domingo, 19 de junho de 2016

Gafanha da Nazaré — Sétima Década

1970 – 1979
Santuário de Schoenstatt
Complexo Desportivo da Gafanha da Nazaré
A sétima década começou com o excelente entendimento verificado entre o Prior, Padre Domingos, e o seu coadjutor, Padre Miguel. Pessoalmente, testemunhei, como colaborar assíduo, esse entendimento, até porque, espiritualmente, estavam em sintonia. Ambos comungavam, há anos, os ideais schoenstattianos, razão que levou o Padre Miguel a optar pela Gafanha da Nazaré.
Com a saída do Padre Domingos para Salreu, a dinâmica paroquial intensificou-se com novos rumos no horizonte. Muitas famílias estavam ligadas a Schoenstatt e a cooperação com a paróquia era sintomática da unidade que se desejava entre lugares da freguesia. E foi nesta década que se implementou a determinação de levar a comunidade a apostar nos benefícios de mudanças apoiadas no estudo e na concretização de projetos credíveis e viáveis.
Começou a sentir-se a urgência de “dar uma volta” à organização paroquial. Porém, essa convicção não nasceu espontaneamente, mas foi fruto de muita reflexão de grupos convocados, que assumiram tarefas de transformação pela positiva.
O Vaticano II tinha terminado em 1965 e era preciso que as comunidades católicas se adaptassem aos novos e extraordinários desafios lançados pelo Concílio Ecuménico.
Mais estudantes, mais gente formada com cursos superiores, mais cultura e um certo desafogo económico abrem novos horizontes. Também o teatro se impôs, para além do que era habitual e que se traduzia em representações esporádicas em festas ocasionais, da catequese, da Ação Católica e outras. A moda dos festivais da canção também pegou entre nós. E o teatro aparece de forma mais organizada.
Em 25 de Abril de 1974 é posto fim ao chamado Estado Novo com a Revolução dos Cravos, que restituiu as liberdades fundamentais ao povo português.
Ainda em 1974, o Forte da Barra foi reconhecido como imóvel de interesse público, por decreto de 21 de Dezembro.
Novos serviços paroquiais são criados, em especial, Pastoral de Doentes (1973), Ministros Extraordinários da Comunhão (1975), grupo de jovens Talitha Kum (1977), Festival da Canção (1978), Agrupamento n.º 588 do Corpo Nacional de Escutas (1979) e o Stella Maris passa a desenvolver uma intervenção social e pastoral, logo depois do 25 de Abril. Ainda se iniciaram os projetos de construção de três capelas (assim chamadas na altura): Chave, Cale da Vila e Praia da Barra.
Em 20 de Março de 1976, por alvará emanado da Secretaria de Estado da Estruturação Agrária, foi cedida gratuitamente uma parcela de terreno, sito na Colónia Agrícola, à Junta de Freguesia da Gafanha da Nazaré, para usufruto do Grupo Desportivo da Gafanha. O mesmo alvará adianta que «A cedência referida poderá ser rescindida nos casos legalmente previstos e designadamente se o usufrutuário não cumprir as obrigações a que fica adstrito, em especial as de, no prazo de cinco anos efetuar ou ter em vias de acabamento as obras necessárias à prossecução dos seus objetivos sociais». 
O Santuário de Schoenstatt foi inaugurado em 1979, passando a ser, a partir daí, um centro de espiritualidade de grande expressão na região.

Nota: Alguns temas apontados serão abordados mais tarde. 

sábado, 28 de maio de 2016

A Ponte da Cale da Vila que ruiu

Um pouco de história 


A ponte da Cale da Vila, Gafanha da Nazaré, ruiu no dia 29 de novembro de 1994, sendo presidente da Câmara Municipal de Ílhavo Humberto Rocha, o primeiro gafanhão a liderar o executivo municipal. 
Consultei-o um dia destes para esclarecer certas dúvidas, por muito pouco se falar do assunto que nos separou literalmente da cidade de Aveiro até 3 de janeiro de 1995. 
Humberto Rocha teve a gentileza de partilhar connosco registos do seu diário. Nesse dia, escreveu que «a ponte da Cale da Vila sobre o Canal dos Bacalhoeiros ou do rio Boco ruiu!», acrescentando: «Parece impossível, mas aconteceu!...»
Refere que no dia seguinte, 30-11-94, «o trânsito [ficou] caótico nas nossas estradas». E sublinhou que no dia 2 de dezembro do mesmo ano participou numa reunião no Governo Civil para tratar do problema. Com elementos da GNR foram estudados percursos alternativos e no dia seguinte esteve cá o Secretário de Estado das Obras Públicas, que nada adiantou. 
A 29 de dezembro as obras decorriam em bom ritmo, «mas parece não mais acabarem». E na passagem do ano Humberto Rocha comemorou a entrada do ano novo sobre a ponte com elementos da GNR, distribuindo bolo-rei pelos cansados trabalhadores», em espírito de estímulo e de agradecimento pelo esforço despendido.  A ponte foi reaberta ao trânsito na terça-feira, dia 3 de janeiro 1995.
A recuperação da Ponte da Cale da Vila demorou, afinal, pouco tempo, ao todo um mês e três dias. Faltavam uns pequenos arranjos, que podiam ser feitos com a ponte transitável, salientou Humberto Rocha.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Gafanha da Nazaré — Sexta Década

1960-1969
A ponte que ruiu em 1994
Cada década está recheada de acontecimentos, qual deles o mais expressivo. Mas há alguns que deixaram marcas indeléveis, pela negativa, que jamais poderão ser apagadas da alma do povo. Refiro-me à Guerra Colonial que, alimentada por obsessões irrealistas e por princípios políticos ultrapassados, feriu Portugal e os portugueses.
Com o Concílio Vaticano II, anunciador de novas esperanças para a Igreja e para o Mundo, aconteceu o contrário da guerra: as marcas foram agora pela positiva. A Igreja aceitou o desafio de João XXIII e varreu os bolores e o pó dos corredores do Vaticano, deixando entrar rajadas de ar fresco.
O concílio abriu as portas à discussão e à reflexão no dia 25 de Dezembro de 1961 e encerrou os seus trabalhos no dia da Imaculada Conceição, 8 de Dezembro, do ano de 1965. Uma nova caminhada eclesial saltava os muros do Vaticano e abria-se ao mundo.
Em 1962, é nomeada Bispo de Aveiro D. Manuel de Almeida Trindade, com o Concílio Vaticano II já a decorrer, sendo considerado, por isso, um bispo conciliar. Entrou na nossa diocese em 23 de Dezembro daquele ano, depois da sua ordenação episcopal, em 16 do mesmo mês.
A Gafanha da Nazaré dá mais um salto nos caminhos do progresso, atingindo a categoria de vila, em respeito pelo seu crescente incremento industrial, aliado à sua situação geográfica, que lhe granjeou posição de excepcional relevo no conjunto portuário de Aveiro. Ainda se intensificou a emigração para França e Alemanha, sobretudo. 
A inauguração da ponte da Gafanha, junto à Friopesca, com a presença do ministro das Obras Públicas, Eng. Arantes e Oliveira, e demais autoridades locais e regionais, também aconteceu nesta década. Mas a nova ponte veio a ruir em 29 de novembro de 1994, por força das correntes que, activadas por aterros laterais ali colocados inadvertidamente, puseram a nu pilares centrais. Foi reaberta no dia 3 de janeiro de 1995.


Destaques nesta década 

terça-feira, 10 de maio de 2016

Seca do Bacalhau na Gafanha


Quando tenho uns minutos livres, costumo procurar assuntos ligados à nossa terra e região. Hoje ofereço para apreciação uma foto, obviamente de má qualidade, publicada no "Arquivo do Distrito de Aveiro", n.º 28 de 1941, volume VII, página 310. Trata-se de uma seca do bacalhau, sendo visíveis as tinas onde era lavado o fiel amigo. O ambiente mostra que essa tarefa era feita ao ar livre. 

sábado, 30 de abril de 2016

Estrada da Gafanha ao Forte

30-IV-1861
Ponte da Cambeia e  Portas d'Água
«Com a conclusão do lanço da Gafanha ao Forte, terminaram neste dia os trabalhos de construção da estrada da Barra, iniciados em 12 de Março de 1860 (Padre João Vieira Resende, Monografia da Gafanha, pg. 181) – A.»

Calendário Histórico de Aveiro 
de António Christo e João Gonçalves Gaspar

Nota: Seria interessante saber se havia,  antes da construção, qualquer caminho para passagem de pessoas ou gado. Talvez de terra batida. Ou simplesmente areias soltas ainda virgens, sem casas... Quem avança com alguma ideia?

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Apelidos e Alcunhas da Gafanha

Recolha de António Augusto Afonso, 
residente nos EUA

António Augusto Afonso


António Augusto Afonso é um gafanhão que muito estimo. Tem quase 92 anos e emigrou para os EUA há bastante tempo. Longe da sua Gafanha, tem sempre as nossas gentes e tradições na memória e no coração. O meu amigo recorda histórias que vivenciou e outras que fazem parte do imaginário dos gafanhões. Descreve cenas do quotidiano da sua infância, juventude e vida adulta, citando nomes, apelidos e alcunhas com uma facilidade enorme. 
Quando as saudades apertam, tem a gentileza de me telefonar, em datas marcantes, para trocar impressões e para se sentir informado. Reconheço pela voz as emoções que o assaltam por se sentir próximo destes ares, através do telefone, e percebo a alegria de saber novas da terra, da ria e do mar, graças à maresia que lhe corre nas veias. Tudo assume como presentes no seu espírito. 
Há tempos enviou-me quadras rimadas em que joga com apelidos e alcunhas dos gafanhões. Julgo que não falta nada. Fruto, obviamente, do resultado de muito pensar e registar. Seria uma enorme pena para todos nós fechar a sete chaves estas quadras que constituem um património inquestionável.
A história de uma terra, mas ainda de um povo e de uma família, precisa de ser partilhada e constantemente enriquecida. Não há, quer da parte de António Afonso quer de minha parte, qualquer intenção de ofender seja quem for. A memória de toda a gente aqui retratada, apenas pelos apelidos e alcunhas, merece toda a nossa estima. Daí que eu dedique aos nossos antepassados e seus descendentes esta publicação, para memória futura. Mas o autor é claro, logo a abrir o seu relato.
Muito obrigado pela vossa compreensão.

Fernando Martins

NOTA: Se houver falhas agradeço informações para completar a lista. 

Apelidos e alcunhas da Gafanha

Ó gafanhões da minha terra
De cá de longe, eu vos saúdo!...

Ó terra que eu amo, eu te saúdo.
Ó terra da boa gente!...
É o que diz quem o sabe,
E muito mais quem o sente.

Ó gafanhões da minha terra
De longe, vos venho saudar.
Com vossos apelidos e alcunhas
Mas a todos respeitar.

Com seus apelidos e alcunhas
Que já lhes vêm de seus avós,
Ninguém sabe donde lhes vieram,
E muito menos quem lhos pôs.

Alguns bastante engraçados
E até originais e bizarros
Tais como Cigarras ou Grilos
Salsas, Vinagres ou Cigarros

Bolas que não rolam nas Relvas,
Fidalgos sem fidalguias nem brasão
Reis, Condes e Marqueses
E até Frades sem gabão.

E que siga a Rusga e viva a Alegria
Com Guitarras e Violas, Fadistas e Cantadores
E Estanqueiros, Cordeiros e Parceiros,
E Carapelhos, Coelhos e… Caçadores.

Teixeiras, Casqueiras e Ferreiras
Camões, Camarões e Calções
Os Ribeiros, os Ribaus e os Maus
Esgueirões, Carranjões e Gafanhões.

Vergas, Peixotos e Calhotos
Caçoilos, Palhaços e Palhaças
Tavares, Tarrincas e Petingas
Mateiros, Mónicas e Margaças.

Páscoas, Dias e Santos
Rochas, Facicas e Barricas
Marques, Varetas e Maguetas
Piorros, Pônas, Laricas e Janicas.

Brancos, Louros e Russos,
Vechinas, Bichos e Bichões
Alhos, Labregos e Cagarutos
Pintos, Retintos e Cagões.

Patas, Penitates e Lourenços
Valentes, Vicentes e Ritos
Torres, Píncaros e Ramos
Cravos, Flores e Bonitos.

Alcatrazes, Maçaricos e Gaivotas
Melros, Piscos e Cucos
Roques, Rolas e Rolos
Raposas, Zanagos e Zucos.

Albuquerques, Alves e Almeidas
Catraios, Catarréus e Catarinos
Serrões, Guerras e Serras
Tomazes e Ferrazes, Cirinos e Marcelinos.

Sousas, Soares e Sardos
Guinchos, Gulaimos e Perselhas
Sarabandos, Estudantes e Galantes
Anastácios, Garcês e Garrelhas.

Carecas, Caleiros e Calistos
Barba Azul, Pinhos e Gandarinhos
Mateus, Matias, Matos e Ratos
Vidreiros, Vieiras e Vilarinhos.

Calores, Neves e Geadas
Covas, Calatrós e Serafins
Bisas, Brióis e Serapões
Martinhos, Martelos e Martins.

Caixotes, Loureiros e Monteiros
Marçalos, Arrais e Morais
E com Lopes, Lés e Cafés,
Serão ainda muitos mais.

E ainda Silvas e mais Silvas
Com Carvalhos, Nogueiras e Pereiras
Figueiras, Macieiras e Salgueiros,
E a grande floresta de Oliveiras.

Não é possível contar-vos a todos
Por ser elevado o número. Contudo…
Ó gafanhões da minha terra,
Com todo o respeito, daqui de longe, vos saúdo.

António Augusto Afonso


NOTA posterior: O meu amigo António Augusto Afonso faleceu nos Estados Unidos em Abril de 2017, com 92 anos.  Ver aqui 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Gafanha da Nazaré — Quinta década

1950-1959

Com a aplicação do Despacho 100/45, esta década saiu fortemente beneficiada. Os estaleiros souberam aproveitar a dinâmica imposta pelo despacho, respondendo aos desafios das empresas de pesca. Mais navios, mais pescas, mais trabalho nas secas, mais empresas paralelas, mais gente. O mesmo sucedendo com o tratamento do fiel amigo e sua secagem natural, ao sol e vento. Um pouco mais tarde, em estufas, de que foi pioneira a EPA — Empresa de Pesca de Aveiro.
As empresas de pesca do bacalhau recorreram a pessoal de várias regiões do país, nomeadamente das Beiras e do Norte, que aqui se estabeleceram. Daí resultaram problemas sociais graves, no início, já que em deficientes habitações se alojam diversas famílias, em situações deploráveis. 
Distinguiram-se nessas migrações pessoas de Fafe, que vieram para trabalhar nas secas do bacalhau. Trouxeram forte vontade de lutar e de poupar, pensando certamente no regresso, mas muitas por aqui se fixaram, integrando-se plenamente nas Gafanhas, em especial na Gafanha da Nazaré. Trouxeram, também, os seus usos e costumes, bem como os seus cantares, que exibiam de manhã e à noite, na ida e no regresso do trabalho. Está na memória de muitos gafanhões a forma descontraída e rápida como faziam meias, nas suas caminhadas, enquanto cantavam as modinhas da época e das suas terras.
Em 15 de Janeiro de 1952 é fundada a mais antiga associação da nossa freguesia, ainda em atividade: Grupo Columbófilo da Gafanha da Nazaré. Foram seus fundadores João Nunes Bola, Joaquim Robalo Campos, Augusto Francisco Ferreira e Joaquim Pereira. Tinha como objetivos principais cuidar, criar, selecionar e treinar pombos-correios para competição em concursos, quer a nível nacional quer internacional, organizados pela Federação Portuguesa de Columbofilia.
Com 85 associados maioritariamente da Gafanha da Nazaré, mobiliza para esses concursos, semanalmente, 1250 pombos, só da nossa freguesia, durante seis meses.
Nesta década verifica-se um acidente gravíssimo, que, felizmente, não provocou vítimas mortais. A ponte de madeira que ligava o Forte à Barra ruiu com o peso de uma camioneta, do senhor Manuel Russo, carregada com cinco toneladas de areia. 
O Mercado da Gafanha começa a criar raízes, em novo espaço, e entra na paróquia o quarto Prior, Padre Abílio Augusto Saraiva. Entre a saída do Prior Bastos e a entrada do Prior Saraiva acumulou o serviço paroquial, interinamente, o Padre António Diogo, ao tempo Prior da Gafanha da Encarnação.
Dá os primeiros passos a Obra da Providência, enquanto o Grupo Desportivo da Gafanha vê oficializados os seus estatutos. 
Em 1955 assume a paroquialidade da Gafanha da Nazaré o Padre Domingos Rebelo, que intensificou entre nós o culto a Nossa Senhora e implementou o estudo bíblico, como resposta à entrada na freguesia das ideias protestantes. 
Em agosto de 1958, D. Domingos da Apresentação Fernandes assume as responsabilidades de Bispo de Aveiro, sucedendo a D. João Evangelista. 
O jornal “O Ilhavense” transcreve de “O Século”, com data de 11 de novembro de 1958, um texto intitulado “Gafanha — Terra de Agricultores e Marinheiros, quer trabalhar para o seu progresso e para benefício da economia nacional”. E a dado passo lê-se:

«Terra árida e sem vegetação, queimada por um sol ardente e desabrigada, exposta aos ventos agrestes e calor sufocante; terra mártir, condenada ao abandono pelos dons da natureza, foi à custa de “sangue suor e lágrimas” dos seus habitantes que a Gafanha atingiu o atual alto grau, podendo orgulhar-se de ocupar lugar de relevo como centro industrial.
(…)
Mas um dia, um ser humano, mais forte e persistente, cheio de coragem e com ardor, cavou terra, remexeu-a, estrumou-a com os moliços da Ria, plantou e colheu o fruto do seu trabalho; a vegetação tinha começado. O homem mais uma vez vencera.»

A Colónia Agrícola é inaugurada e anexada, sob o ponto de vista pastoral, à freguesia de S. Salvador. Nasce o Timoneiro e a Catequese adapta-se às novas pedagogias. O protestantismo entra na Gafanha da Nazaré para ficar. Há novo Bispo de Aveiro. Instituições dão os primeiros passos.
Ainda nesse ano, Humberto Delgado disputa as eleições presidenciais, confrontando-se com Américo Tomás. Este vence oficialmente as eleições, mas a oposição democrática denuncia a fraude, atribuindo a vitória ao general que tinha garantido, na campanha eleitoral, que demitiria «obviamente» o chefe do Governo, António Oliveira Salazar.
Como consequência da campanha eleitoral, Salazar promove, em agosto de 1959 uma revisão constitucional, na qual se suprime o sufrágio direto para a eleição do Presidente da República, substituindo-o por um sufrágio indireto, proporcionado por um colégio eleitoral de total confiança do Governo.
Nessa mesma altura, na tomada de posse da União Nacional (partido único no País), Salazar ameaça rever a concordata se a Hierarquia da Igreja católica não for capaz de assegurar a manutenção da «frente nacional» entre o Estado Novo e os católicos. É justo lembrar que se deve em grande parte à Acão Católica esta tomada de consciência do povo português face aos problemas sociais, políticos, mas ainda face aos direitos fundamentais dos cidadãos.
Em 1959, Aveiro celebrou o milénio da sua existência, graças à referência feita pela Condessa Mumadona, quando legou as suas marinhas de sal que possuía em Alavarium. Também celebrou o bicentenário da sua elevação a cidade. Os festejos foram diversos e como nota interessante, para nós, o Mestre Manuel Maria Bolais Mónica, com a sua arte e saber, ergueu na ponte da Dobadoura um mastro de um navio, que assinalou durante algum tempo as referidas efemérides.
Nesta década e por iniciativa do Prior Domingos dão-se os primeiros passou para a organização da Catequese paroquial, destinada em especial à infância. Até aí, as senhoras mestras, e um ou outro mestre, encarregavam-se da tarefa de educar na fé as crianças, normalmente até à primeira comunhão. O crisma recebia-se sem qualquer preparação específica. O autor destas linhas foi crismado por D. Domingos da Apresentação Fernandes, por simples aviso. Todos em fila, com os padrinhos escolhidos no momento (um adulto era, como foi o meu caso, padrinho de muitos crismandos. depois aderiu a uma Igreja Evangélica), sem mais.

Fernando Martins

terça-feira, 19 de abril de 2016

Gafanha da Nazaré: Elevada a cidade em 2001

Lei n.º 32/2001 de 12 de Julho

Forte da Barra
Elevação da Gafanha da Nazaré,
no concelho de Ílhavo,
à categoria de cidade

A Assembleia da República decreta, nos termos da alínea c) do artigo 161.º da Constituição, para valer como lei geral da República, o seguinte:
Artigo único

A vila de Gafanha da Nazaré, no concelho de Ílhavo, é elevada à categoria de cidade.
Aprovada em 19 de Abril de 2001.
O Presidente da Assembleia da República, 
António de Almeida Santos.
Promulgada em 7 de Junho de 2001.
Publique-se.
O Presidente da República, 
JORGE SAMPAIO.
Referendada em 29 de Junho de 2001.
O Primeiro-Ministro, 
António Manuel de Oliveira Guterres.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Gafanha da Nazaré — Quarta Década

1940 – 1949


A quarta década foi marcada por avanços significativos em vários campos, que elevaram a qualidade de vida das populações. Em 1940, o sector da saúde viu chegar a primeira farmácia — Farmácia Morais —, que ainda é hoje [2010] propriedade da atual diretora técnica, Maria Ester da Silva Ramos Morais. Por pura coincidência, na mesma altura montaram consultório na nossa terra os médicos Maximiano Ribau, da Gafanha da Nazaré, e Joaquim António Vilão, natural de Mata-dos-Lobos, Figueira de Castelo Rodrigo. Um outro médico, natural da Gafanha da Nazaré, mas residente em Ílhavo, onde casou, José Rito, também aqui dava consulta. Foi o primeiro clínico gafanhão.
O célebre desastre da Nau Portugal, que adornou na ria, aquando do bota-abaixo, tornou mais famoso o Mestre Mónica, que, segundo a tradição popular, havia previsto essa situação. Na altura, a nossa terra foi muito badalada, persistindo na memória de muitos o que aconteceu, com a Nau a deitar-se lentamente na laguna.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Nossa Senhora de Fátima na Gafanha da Nazaré

Desde 1917 que o povo da Gafanha da Nazaré dedicou a Nossa Senhora de Fátima uma veneração muito especial e em 1951 a paróquia recebeu-a, por um dia, com manifestações de júbilo.
De 17 a 24 de novembro de 1957, e para preparar a celebração das bodas de ouro episcopais de D. João Evangelista de Lima Vidal, mais uma vez a Imagem de Nossa Senhora de Fátima esteve entre nós.
«Esta peregrinação concluiu (julho de 1959) com um cortejo cívico desde o Paço Episcopal até ao Estádio Mário Duarte celebrando-se aí Missa campal e, no fim, apoteose; esta concentração diocesana fez parte das Comemorações do Milénio de Aveiro e do bicentenário da sua elevação a cidade» (Diocese de Aveiro, págs. 533 e 534).
A Gafanha da Nazaré participou ativamente nesta peregrinação e ainda hoje se recorda, com muita saudade, a vivência dessa semana em que o povo pôde mostrar quanto ama Nossa Senhora de Fátima.
Formaram-se comissões que se encarregaram da ornamentação das ruas, com flores e iluminação, para assim ser homenageada, na sua passagem em procissão pelas principais ruas da Gafanha da Nazaré.
E recorde-se, também, que houve várias peregrinações da paróquia ao Santuário de Fátima e que, principalmente a 13 de maio e de outubro há sempre grupos que ali se deslocam a pé e de outros modos, fazendo penitência e oração.

Fonte: “Gafanha — N.ª S.ª da Nazaré,
de Manuel Olívio Rocha e Manuel Fernando da Rocha Martins,
1986


quinta-feira, 31 de março de 2016

Gafanhas: Notas soltas


No ano de 1937 completou-se a construção do primeiro Cinema na Gafanha da Nazaré, sendo seus proprietários Manuel Fernandes Caleiro, José António dos Santos e José Vieira.
Além dos telefones para os serviços da Aviação de S. Jacinto, do Farol da Barra e da Mata Nacional, há dois telefones públicos na Gafanha da Nazaré [1944] e dez particulares na mesma freguesia.
Até ao ano de 1939 não houve fontes em toda a região das Gafanhas. A água para uso interno ainda agora é captada em covas instáveis e abertas nas antigas vertentes das dunas, ou em poços construídos junto das habitações.
Esta água tem sido fina, cristalina, inodora, leve e saborosa. Ultimamente começou a declinar com o revestimento florestal e herbáceo das dunas e dos terrenos aráveis, o que levou à sua exploração em sítios ainda não inquinados pelas raízes e pelos detritos terrosos.

Fonte: Monografia da Gafanha do Padre João Vieira Rezende

terça-feira, 15 de março de 2016

Primeiro relógio da torre da nossa igreja matriz


Igreja Matriz da Gafanha da Nazaré


NOTAS:

1. Na torre, é visível o relógio Logo a seguir, para baixo, há uma janela e depois uma placa com os nomes dos beneméritos.
2. Do livro "Gafanha: N.ª S.ª da Nazaré",
de Manuel Olívio da Rocha e Manuel Fernando da Rocha Martins

segunda-feira, 14 de março de 2016

Gafanha da Nazaré — Terceira Década

1930 -1939

Algumas considerações 
sobre a nossa freguesia e paróquia

A terceira década da vida da freguesia e paróquia foi assinalada por três grandes acontecimentos:  Em 1933 é aprovada a constituição da República, sob o signo da política de Salazar, que haveria de se impor ao país até ao 25 de Abril de 1974. Antes da sua publicação, Salazar, em 1932, na tomada de posse, afirma, categoricamente, como que a garantir o comando geral da política portuguesa: «Sei muito bem o que quero e sei para onde vou.»
Sem participação democrática, fechada sobre si mesma, a constituição estabelecia um regime corporativo e indiferente às democracias que se iam estabelecendo na Europa. Foi essa política que proclamou, pela voz de Oliveira Salazar, a célebre frase do «orgulhosamente sós», em defesa do Portugal multicultural, multirracial e multicontinental.
Em 1938, a Diocese de Aveiro foi restaurada, sendo constituída por paróquias das Dioceses de Coimbra, Porto e Viseu. Deixámos, então, a Diocese de Coimbra. 
Ainda em 1938, os gafanhões assumem mais um grande projeto de unidade, com a criação da Cooperativa Eléctrica da Gafanha da Nazaré. Até essa altura, a iluminação estava entregue ao candeeiro a petróleo ou às lamparinas e velas.
A emigração continua e as indústrias e o comércio multiplicam-se. Pesca do bacalhau e secas dão mais vida à nossa terra e região. Estaleiros requerem técnicos e artistas da enxó e do machado.
Nesta década surge na região Carlos Roeder, um empresário com visão de futuro e fundador na década seguinte dos Estaleiros de São Jacinto.

terça-feira, 8 de março de 2016

Gafanha da Nazaré — Segunda Década

Prior Guerra
1920 - 1929

Algumas considerações
sobre a nossa freguesia e paróquia

Dez anos depois, a vida continuava, num crescendo notório. Em 1921, no dia 25 de julho, é benzido o Cemitério Paroquial, terminando o sacrifício dos enterros e demais trabalhos inerentes aos funerais. As obras da igreja matriz prosseguiam e empregos sucediam-se. A agricultura continuava a ser a base da subsistência do povo. Emigração foi mais um caminho de desenvolvimento pessoal e familiar.
Schwalbach Lucci, citado por Jorge Arroteia em “Gafanha da Nazaré — Escola e comunidade numa sociedade em mudança”, diz, em 1918:
«Alguns indivíduos compraram a terra a crédito e, após a transacção, emigraram temporariamente para a Califórnia, forcejando por juntar a soma precisa para o pagamento da dívida contraída. Não é uma deslocação de carácter permanente, pois deixaram frequentemente a substituí-los nos trabalhos da metrópole as esposas: até servem de arrais.»

quinta-feira, 3 de março de 2016

Gafanha da Nazaré: Festas na paróquia

Nossa Senhora da Conceição
(foto de Humberto Rocha)

Diz a tradição que sempre houve festas na Gafanha da Nazaré. Mesmo antes da criação da paróquia e freguesia o povo organizava e participava nas festas, muitas delas, senão mesmo todas, feitas à sombra dos padroeiros e outros santos da comunidade católica. 
Além da festa da padroeira, Nossa Senhora da Nazaré, há registos e memórias de outras: Nossa Senhora da Conceição (Muito participada por todos, em especial pelos marítimos ligados à pesca do bacalhau), São Tomé (com promessas dos lavradores referentes ao gado), Mártir São Sebastião, Nossa Senhora dos Navegantes (no Forte) e São João (na Barra).
Posteriormente vieram as festas de Nossa Senhora dos Aflitos (Chave) e São Pedro (na Cale da Vila). Eram festas que se estendiam pelo verão, depois ou durante as colheitas, como necessidade de descompressão para quem trabalhava duramente nos campos.

terça-feira, 1 de março de 2016

Evolução demográfica da Gafanha da Nazaré

Mulheres da seca (década de 40 do séc. XX
Anos - habitantes


1911 - 2441
1920 - 2827
1930 - 3308
1940 - 4116
1950 - 5475
1960 - 7497
1970 - 7870
1981 - 11187
1991 - 11638
2001 - 13617
2011 - 14756

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Gafanha da Nazaré — Primeira Década

1910-1919

Igreja inaugurada em 14 de janeiro de 1912

A freguesia da Gafanha da Nazaré é criada numa época marcada por algumas transformações importantes, tanto para o País como para a Igreja Católica. Os moradores, povo crente, sabem escudar-se na Igreja e nas suas organizações para cimentar novas raízes neste espaço de areias soltas e movediças, onde levantam modestas habitações.
Como desde os primeiros tempos da sua fixação, nesta zona de ria e mar, a construção das habitações convoca a troca de saberes e a ajuda mútua. Desde o fabrico dos adobes, nas dunas, terra de ninguém e de um ou outro proprietário, junto à actual Mata da Gafanha, até ao levantar da casa em terreno oferecido pelos pais dos nubentes. 
Erguidas as paredes, apenas deixam mais ou menos concluídos a cozinha e um quarto. Tudo o mais fica para mais tarde, quando houver poupanças ou heranças. Quarto de banho não existe, mas não faltam os currais para o gado e para a criação. 
A agricultura em terrenos dos pais ou arrendados é a base da subsistência. Outros “andam de fora” como jornaleiros e seareiros, expressão usada nos registos de casamento, baptizado ou óbito.
Depois a pesca, as obras da barra, estaleiros, as secas e demais empresas ligadas às indústrias e comércio. Há conhecimento de que gafanhões emigram para os Estados Unidos e para o Brasil.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Alberto Ferreira Martins merece ser recordado


Reedito o talão correspondente ao primeiro subscritor dos 85 gafanhões que se responsabilizaram pela construção da igreja da Gafanha da Nazaré, antes ainda da nossa terra ser paróquia e freguesia, o que veio a acontecer apenas depois do decreto de D. Manuel II, rei de Portugal. assinado em 23 de junho de 1910.
Nas minhas buscas sobre a nossa terra, o senhor Alberto Ferreira Martins era pessoa habitualmente presente e com habilitações, o que se prova, no mínimo, pela caligrafia que usava. As atas da Junta de Freguesia, que tive o cuidado de ler e de transcrever algumas, no tempo em que não havia fotocópias, mostravam que o senhor Alberto Martins escrevia corretamente. Nessa altura, perguntei algo sobre ele, mas nada de relevante descobri. Fiz mal. Hoje lembrei-me de voltar ao tema. Espero encontrar algumas portas abertas, porque ele merece ser recordado. Vou aguardar algumas informações dos amigos.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Gafanha da Nazaré — Filha do Porto de Aveiro



Quem hoje visita a GAFANHA DA NAZARÉ, se embrenha no seu emaranhado casario, onde o contraste entre o rico e o pobre se tornam flagrantes, e percorre a zona portuária e industrial, talvez nem imagine o que foi o viver dos primeiros habitantes que por aqui se foram fixando desde o século XVII, e, sobretudo, nos finais do século XIX e princípios do século XX.
A gente humilde que por esta região se foi quedando no amanho da terra pouco fértil, porque muitas vezes lavada pelas águas salgadas, nem sequer sonhava com a Gafanha que estava a construir e fadada para polo de desenvolvimento. Antes da abertura da Barra, que aconteceu em 3 de Abril de 1808, a região lagunar era terra doentia e as águas estagnadas muito contribuíram para isso. Mas depois, quando “Pelas sete horas desse dia, Luís Gomes, abrindo um pequeno sulco com o bico da bota, no frágil obstáculo que separava a ria do mar, deu passagem à onda avassaladora da vazante para a conquista da libertação económica, depois de uma opressão que durara sessenta anos”, como descreve o Comandante Rocha e Cunha, a Gafanha viu nascer novas esperanças.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Formação do espaço que hoje habitamos — 4

Carta de Luís Gomes de Carvalho dirigida ao príncipe, futuro D. João VI

A nova entrada da barra, mesmo sem obras que consolidassem o trabalho realizado por Luís Gomes de Carvalho, deixou antever uma ria limpa que purificasse os ares e evitasse epidemias devastadoras. Para além disso, com as tropas napoleónicas a provocarem estragos, a barra mostra a sua importância estratégica, ao permitir a entrada de trinta e oito navios, protegidos pelo brigue de guerra “Port Mahon”, que transportavam alimentos e forragens para o Exército Inglês que operava na zona e se dirigia para o Porto, como se lê em “Aveiro 2009 — Recordando Efemérides”, de João Gonçalves Gaspar.

O Galafanha fica para a história

Este meu blogue vai continuar no ciberespaço para memória futura. Poderá sempre ser consultado. A partir de hoje, passarei a estar apen...