Dragando a Ria de Aveiro, junto às Portas d'Água, com Farol à vista. Pelas indicações que registei há tempos, sem me lembrar da fonte (imperdoável, reconheço), trata-se de uma imagem de 1920. Aceitam-se outras!
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Versos de Vidal Oudinot: Caldeirada
CALDEIRADA
... ... ...
... ... ...
«– Disseram-me e eu creio ser verdade
Que tens um jeito para a caldeirada
Como ninguém e, como novidade,
Quem provar esse manjar de fada...»
«Ria-se, ria. Há-de lamber-lhe os dedos,
Há-de chorar por mais e não rirá...
«– Mas dize lá: como se faz...»
«Segredos!...
Muitos segredos qu'isso tem, verá...
«Vamos. No rio há pouco vento agora.
Eu levo o meu rapaz, e no moliço
Bota-se a rede e é só puxar p'ra fora
Qu'é pescaria que já dá p’ra isso.
*
«Chegamos. Eh! rapaz de mil diabos
Tu lança a rede. Eu desenrolo-a e marco.
Bonda, Manuel, aí. Agarra os cabos...
Lance o senhor a vara e empurre o barco...
«Salte p'ra terra. Anda rapaz! T’aquenha!
E agora é só puxar. Vamos depressa.
Traze a marmita, a bilha d'água, a lenha,
Essa pimenta e o sal que não te esqueça.
*
«– Ricas enguias! Que tainha boa!
Linda manhã com este sol de Maio!
«Eh! Manuel andas c'a tola à toa!
Olh'esse barco qu'anda à rola, raio...
«Acende o lume enquanto amanho o peixe.
Cruze o senhor as varas... Nessa cruz
Pendure essa marmita. Agora deixe...
Há-de fazer-se um
jantarão de truz...
«É só temp'rá-Ia bem. Não ficam mal
Miga's de pão. É bom?»
– «Eu nem te conto!
Nunca, na vida, comi cousa igual!
Mais outra malga, meu Francisco...»
«–
Pronto.»
Na revista Aveiro e o seu Distrito, n.º 21, junho de 1976
sábado, 14 de janeiro de 2012
Efeméride: um século de vida da igreja matriz da Gafanha da Nazaré
14 de Janeiro de 1912
Igreja matriz
Bênção da nova igreja matriz da Gafanha da Nazaré
Conforme lembra o Padre Resende, em artigo publicado no jornal O Ilhavense, em 1958, a nova matriz da Gafanha da Nazaré foi inaugurada em 14 de janeiro de 1912, «a cuja bênção» assistiu. Refere que é uma igreja «cheia de luz e digna do seu fim», tendo sido o resultado da «febre e gosto da autonomia». Porém, Nogueira Gonçalves informa, no seu “Inventário Artístico de Portugal”, que o novo templo foi inaugurada em 1918. Sabendo-se que a pedra de ara foi transferida da primeira matriz para a igreja em construção, é certo que a missa deixou de ser celebrada na Chave. Mas como o Padre Resende diz que assistiu à bênção naquela data, não podemos duvidar. As obras continuaram e é de supor que mais tarde tenha havido qualquer cerimónia tida como festa de inauguração.
Entretanto, o Padre Resende não deixa de lamentar, no mesmo artigo, a demolição da primeira matriz, em 1916 ou 1917, «de forma tão vandálica e desnecessária», podendo servir hoje [1958] «para descongestionar a grande afluência dos fiéis, que frequentam em grande massa a igreja paroquial».
Neste ano do centenário da inauguração da nossa igreja, importa sublinhar que durante um século o templo que hoje conhecemos passou por diversas obras de conservação e adaptação às novas necessidades paroquiais, tendo sido as mais recentes e mais significativas feitas sob a responsabilidade pelo Prior José Fidalgo.
Voltando atrás, é justo recordar a visão dos nossos conterrâneos, liderados pelo Prior Sardo e por outro gafanhão, Manuel Ribau Novo, homem prático e muito respeitado pela população, que souberam escolher um lugar central da freguesia e mobilizar o povo para a participação ativa na construção, contribuindo com as suas dádivas e serviços.
Pia batismal
Em entrevista que nos concedeu em 1971, João Fernandes Casqueira, mais conhecido por João Catraio, explicou: «A comissão da construção da igreja coletou os lavradores em 1000 réis por mês (valor de um par de sapatos ou de um leitão, à época), mas nem todos pagavam, como é natural, e alguns só davam o que lhes apetecia; outros não deram nada porque não concordavam que a igreja fosse construída neste lugar. Não viam que este era o local mais central.» E acrescentou: «Agora não se compreende a importância desse facto, mas não nos podemos esquecer que há 60 anos todos os caminhos que davam à igreja eram de areia e água no inverno, o que tornava difícil as deslocações.»
No auto de revista da capela, em 30 de julho de 1910, necessária para o Bispo de Coimbra (Diocese a que pertencíamos) saber se havia condições para a criação da paróquia, dedicada a Nossa Senhora da Nazaré, «por ser essa a vontade dos novos paroquianos», foi referido que havia vasos sagrados e demais alfaias para o culto, bem como a pia batismal, «que é nova».
Quando entramos na nossa igreja, olhamos sempre com ternura para a mesma pia batismal, porta de entrada na comunidade dos crentes pelo batismo. É, sem dúvida, um dos maiores símbolos que nos ligam aos nossos antepassados.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Livros que vale a pena ler e preservar
Há livros que vale a pena preservar, para memória futura. Sem ficarmos nostálgicos a olhar apenas para o passado, como sinal de gratidão por aquilo que herdámos de muito bom, importa construir um presente que tenha repercussões no futuro. Um desses livros, a que fiz referência aqui, é dos tais que precisam de ser lidos e guardados. Os que nos hão de suceder não deixarão de apreciar a forma como os nossos avós andavam pela laguna.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
AS COSTUREIRAS DE CASA EM CASA
Já há muito tempo que o pronto a vestir se impôs na nossa sociedade e em muitas outras, conforme podemos confirmar nas reportagens que nos chegam de todo o mundo. Na minha meninice e juventude, porém, não era assim. As roupas de cama e de vestir, do dia a dia, de trabalho e de festa, eram confecionadas pelas e costureiras e pelas modistas. Estas últimas, costureiras mais finas, mais habilidosas e mais conhecedoras das modas que se iam impondo, tinham os seus ateliês e empregadas.
Muitas costureiras de há 60 anos andavam de casa em casa, ficando em cada uma o tempo combinado para fazer roupa nova, alterar o que pudesse ser alterado e remendar o que ainda pudesse servir. As roupas dos mais velhos eram adaptadas para os mais novos.
Os alfaiates não saíam de suas casas. Eram, na altura e até muito recente, os mestres, que desenhavam os fatos por medida. Cortavam as diferentes peças do casaco e faziam uma primeira prova no corpo de cliente, prendendo-as com alinhavos e alfinetes. Outras provas se seguiam até o trabalho ficar obra bem feita. Botões e outros pormenores ficavam para o final. De vez em quando havia complicações, com os botões deslocados em relação às casas, como aconteceu comigo no dia do meu casamento. Mas isso é outra história que fica para outro dia.
Ainda sobre as costureiras que andavam de casa e casa, é preciso dizer que a máquina de costura, de marca Singer, era transportada à cabeça (a mesa) ou num carro de mão pela pessoa que contratava a costureira. Esta levava, como coisa preciosa, a cabeça da máquina ao colo, bem segura com as duas mãos.
domingo, 8 de janeiro de 2012
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
A viagem foi muito dura e excecionalmente longa
Página de um Diário Náutico
Pelo Professor Doutor Fernando Magano
Barca Adília, navio português, mil cento e vinte toneladas, números redondos, dispondo de quatro embarcações miúdas, sem motor auxiliar, dezassete homens de equipagem, carregado de aduela.
Ano do Senhor de 1909: Derrota que, com favor de Deus, pretendo fazer este porto de Nova-Orleans para Lisboa, etc....
No diário de bordo, em certa página, menciona-se uma avaria de particular gravidade. A redacção da ocorrência é acompanhada de um singular e rápido desabafo, como de quem já vai rilhado de contratempos: «ainda faltava mais esta!»
Aparte as anotações incidentais, as páginas náuticas, daí por diante, não se lhe referem mais nem dão sinal de qualquer alarme. O diário segue como de costume.
Mas a viagem foi muita dura e excepcionalmente longa: sessenta e sete dias.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Quadras soltas
Costa Nova nada vale,
Aveiro vale um vintém;
Ílhavo vale um cruzado
p'las lindas moças que tem.
Ílhavo
Hei-de casar na Gafanha,
hei-de ser um gafanhão,
para vender as batatas
às meninas de Alqueidão.
Gafanha
No Cancioneiro
do Distrito,
Compilação
de M. Berta
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
O Concelho de Ílhavo visto por Amadeu Cachim em 1981
O Concelho de Ílhavo
Por Amadeu Eurípedes Cachim
Em 8 de Março de 1514, D. Manuel I concedeu foral ao Concelho de Ílhavo.
Embora pequeno, este concelho é um dos mais evoluídos, de mais elevado nível de vida e de maior densidade de população, do Distrito de Aveiro e encontra-se devidamente electrificado e dotado de uma extensa rede de distribuição de água, que atinge já todas as freguesias, bem como as praias da Barra e Costa Nova do Prado, mercê de um projecto apresentado pelo Município, o qual, em 1968 mereceu a aprovação e uma avultada comparticipação do Ministério das Obras Públicas.
Tem à volta de trinta mil habitantes, a maioria dos quais tem exercido a sua actividade nas fainas do mar, nos trabalhos da lavoura e nas lides domésticas.
Hoje, porém, graças ao grande desenvolvimento industrial, já muitos dos seus filhos encontram ocupação, tanto na parte administrativa como na parte técnica das muitas e variadas fábricas e oficinas, que têm sido construídas e postas a funcionar, tanto na Zona Industrial como em outros locais adequados.
Em todo o concelho nota-se também um enorme incremento urbanístico, com lindas vivendas edificadas por toda a parte, graças aos proventos auferidos pelos seus naturais, que desempenham as suas arriscadas funções nas várias modalidades da pesca, mas, principalmente, a bordo dos grandes arrastões, que vão laborar para zonas longínquas, como a Terra Nova, a África do Sul, a Noruega, a Mauritânia, etc., e ainda às remessas dos emigrantes, que, geralmente também em actividades ligadas ao mar, trabalham afincadamente, na América do Norte, no Canadá, na Alemanha, na Holanda, e na França.
O concelho é composto por quatro freguesias: Ílhavo, Gafanha da Nazaré, Gafanha da Encarnação e Gafanha do Carmo.
A sua sede – Ílhavo – é uma ridente vila, veleira e airosa, que fica situada a cinco quilómetros ao Sul da Cidade de Aveiro.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
PASSAGENS DE ANO DA MINHA INFÂNCIA
Confesso que não recordo nada de especial das passagens de ano da minha infância e juventude. A vida de há 60 anos nada tinha a ver com o consumismo dos tempos atuais. Havia pouco dinheiro no bolso do comum dos mortais e mesmo os mais abastados eram poupados. Talvez por serem, normalmente, de origem humilde. De modo que as festas que implicassem gastos um pouco mais elevados não gozavam da sua preferência. Recordo que a chamada ceia do Natal, essa sim, era sentida pelas famílias como algo de especial, não faltando, por isso, o bacalhau com todos e os tradicionais bilharacos e rabanadas, de mistura com nozes, figos passados e um ou outro doce fora do usual. A ceia tinha sempre como condimento obrigatório e esperado a conversa sobre as prendas do Menino Jesus, nanja do Pai Natal, figura que não encaixava nas famílias católicas, que eram, nas Gafanhas, a maioria, quando surgiu, muito depois, por interesses comerciais, como é sabido. Lembro que a revelação do segredo, de que o Menino não podia distribuir tanta prenda, era feita paulatinamente, sem dramas. Estou a ouvir a minha saudosa mãe a explicar, sorridente, enquanto mexia a massa de abóbora com ovos, farinha, açúcar e canela (não sei se está tudo), que o Menino Jesus, afinal, não podia distribuir os presentes, mas, mais do que isso, dava saúde ao nosso pai, que andava sobre as águas do mar, para ele ganhar dinheiro para prendas e para tudo o que fosse preciso. Ora, na passagem do ano, uma semana depois, repetia-se a ceia do Natal. E era também nessa altura que surgiam mais uns presentinhos, para alegrar alguns descontente com o que recebeu no dia de ceia Já rapaz, nunca saí de casa para festejar o Ano Novo. E quando adulto ousei experimentar foi noite estragada. Nunca gostei de barafundas. Só com a família, na traquilidade da minha casa, é que estou bem. E cada um que seja feliz à sua maneira. São o meus votos muito sinceros. Bom ano para todos. Fernando Martins
sábado, 24 de dezembro de 2011
Recordações da guerra colonial
MÃE, SIMPLESMENTE MÃE
Ângelo Ribau Teixeira
Ela era a mãe de um simples soldado. Vivia na sua terra, só,
pois o marido tinha falecido havia uns tempos. Era pescador numa traineira
da pesca da sardinha. Um dia, ao entrar na barra, a traineira bateu contra o
molhe e afundou-se, tendo falecido grande parte da tripulação. O intenso
nevoeiro que se fazia sentir, a falta de radar que, naquela altura, ainda não
estava instalado na embarcação, bem como o facto de a pesca ter sido muito boa, com sardinha da proa à ré, "pesada", como se dizia da gíria, terão contribuído para o desastre.
Recebi a notícia por um jornal que vinha a embrulhar uma
encomenda de um companheiro de guerras.
Conhecia a maior parte dos tripulantes, alguns meus colegas
de escola, outros desconhecidos e pessoas mais velhas, onde reconheci o pai do
tal soldado, que se encontrava no Leste de Angola. Perguntei à minha mulher como
tinha reagido aquela mãe, viúva e com o filho longe… sem mais ninguém…
— Mal, muito mal; Anda aí pela rua gritando, respondeu.
E acrescentou:
— O mar levou-me o marido; os “outros”, o meu filho. Malvados!
Era mais uma mãe. Simplesmente uma mãe só no mundo. Como
tantas naquele tempo.
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O Galafanha fica para a história
Este meu blogue vai continuar no ciberespaço para memória futura. Poderá sempre ser consultado. A partir de hoje, passarei a estar apen...












