Ler aqui o texto "O gafanhão e a areia", de Joaquim Matias. Um texto bonito publicado na revista "Arquivo do Distrito de Aveiro".
quarta-feira, 22 de junho de 2011
domingo, 19 de junho de 2011
Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 26
Ai que lindo casamento
Passou ali ao cruzeiro! ...
— Era noivo o Rio Vouga,
E noiva, a Ria de Aveiro.
Pelas noites de luar
Ou ao sol de um claro dia,
Que lindo um barco a vogar
Nas águas mansas da Ria!
Para te evocar, Aveiro,
Mais a quem em ti se cria,
Basta um barco moliceiro
Da tua esplêndida Ria!
Reinaldo Matos
“Sinfonia de poemas de Reinaldo Matos — 25 anos de poesia”
quinta-feira, 16 de junho de 2011
O velho Arrais vivia do passado como quem vive dum sonho
Arrais Gabriel Ançã
O Arrais Gabriel Ançã
Pelo Dr. Frederico de Moura
Eu estou a vê-lo. Tenho-o guardado na retina desde a infância – desde a infância que, como coisa nenhuma, sabe guardar retratos pelos tempos fora, envolvê-los em névoa de sonho e cercá-los de um nimbo de ternura humana. Mas, de vê-lo a exprimi-lo, de tê-lo a comunicá-lo, vai uma distância que a minha pobre pena não vence e que a minha palavra não consegue percorrer antes da laringe me ficar afónica.
A bruma da distância, é certa, vincou-lhe mais as sombras, marcou-lhe mais os traços, deixou-o mais descarnado de fundos diluentes, com as proeminências e os ângulos mais pontiagudos. A visão da adolescência enriqueceu-lhe a figura tisnada e rude de um bafo quente de humanidade e de uma legenda brônzea de heroísmo. Mas foi tal o respeito que a sua figura me transmitiu que, agora, até tenha medo de lhe tocar para a trazer para aqui.
terça-feira, 14 de junho de 2011
Gafanha da Nazaré: Padres ordenados durante um século
Durante um século, a Gafanha da Nazaré ofereceu à Igreja 22 presbíteros, cujos nomes deixamos à nossa reflexão. Muitos deles cruzaram-se connosco nos caminhos da vida. Ter-nos-ão dirigido a palavra e de alguns teremos recebido conselhos amigos. Sabemos da sua entrega a Deus e à Igreja e do esforço de todos por uma sociedade mais humana e mais fraterna.
Cada um deles merece, sem dúvida, uma referência mais alargada, que ficará para mais tarde.
João Ferreira Sardo (n. 01-09-1873, ord. 30-07-1898, + 20-12-1925)
António da Silva Caçoilo (n. 24-08-1880, ord. 04-11-1906, + 06-11-1948)
José Maria da Silva (n.?, ord. 1911, +23-04-1955)
José Maria Ribau (n. 19-11-1892, ord. 1914, +31-08-1954)
Diamantino Ribau (n. 1906, ord. 04-04-1931, + 01-02-1933)
João Maria Carlos (n. 03-10-1900, ord. 11-03-1933, + 06-09-1957)
José Maria Carlos (n. 12-01-1904, ord. 11-03-1933, +20-02-1972)
Manuel Maria Carlos (n. 01-05-1911, ord. 06-04-1935, + 12-06-2004)
Artur Ferreira Sardo (n. 21-03-1912, ord. 30-07-1944, + 11-12-2000)
Manuel Ribau Lopes Lé (n. 04-08-1922, ord. 30-09-1947, + 25-05-2010)
Alexandre Vilarinho das Neves (n. 23-04-1928, ord. 29-06-1953, + 07-02-2004)
José Rodrigues Pereira (n. 08-10-1919, ord. 29-06-1950, + 19-07-1997)
José Caçoilo Fidalgo (n. 06-12-1938, ord. 29-12-1963)
Carlos Manuel Ramos Belo (n. 25-12-1940, ord. 25-07-1965, + ?)
Jeremias Carlos Vechina (n. 21-11-1938, ord. 11-09-1966)
José Carlos Vechina (n. 14-10-1942, ord. 08-09-1969)
Júlio da Rocha Rodrigues (n. 04-02-1935, ord. 15-08-1970)
Silvino Teixeira Filipe (n. 19-01-1954, ord. 27-09-1981)
Vítor Manuel Nunes Espadilha (n. 06-04-1959, ord. 15-08-1985)
Constantino do Espírito Santo (n. ?, ord. 03-08-1986)
Paulo Manuel Teixeira Gandarinho (n. 03-09-1961, ord. 10-05-1987)
Carlos Alberto Pereira de Sousa (n. 28-03-1960, ord. 29-06-1996)
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Capela de São João da Praia da Barra
Capela de São João
Autos de revista da Capela
de São João Baptista da Praia da Barra
1880, Junho, 15:
Autos de revista da Capela de São João Baptista mandada construir nas areias da Barra por João Pedro Soares, natural da freguesia da Senhora da Glória de Aveiro
Ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e oitenta aos quinze dias de Junho, nesta Câmara Episcopal de Aveiro, a petição que a diante faço termo, eu José Pereira de Carvalho a escrevi a assino. Ass
João Pedro Soares morador nesta freguesia de Nossa Senhora da Glória de Aveiro, por sua particular devoção para com São João Baptista mandou construir uma Capela em terreno seu nas areias da Barra de Aveiro, freguesia de São Salvador de Ílhavo; e por que muito desejo que se celebre nela o santo sacrificio vem requerer a V. Ex.a se digne conder licença para benção da dita Capela que tem o ornato necessário, com V. Exd.a pode mandar averiguar por que julgar conveniente, ficando capela de uso público. Pede deferimento.
Auto de revista
Em cumprimento da ordem de V. Ex.a constante do mandado junto, fui às areias da Barra, e aí unida a uma morada de casas mandadas construir pelo requerente João Pedro Soares, encontrei uma Capela que pretendem denominar de São João Baptista do banho santo, mandada construir pelo mesmo proprietário em terreno seu e a expensas suas, cuja Capela alinha com as ditas casas e está dentro do quintal das mesmas, com a porta principal para o areal em frente do mar e é de fácil acesso às pessoas que ali vão tomar banhos por ficar próxima da praia; tem uma porta travessa para o aido das casas. Tem a dita Capela de comprimento interior 4,5 m por 3 m de largo. O altar tem 2 m e a tribuna acima do altar 2,5 m; está soalhada, rebocada e forrada, pintado de branco o forro, altar e tribuna, tem banqueta de quatro castiçais e cruz com imagem, de madeira pintada a branco e amarelo e pedra de ara vinda do extinto Convento de Santo António da cidade de Aveiro; nãop tem sacristia nem credencias, mas lugar para estas se está a fazer. Tem um cálice com sua patena e colher de prata dourada, um sanguineo, duas bolsas de corporais, uma branca outra encarnada de damasco, uns corporais duplicados de linho, dois véus de cálice de seda, um branco outro encarnado, uma alva, amito e cordão de linho, três casulas com manípulos e estolas tudo de damasco, branco, encarnado e branco e encarnado, um manustérgio, um prato de estanho com duas galhetas de vidro, um missal impresso em Lisboa em 1860 e sua estante de pau-preto, tudo em muito bom uso. e isto achei no exame a que procedi, e não achei faltas que mereçam notar-se parecendo-me estar no caso de breve se poder benzer.
Ílhavo, 19 de Junho de 1880
O prior, João André Dias
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 25
Belezas da nossa terra
Tão linda a nossa ria, esta laguna;
É um perfeito lago adormecido!
Não há, por mais encantos que reúna,
Melhor que o nosso Vouga apetecido.
Distingo o casario além na serra…
Se olhar p’rá Costa Nova é um altar!
A bênção do Senhor cai sobre a Terra
Que mais tens, Natureza, p’ra nos dar?
As águas cristalinas e mansinhas,
A Gafanha a sorrir, casas branquinhas!
Que inefável pureza, Santo Deus!
Belezas que se gravam na retina
Encantos duma hora matutina
Que eu passo a meditar, olhando os céus!
Silva Peixe
“Aveiro: Princesa do Vouga”
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 24
Salina
«As casas cobriam-se de colmo, talvez da própria bajunça com que das chuvas dos Invernos se protegiam os cónicos montes de sal. Cobriam-se do colmo que nascia, espontâneo e abundante, nos terrenos alagadiços recém-formados. Só com o andar dos tempos, a incipiente capacidade artesanal – já que seria pretenciosa impropriedade empregarem relação a essas remotas épocas termo tão dos nossos usos como que é a tecnologia – aproveitaria o barro do ao redor da moradia rústica para produzir a malga do caldo e a telha. Só com esta colocaria a primeira nota avermelhada no ambiente onde dominavam os tons verdes, de larga gama, tenros ou secos, e tão só se evidenciava nos róseos arrebóis ou nos escarlates dos poentes – esses mais remotos que a Pelagia Insula que se tem visto coincidir com o advento da formação lacustre que, centúrias de anos após, tomou o nome de Ria de Aveiro. E adoptou esse crisma da Ria, que é legenda dos nosso cartazes, espelho do nosso narcisismo bairrista e nosso «slogan» sintético para proclamação de divulgadoras aliciações, e satisfez a nossa ufania glóssica para a designação e fixação nas retentivas, nossas e alheias, dessa primacial fonte de beleza e riqueza.
E pouco importa se, por analogia não muito rigorosa com outros complexos aparelhos hidráulicos naturais, que não estamos obrigados, cidadãos comuns, aveirenses-homens da rua a acompanhar os geógrafos que velam pela austera e estrita propriedade terminológica da sua ciência.
O sentido estético da linguagem e a consagração do uso sobejariam para uma adopção perene e inalienável, e para uma cabal justificação semântica. E uma coisa são os cientistas com seus rigores e definições, e outra nós, que, se não fizemos, baptizámos, e deste costume e gosto, e espírito afectivo de família de dizer Ria de Aveiro, não abdicamos. Seria como que uma abjuração. Raul Proença o notava uma vez a um dos mais ilustres e prestantes aveirenses deste nosso século.»
Eduardo Cerqueira
"Aveiro e o seu Distrito", n.º 13, 1972
sábado, 28 de maio de 2011
Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 23
É um momento solene.
Aí para baixo é a ria de Aveiro
«É um momento solene. Aí para baixo é a ria de Aveiro, quarenta quilómetros de costa, vinte quilómetros para o interior, terra firme e água rodeando, todas as formas que podem ter as ilhas, os istmos, as penínsulas, todas as cores que podem ter o rio e o mar. O viajante fez bem as suas orações: não há vento, a luz é perfeita, as infinitas águas da ria são um imóvel lago. Este é o reino do Vouga, mas não há-de o viajante esquecer as ajudas da arraia-miúda dos rios, ribeiras e ribeirinhos que das vertentes das serras da Freita, de Arestal e do Caramulo avançam para o mar, alguns condescendendo afluir ao Vouga, outros abrindo o seu próprio caminho e encontrando sítio para desaguar na ria por conta própria. Digam-se os nomes de alguns, de norte para sul, acompanhando o leque desta mão de água: Antuã, Ínsua, Caima, Mau, Alfusqueiro, Águeda, Cértima, Levira, Boco, fora os que só têm nome para quem vive à borda deles e os conhece de nascença. Se este tempo fosse de estivais lazeres, estariam as estradas em aflição de trânsito, as praias em ânsia de banhos, e nas águas não faltariam as embarcações de folguedo mecânico ou à vela. Mas este dia, mesmo de tão formoso sol e e tão aberto céu, é de alto Inverno, nem sequer está a Primavera em seus primeiros ares. O viajante, pelo menos assim quer acreditar, é o único habitante da ria, além dos seus naturais, homens e bichos da água e da terra. Por isso (todo o bem há-de ter sua sombra) estão as salinas desertas, os moliceiros encalhados, os mercantéis ausentes. Resta a grande laguna e a sua silenciosa respiração azul. Mas aquilo que o viajante não pode ver, imagina, que também para isso viaja. A ria, hoje, tem um nome que bem lhe quadra: chama-se solidão, fala com o viajante, ininterruptamente fala, conversas de água e limosas algas, peixes que param entre duas águas, sob a reverberação da superfície. O viajante sabe que está a querer exprimir o inexprimível, que nenhumas palavras serão capazes de dizer o que uma gota de água é, quanto menos este corpo vivo que liga a terra e o mar como um enorme coração. O viajante levantou os olhos e viu uma gaivota desgarrada. Ela conhece a ria. Vê-a do alto, risca com as pendentes patas a polida face, mergulha entre o moliço e os peixes. É caçadora, navegante, exploradora. Vive ali, é ao mesmo tempo gaivota e laguna, como laguna é este barco, este homem, este céu, esta profunda comoção que aceita calar-se.»
José Saramago
“Viagem a Portugal”, 1981
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 22
Safra da marinha
«É certo que de cada popa se vê um Portugal diferente, conforme a latitude: verde e gaiteiro em cima, salino e moliceiro no meio, maneirinho e a rilhar alfarroba ao fundo. Camponeses de branqueta e soeste a apanhar sargaço na Apúlia, marnotos a arquitectar brancura em Aveiro, saloios a hortelar em Caneças, ganhões de pelico a lavrar em Odemira, árabes a apanhar figos em Loulé. Metendo o barco pela terra dentro, é mesmo possível ir mais além. Assistir, em Gaia, à chegada do Doiro, ver transformar em húmus as dunas da Gafanha, ter miragens nos campos de Coimbra…»
Miguel Torga
Miguel Torga
“Portugal”
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 21
Miguel Torga:
Aveiro, 9 de junho de 1974 - A caminho da Costa Nova, com a sensação de que os barcos navegam no meio dos milheirais.
terça-feira, 24 de maio de 2011
Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 20
Eça de Queirós
… Filho de Aveiro, educado na Costa Nova, quase peixe da ria, eu não preciso que mandem ao meu encontro caleches e barcaças. Eu sei ir por meu próprio pé ao velho e conhecido «palheiro de José Estêvão».
Eça de Queirós, “Carta a Oliveira Martins”, 1884
… a Costa Nova — e eu considero esse um dos mais deliciosos pontos do globo. É verdade que estávamos lá em grande alegria e no excelente chalé Magalhães.
Eça de Queirós, “Entre os Seus, Cartas Íntimas”, 15 de Julho de 1893
Apesar de ter retardado ontem o meu jantar até às nove da noite, não pude desbastar a minha montanha de prosa. Levar as provas para os areais da Costa Nova, não é prático — ó homem prático! Há lá decerto a brisa, a vaga, a duna, o infinito e a sardinha — coisas essenciais para a inspiração — mas falta-me essa outra condição suprema: um quarto isolado com uma mesa de pinho.
“Carta a Oliveira Martins”, 1884
domingo, 22 de maio de 2011
Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 19
Saudades de mim, menino
Ai barcos, ai barcos
Triste é vosso negror,
Por onde ides navegar?
Que espreitais (?),
Pelo olho que levais na proa.
Ai amores, ai amores
Da ria amada,
Ai amores de verde pino…
Ai saudades de mim, menino,
Levai-me no vosso vagar.
Senos da Fonseca
“Marés”
sábado, 21 de maio de 2011
Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 18
Palheiro de José Estêvão
Destes ocasos d’oiro e deste cerúleo mar,
Desta mesma risonha e plácida paisagem,
Quantas vezes, meu Pai, a luminosa imagem
Se reflectiu no teu embevecido olhar!
Era aqui, nesta paz, que vinhas descansar,
Refazer, para a luta, as forças e a coragem,
Vendo a planície verde ao fundo e, sob a aragem,
Brancas, no azul da Ria, as velas deslizar…
Por isso o coração aqui me prende assim!
E, da saudade, quando, ao remorder acerbo,
Tua figura evoco e ressuscito em mim,
Vejo-te errar na praia — emocionado engano! —
Buscando a inspiração do teu ardente verbo
No esplendor do Infinito e o tumultuar do Oceano!
Luís de Magalhães
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 17
«A Ria entende-se em canais, em esteiros, em valas, em fiozinhos de água, dividindo-se e subdividindo-se até ao capilar, entrando pela terra dentro, recortando-a e irrigando-a de água salgada, ou, pelo menos, salobra, e que se vai adocicando à medida que foge do mar e se estende, por aí fora, a servir de espelho a uma lavoura anfíbia que lança a semente ao chão e penteia o fundo lodoso das cales, que surriba terra até sentir os pés encharcados e pesca pimpões nas valas intercalares nos fugidios momentos de lazer.
Os longes de água são emoldurados por um debrum delgadinho – topo de planície raso povoada de casas alapadas – e tem-se a sugestão de que a terra se envergonha e se humilha perante a imensidade da laguna, esfumando-se e diluindo-se no horizonte de encontro ao perfil violeta dos montes das distância...
Em certas manhãs, doiradas pelo sol nascente, a Ria parece toda um espelho onde, apenas, um trémulo de evaporação – ténue e vibrátil – põe um vestígio de movimento ritmado.
E, então, os malhadais, os montes de sal, os palheiros exíguos e pintados a zarcão, duplicam-se, invertidos, nas águas quietas onde, de vez em quando, uma gaivota, maleabilíssima e ágil, raspa uma tangente quase imperceptível.
As pálpebras cerram-se sobre a pupila magoada por esta duplicação da luz que se remira no espelho da água e, no silêncio inundado de sol, o chap chap de uns remos, ou o golpe da ponta de uma vara que empurram o barco que desliza, põem uma nota fugidia de onomatopeia.
Um homem de músculos individualizados – como num quadro mural de anatomia – corre sobre a borda de uma bateira mercantel como se andasse sobre o asfalto de uma avenida. Visto de longe, recortado na luz diáfana da manhã que lhe aviva as linhas e delimita os contornos, não sabe a gente se tem na frente um ginasta, se um bailarino. Os pés parece que não pisam e os movimentos de vaivém, desembaraçados e leves, semelham passos coreográficos.»
Frederico de Moura
"Aveiro e o seu Distrito", n.º 5, junho de 1968
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 16
A Ria de Aveiro
Deixem-me ir hoje, no meu rico vagar, pela estrada que de Aveiro vai ter à Barra.
A começar nas Pirâmides.
Mas antes de lançar pés à suavíssima marcha, esperemos que avance e que passe uma vela que se mostrou ao longe, vinda certamente com pescaria miúda das costas de São Jacinto em demanda do nosso canal.
Já se distinguem perfeitamente os clássicos e variados remendos do pano: um xadrez, meus amigos, um verdadeiro xadrez!
À escota vem um marnoto de idade, de ceroilas curtas, nem chegam aos joelhos: de camisola azul ferrete, grossa como uma tábua, grossa como um cortiço, aberta à boca do peito; de carapuço de lã na cabeça, com a ponta derrubada para a nuca e terminada por uma bolinha.
— Linda manobra, sim senhora, linda manobra.
— Pois c’anté! — responde o velho, descobrindo a venerável cabeça.
A estrada não é muito larga nem dá muitas voltas para chegar ao seu aprazível e benfazejo destino: mas de ambos os lados tem uma renda finíssima de tamargueiras que mergulham os troncos na água e que se vêem surgir na maré-baixa, de entre os calhaus arroxados e humedecidos da margem.
Nestas alturas, não há remédio senão poisar a pena durante um momento e coçar a cabeça!
Olha-se para um lado: água, muita água, brisas, espumas, velas, barcos, moinhos, areia e sol!
Olha-se para o outro lado: tabuleiros de cristal, montinhos brancos expostos ao tempo, marinhas, marnotos e salineiras, a planície, a imensidade, e no fundo, no extremo horizonte, a sombra quase imperceptível, a divina moldura dos pinheirais!
Olha-se para trás: a cidade: Alto! Ali não se distingue, ali não se aponta para nada: é a cidade, é Aveiro!
Nestas doces ocupações do espírito vai-se chegando, sem dar por ela, à ponte da Gafanha. Dizem que é uma ponte velha, feia, indigna dos nossos tempos; mas eu, se fosse milionário, comprava a peso de oiro a consolação de sentir neste momento debaixo dos pés as pranchas carcomidas do seu tabuleiro.
Agora começam casinhas baixas à beira da rua e, na areia amoliçada, semeadura às mãos cheias: milho, feijão, batata, abóboras, pinheiros!
Eram dez horas da manhã de 20 de Julho de 1909. Que estava eu a fazer em casa, taciturno, pasmado?! Fugi para aqui, vim passar a minha agonia para estas areias onde a Providência não me negaria com certeza o seu anjo de consolação! A Barra! O Forte! A Ronca! A Capela!
Eu já disse Missa naquela ermida. A meio da Missa ateou-se um ramo seco que deitou uma chama enorme; e um doido manso que estava presente, o Julinho de Esgueira, exclamou aterrado no meio da assembleia:
— Ai Portugal, que te vais à vela!
D. João Evangelista de Lima Vidal,
em “Aveiro: Suas Gentes, Terras e Costumes”, pág.125
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