr Prior! (botar – pôr, colocar)
2.ª Comadre — Prante-lhe Ana, Sr prior! (prantar – pôr, colocar)
Mãe — Eu cuido que Ana, Sr Prior! (cuidar – pensar, achar)
M.ª Donzília Almeida

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O gafanhão visto por Frederico de Moura

Frederico de Moura



Frederico de Moura, que foi médico em Vagos, escritor, político e homem da cultura, conhecedor profundo da alma e da determinação da nossa gente, em frases realistas, quais pedras preciosas buriladas, diz assim dos gafanhões:

«O gafanhão — ou o avô do gafanhão — quando se foi às lombas para as cultivar sabia que ia investir contra vidro moído totalmente carenciado de matéria orgânica que desse qualquer quentura ao berço de uma planta. Ele bem via a mica a faiscar-lhe no lombo e bem sentia o vento a transmutar-lhe, de momento a momento, o versátil.»

«Não se foi a ela com a esperança do filho que se achega ao colo maternal e ao seio opíparo que destila o leite da humana ternura. Nada disso! Ao invés, investiu com ela como enteado que não espera da madrasta a carícia rica de promessas, nem a generosidade que dá o pão milagroso…»

«Quem surriba chão de areia não encontra onde enterrar raízes de esperança e quem irriga duna virgem sabe que mija numa peneira! Quem lança a semente num ventre que é maninho não pode ter esperanças de fecundação. E, por isso, o gafanhão, antes de cultivar a lomba, teve de corrigir-lhe a esterilidade servindo-se da Ria que lhe passa à ilharga, procurando nela a nata com que amamentou a semente que deixou cair, amorosamente, naquele chão danado. E humanizou a duna.»

«… Homens da terra a pentear o leito da laguna para fertilizar as dunas — vidro moído ainda há poucos anos estéril, ainda há poucos anos maninha — terra que parecia gafada, a terra da Gafanha! Foi o moliço ou foi o suor humano que fecundou as areias picotadas de mica espelhante? Foi o lodo, a Ria ou a fadiga dos homens que realizou o milagre que, agora, reverdece sobre o nosso olhar, nos batatais viçosos (“negros de verde”, dizem os gafanhões) e nos feijoais delicados como placas de Jardim?»

 Em "Aveiro e o seu Distrito"

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

"ÍLHAVO - TERRA MILENAR"

Uma exposição 
com visita obrigatória

Fernando Caçoilo e Paulo Costa apostaram neste desafio

Moliço, laguna, indústrias, agricultura

Marca da Faina Maior

Padeiros, Sal, Moliço


Se o conhecimento não for partilhado 
não serve para nada

«Pode haver muito conhecimento, mas se não for partilhado pela comunidade, se ficar guardado na gaveta, não serve absolutamente para nada», disse o presidente da Câmara Municipal de Ílhavo, Fernando Caçoilo, na inauguração da exposição “Ílhavo, Terra Milenar”, aberta ao público no dia 15 de outubro, no Centro Cultural de Ílhavo. Referiu que «o passado nos dá força e conhecimento para percebermos o que devemos fazer para o futuro das nossas gerações». 
A exposição, que ficará patente até 17 de abril de 2017, poderá vir a ser enriquecida pelo contributo dos munícipes, mas não só, graças ao desafio lançado a todos os presentes pelos autarcas e demais responsáveis da equipa que coordena o projeto — CIEMar-Ílhavo —, que abarca o estudo do passado até ao presente, rumo ao futuro, com mais de dois anos de pesquisas. Nas investigações, têm-se envolvido técnicos credenciados e voluntários com gosto pelo conhecimento da história de terras ilhavenses.
Paulo Costa, vereador da Cultura e dinamizador deste aliciante trabalho, que considera «ambicioso», frisa a importância de todos conhecermos melhor a nossa história «mais sistematizada». Adianta que nos próximos seis meses serão desenvolvidas diversas iniciativas, de forma regular, nomeadamente, conversas, colóquios e debates, dirigidas a vários públicos. 
Admite que a partir deste trabalho-base haverá investigações mais profundas, estando em preparação uma monografia do município «a várias mãos». Salienta que a história do povo «nunca está escrita» porque precisa constantemente de ser «reescrita». Nessa linha, Paulo Costa está certo de que esta exposição «deverá ser um incentivo para conversar e para discutir», no sentido de «conhecermos o passado para prepararmos o futuro». Garantiu, também, que o projeto “Ílhavo, Terra Milenar” vai chegar às escolas.
O visitante encontra no Centro Cultural uma mostra elucidativa e bem ordenada, com painéis que retratam o nosso passado milenar, onde sobressaem vestígios pré-históricos descobertos em Vale de Ílhavo e peças artísticas de pintura e escultura, diversos utensílios da agricultura, salicultura, cerâmica e pescas de antanho, mas também de indústrias locais.
Datas marcantes, cronologias bem alinhadas, evolução demográfica, arqueologia, elementos ambientais, hipóteses do surgimento do vocábulo Gafanha, criação das novas freguesias das Gafanhas por desmembramento de S. Salvador, referências à elevação de Ílhavo e Gafanha da Nazaré a cidades e da Gafanha da Encarnação a vila, entre muitos outros pormenores, podem ser apreciados na exposição.
Esta mostra insere-se nas comemorações dos 720 anos da municipalidade de Ílhavo, podendo ser visitada entre terça e sexta-feira, das 11 às 18h, e aos sábados, das 14 às 19h.

Fernando Martins

Nota: Texto escrito para publicação no jornal Timoneiro. 

sábado, 29 de outubro de 2016

Postal Ilustrado: Farol da Barra


Mesmo no Inverno, é sempre agradável passear por recantos bonitos, como este da Praia da Barra, onde o Farol, dos mais altos de Portugal, é o centro de muitas atenções.

NOTA:

1. Em 2005 (como o tempo passa!...) publiquei em dezembro esta fotografia com uma curta mensagem, decerto para chamar a atenção para este símbolo da nossa região. Repito a publicação,  hoje e aqui, no meu Galafanha, que na altura ainda não tinha visto a luz do dia;

2. Para conhecer as histórias dos Faróis Portugueses, clique aqui.


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Gafanha da Nazaré: Rua Camilo Castelo Branco

Homenagem merecida 
a um dos grandes escritores 
da Língua Portuguesa. 




Penso que não há nenhum português, minimamente letrado, que desconheça O Amor de Perdição, obra famosa de Camilo Castelo Branco.
Não consta que o escritor, falecido em 1890, com 65 anos de idade, alguma vez tenha passado por esta nossa terra, ainda longe de figurar no mapa de Portugal com o título de freguesia, o que só aconteceu, como os meus leitores sabem, em 1910. De qualquer forma, e porque é hábito no nosso País batizar as ruas com nomes de gente célebre, compreende-se, perfeitamente, a lembrança, para quem passa, de Camilo Castelo Branco.
Desde a minha juventude que me deixei seduzir pelas estórias, com enredos, ora simples ora complicados, que Camilo, possuidor de uma escrita bastante rica, soube retratar nos seus livros, reproduzindo cenas e vidas do quotidiano, felizes ou dramáticas, na verdadeira aceção das palavras.
De tal modo que, ainda hoje, me encanta a releitura de obras suas, pela boa disposição que criam em mim. Algumas com uma atualidade ajustada a todos os tempos, sobretudo quando descreve a figura de políticos que deixaram tristes seguidores. 
Amores e desamores, paixões e paixonetas, adultérios e dramas pungentes, santos e pecadores, de tudo um pouco nos fala Camilo em dezenas de livros, ou não vivesse ele do que publicava em tudo onde coubesse bom Português.
Camilo também protagonizou os seus dramas. Estudou, foi seminarista, valdevinos, conquistador, adúltero, polemista temido, visconde e escritor multifacetado: romancista, novelista, dramaturgo, poeta, cronista, etc.
Fugiu com uma senhora casada, Ana Plácido, atitude que o obrigou a esconder-se, andando com ela de terra em terra. Por fim, decerto cansado de viver em refúgios, cai na prisão da Relação, no Porto, onde terá delineado e escrito, em 15 dias, o célebre Amor de Perdição, baseado na vida de um apaixonado parente. Aí foi visitado pelo Rei D. Pedro V e se encontrou com o famoso Zé do Telhado, encontro esse que foi descrito em Memórias do Cárcere.
Em S. Miguel de Seide, onde viveu com Ana Plácido, um filho dela e dois filhos do casal (Jorge, doente mental, e Nuno, um irresponsável), começa a acentuar-se a perda de visão, recebe um oftalmologista de Aveiro, Dr. Edmundo Machado, que atendeu o pedido que o escritor lhe dirigiu, para que o fosse observar. Depois da consulta, Ana Plácido acompanhou o médico à porta. Camilo percebeu do oftalmologista a impossibilidade de cura para a sua cegueira. Pegou numa pistola e disparou um tiro na cabeça. Pouco passava das 15 horas do dia 1 de junho de 1890. Morreu às 17 horas desse mesmo dia.

Fernando Martins

NOTA: Faz hoje, 27 de outubro, sete anos que escrevi este texto. Encontrei-o por acaso e aqui o  edito, nas esperança de que alguns leitores  leiam ou voltem a ler Camilo.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Av. José Estêvão em duas imagens

A mesma avenida em duas imagens
separadas por uns 65 anos


A mesma avenida, com uns 65 anos a separar as duas imagens. A de cima exibe o seu traçado retilíneo e quase sem casas a ladeá-la. A segunda, que me foi remetida há anos pelo Ângelo Ribau, mostra claramente uma zona urbana, onde o casario tem lugar de destaque. Quase nem distinguimos a avenida, hoje chamada José Estêvão. As fotos foram tiradas da torre da igreja matriz. Como a vida se desenvolveu e tudo se alterou!

O Galafanha fica para a história

Este meu blogue vai continuar no ciberespaço para memória futura. Poderá sempre ser consultado. A partir de hoje, passarei a estar apen...