quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A apanha do estrume

Uma estória do Ângelo Ribau 



O tempo estava na verdade melhor no dia seguinte, e, manhã cedo, lá fomos nós, o pai de gadanha e engaço ao ombro e o Toino com as duas varas, em direcção à bateira. 
O dia não era de chuva, mas a manhã estava fria. Notou-se logo ao meter os pés na lama para alcançar a bateira. Soltada esta do moirão aí vamos nós para o Esteiro do Oudinot. Salto para a margem com a cirga na mão, estico-a, ponho-a ao ombro, e vá de puxar a bateira. São dois quilómetros de extensão, contra a maré. Chegado ao fim é recolhida a cirga, entro para a bateira, pegamos nas varas e vá de atravessar a cale, sempre com muita atenção, não vá aparecer algum navio, que nos atrapalhe a manobra. Chegados ao fundão, vá de “paijar” com as varas como se fossem remos, dado que a cale era muito funda e as varas não atingiam o fundo. 
Passámos sem problemas e da outra banda voltámos a empurrar a bateira com as varas, até que chegámos à marinha; amarrámos a bateira e toca de começar a trabalhar. O pai do Toino a gadanhar o estrume e o Toino, sempre com o olho à viva (não fosse aparecer outra cobra), ia-o juntando e enfeixando na corda. Quando o molho estava com a quantidade suficiente era amarrado. O Pai puxava a corda de um lado e o Toino do outro, apertavam-no, davam um nó, o pai ajudava a pô-lo na cabeça do Toino, e aí vai ele correndo com o molho de estrume à cabeça, sempre a pensar nalguma cobra… 
Este serviço repetia-se vezes sem conta, até que a bateira estivesse carregada. 
Depois era o regresso pelo Esteiro do Oudinot, o carro dos bois à espera, o descarregar da bateira… 
Este serviço era executado dias sem conta, sempre que o tempo o permitisse, até que houvesse estrume suficiente, para as camas do gado durante o inverno, que aí vinha. 
O tempo ia piorando. O vento e as chuvas anunciavam o tempo que aí vinha, a chegada do inverno. Já havia dias de chuva, que permitiam ao Toino ler uns bons pedaços do livro que andava a ler, até ser “acordado” do sonho que a leitura lhe provocava, por ordens do pai que, dada a ordem, continuava na sua leitura: 
- Oh Toino, vai dar uma gabela de palha aos bois. 
Ou… 
- Dá uma gabela de erva à vaca. 

O Toino deixava a leitura e ia confirmar a ordem junto do pai, não que não tivesse ouvido bem, mas para confirmar qual o livro que o pai estava a ler. Punha o olho de lado, e lá ia cumprir a ordem. 
De regresso, ainda se atreveu: 
- Olha lá, oh pai, quantas vezes já leste esse livro? (era o Mártir do Gólgota) … 
- Não sei, mas gosto muito dele. Tem aqui uma personagem que me faz pensar: e continuou: era o cantor da Galileia, e ia fazer serenatas a Madalena, a pecadora. Chamava-se Boanerges. Se um dia tiver um neto gostava que lhe dessem esse nome… 
E lá continuavam, cada um com a sua leitura, até que da casa do forno se ouviu a vós da mãe: 
- Eh pessoal. Vamos à janta que o comer está na mesa… 



Forte da Barra: caldeira em dia de nevoeiro



Caldeira do Forte (foto do Ângelo Ribau)




Caldeira em manhã de nevoeiro. Aqui estacionavam as barcaças da JAPA, junto de  um estaleiro que procedia à sua reparação

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

“Casa Museu” de Manuel Serafim - séc.XX ao vivo!

Manuel Serafim mostra a sua casa-museu


Aceitando o convite do aluno e professor Manuel Serafim,  a turma de Comunicação e Fotografia, composta por 16 alunos, foi visitar a “Casa Museu”, antiga casa de habitação dos pais do maestro da Tuna da Universidade Sénior da Fundação Prior Sardo.

Quarto 


Deslumbramento é a palavra mais adequada ao que pudemos ver e sentir. Para Manuel Serafim, tudo isto começou há pouco mais de um ano, após a sua reforma como mecânico da Sociedade  de Pesca Miradouro (Friopesca).
Grafonola e outras peças de coleção

Com muitas peças que entretanto ia juntando e outras que existiam em casa de seus pais, entretanto desocupada (o pai era carpinteiro naval e a mãe dedicava-se à lavoura),  foi reconstruindo a habitação como se fosse um museu de determinada época e hoje, para quem, como nós, viveu estes tempos, foi um lembrar de recordações, desde os discos de vinil, o gira-disco, a grafonola, os rádios de válvulas com as antenas em fio de cobre, antigos instrumentos musicais, o fogão a lenha com a panela de três pés, não esquecendo os candeeiros a petróleo, os santos e os crucifixos nos quartos e até os livros de bolso da Europa-América!.


A música sempre presente

Astrolábios, estátuas de pedra feitas pelo próprio, coleção de azulejos antigos, peças de ferro e madeira trabalhadas à mão, potes para apanha do polvo revestidos de fosseis marinhos, utensílios de antigos navios da pesca, instrumentos de lavoura, medidas utilizadas para cereais, mós de moer cereais, arcas, relógios, instrumentos musicais, louça da VA, quartos de dormir e cozinha mobilados como se estivéssemos no inicio do Séc. XX, oficina com diversas máquinas de trabalhar metais e um estúdio musical onde todas as semanas se juntam amantes da música, a saborearem o que mais gostam de fazer, cantar e tocar! Tudo isto é iluminado com luz solar através de um painel solar!!!!!!!
Na despedida, Manuel Serafim dirige-se ao professor Carlos Duarte e diz: “Já me esquecia, tenho por aí diverso material e um ampliador onde em tempos revelava e ampliava fotografia; se quiser, qualquer dia posso lá ir falar disso, quer?”
Para ilustrar e “abrir o apetite” a quem queira visitar, na R. Gil Vicente, esta “Casa Museu”, seguem algumas fotos.

Carlos Duarte

sábado, 28 de janeiro de 2012

Gafanha da Nazaré: Da torre da igreja para norte





Cá estão mais imagens da Gafanha da Nazaré, registadas a partir da torre da igreja, para norte. Décadas as separam. Gentileza do Ângelo Ribau.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Gafanha da Nazaré: da torre da igreja para poente








Para recordar e para meditar. 60 anos separam as duas imagens. Gentileza do Ângelo Ribau, cuja paixão pela fotografia continua viva desde a sua juventude. E como  e quanto  aprendemos com ele e com as suas experiências!...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

DRAGANDO A RIA COM FAROL À VISTA


Dragando a Ria de Aveiro, junto às Portas d'Água, com Farol à vista. Pelas indicações que registei há tempos, sem me lembrar da fonte (imperdoável, reconheço), trata-se de uma imagem de 1920. Aceitam-se outras!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Versos de Vidal Oudinot: Caldeirada




CALDEIRADA

...   ...    ...   ...    ...   ...  
«– Disseram-me e eu creio ser verdade
Que tens um jeito para a caldeirada
Como ninguém e, como novidade,
Quem provar esse manjar de fada...»

«Ria-se, ria. Há-de lamber-lhe os dedos,
Há-de chorar por mais e não rirá...
«– Mas dize lá: como se faz...»
                                                 «Segredos!...
Muitos segredos qu'isso tem, verá... 

«Vamos. No rio há pouco vento agora.
Eu levo o meu rapaz, e no moliço
Bota-se a rede e é só puxar p'ra fora
Qu'é pescaria que já dá p’ra isso.

*

«Chegamos. Eh! rapaz de mil diabos
Tu lança a rede. Eu desenrolo-a e marco.
Bonda, Manuel, aí. Agarra os cabos...
Lance o senhor a vara e empurre o barco...

«Salte p'ra terra. Anda rapaz! T’aquenha!
E agora é só puxar. Vamos depressa.
Traze a marmita, a bilha d'água, a lenha,
Essa pimenta e o sal que não te esqueça.

*

«– Ricas enguias! Que tainha boa!
Linda manhã com este sol de Maio!
«Eh! Manuel andas c'a tola à toa!
Olh'esse barco qu'anda à rola, raio...

«Acende o lume enquanto amanho o peixe.
Cruze o senhor as varas... Nessa cruz
Pendure essa marmita. Agora deixe...
 Há-de fazer-se um jantarão de truz...

«É só temp'rá-Ia bem. Não ficam mal
Miga's de pão. É bom?»
                       – «Eu nem te conto!
Nunca, na vida, comi cousa igual!
Mais outra malga, meu Francisco...»
                                           «– Pronto.»

Na revista Aveiro e o seu Distrito, n.º 21, junho de 1976

GAFANHA DA NAZARÉ VISTA DA TORRE DA IGREJA






Fotos tiradas da torre da igreja. 60 anos as separam. Oferta do Ângelo Ribau.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Efeméride: um século de vida da igreja matriz da Gafanha da Nazaré

14 de Janeiro de 1912 
Igreja matriz

Bênção da nova igreja matriz da Gafanha da Nazaré 

Conforme lembra o Padre Resende, em artigo publicado no jornal O Ilhavense, em 1958, a nova matriz da Gafanha da Nazaré foi inaugurada em 14 de janeiro de 1912, «a cuja bênção» assistiu. Refere que é uma igreja «cheia de luz e digna do seu fim», tendo sido o resultado da «febre e gosto da autonomia». Porém, Nogueira Gonçalves informa, no seu “Inventário Artístico de Portugal”, que o novo templo foi inaugurada em 1918. Sabendo-se que a pedra de ara foi transferida da primeira matriz para a igreja em construção, é certo que a missa deixou de ser celebrada na Chave. Mas como o Padre Resende diz que assistiu à bênção naquela data, não podemos duvidar. As obras continuaram e é de supor que mais tarde tenha havido qualquer cerimónia tida como festa de inauguração. 
Entretanto, o Padre Resende não deixa de lamentar, no mesmo artigo, a demolição da primeira matriz, em 1916 ou 1917, «de forma tão vandálica e desnecessária», podendo servir hoje [1958] «para descongestionar a grande afluência dos fiéis, que frequentam em grande massa a igreja paroquial». 
Neste ano do centenário da inauguração da nossa igreja, importa sublinhar que durante um século o templo que hoje conhecemos passou por diversas obras de conservação e adaptação às novas necessidades paroquiais, tendo sido as mais recentes e mais significativas feitas sob a responsabilidade pelo Prior José Fidalgo. 
Voltando atrás, é justo recordar a visão dos nossos conterrâneos, liderados pelo Prior Sardo e por outro gafanhão, Manuel Ribau Novo, homem prático e muito respeitado pela população, que souberam escolher um lugar central da freguesia e mobilizar o povo para a participação ativa na construção, contribuindo com as suas dádivas e serviços. 

Pia batismal

Em entrevista que nos concedeu em 1971, João Fernandes Casqueira, mais conhecido por João Catraio, explicou: «A comissão da construção da igreja coletou os lavradores em 1000 réis por mês (valor de um par de sapatos ou de um leitão, à época), mas nem todos pagavam, como é natural, e alguns só davam o que lhes apetecia; outros não deram nada porque não concordavam que a igreja fosse construída neste lugar. Não viam que este era o local mais central.» E acrescentou: «Agora não se compreende a importância desse facto, mas não nos podemos esquecer que há 60 anos todos os caminhos que davam à igreja eram de areia e água no inverno, o que tornava difícil as deslocações.» 
No auto de revista da capela, em 30 de julho de 1910, necessária para o Bispo de Coimbra (Diocese a que pertencíamos) saber se havia condições para a criação da paróquia, dedicada a Nossa Senhora da Nazaré, «por ser essa a vontade dos novos paroquianos», foi referido que havia vasos sagrados e demais alfaias para o culto, bem como a pia batismal, «que é nova». 
Quando entramos na nossa igreja, olhamos sempre com ternura para a mesma pia batismal, porta de entrada na comunidade dos crentes pelo batismo. É, sem dúvida, um dos maiores símbolos que nos ligam aos nossos antepassados.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Livros que vale a pena ler e preservar




Há livros que vale a pena preservar, para memória futura. Sem ficarmos nostálgicos a olhar apenas para o passado, como sinal de gratidão por aquilo que herdámos de muito bom, importa construir um presente que tenha repercussões no futuro. Um desses livros, a que fiz referência aqui, é dos tais que precisam de ser lidos e guardados. Os que nos hão de suceder não deixarão de apreciar a forma como os nossos avós andavam pela laguna.

O Galafanha fica para a história

Este meu blogue vai continuar no ciberespaço para memória futura. Poderá sempre ser consultado. A partir de hoje, passarei a estar apen...