terça-feira, 10 de maio de 2011

Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 14





RIA DE AVEIRO

Na ria de Aveiro
Quero um pequenino
Barco moliceiro.
Também sou menino.

Na ria de Aveiro
Podeis vir comigo,
Barco moliceiro
Nunca tem perigo.

Nunca se naufraga
Na ria inocente:
Da crista da vaga
Vêm braços à gente.

Quer vão ao moliço,
Quer soltem as redes,
O mar é submisso
Aos barcos que vedes.

Brancas, amarelas,
Na ria de Aveiro
Se espalham as velas:
Brinquedo ligeiro.

Também sou menino,
Ó moças de Aveiro!
Dai-me um pequenino
Barco moliceiro.

RIBEIRO COUTO
1944

Ribeiro Couto (1898-1963) terá passado por Aveiro em 1944 – pelo menos é essa a data do seu poema –, onde se deixou cativar pela graça quase alada dos barcos moliceiros. Caso Curioso, na mesma época estabeleceria relações de Índole literária com Mário Sacramento.

“Aveiro e o seu Distrito”, n.º 20, Dezembro de 1975

Aprender a ler na Gafanha


É ponto assente que muitos dos primitivos povoadores da Gafanha eram, academicamente falando, analfabetos ou semianalfabetos. Teriam a cultura da experiência feita, do contacto com os familiares e amigos e do pequeno mundo que limitava os seus horizontes. Escolas não havia. Alguns padres preparavam os candidatos ao sacerdócio, sendo garantido e normal que um ou outro aluno derivasse para outras áreas do saber.
Do testemunho oral que colhi, do meu privilegiado interlocutor, João Catraio, à hora da sesta, no Verão, ou ao serão, no Inverno, os jovens de qualquer idade aprendiam a ler, escrever e fazer contas com mestres, sem estudos para além do essencial, colhidos talvez da mesma forma que agora seguiam.
Na época das colheitas, os pais ou os próprios alunos pagavam aos senhores mestres com géneros, da melhor maneira que podiam. Uns mais do que outros, conforme as posses. 

Fernando Martins

Fonte: "Gafanha da Nazaré: 100 anos de vida"

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Migalhas de boroa para sopas de café

Migalhas

«Conheci um padeiro que distribuía o pão de bicicleta, num cesto de duas abas, pendentes no porta-bagagem. Um dia recusou vender pão, só porque o filho da casa, ingenuamente, o informou de que a mãe tinha duas caixas de milho. 
Um amigo, que costumava comprar boroa na sua padaria, na Barra, quando chegou a sua vez, deparou-se com um dilema. A boroa estava esgotada e o meu amigo, mais velho do que eu uns anitos, viu-se obrigado a comprar as migalhas que restavam na bancada de mármore. Questionado por mim para que serviam as migalhas, que havia pago como se fossem um pedaço de boroa, limitou-se a dizer-me que se destinavam a sopas de café.»

Nota: Esta estória aconteceu no tempo da Segunda Grande Guerra

Fernando Martins

Do livro "Gafanha da Nazaré: 100 anos de vida"

sábado, 7 de maio de 2011

Uma estória que não pode ficar esquecida



O Búzio 

«Tão pobrezinha [a primeira capela] que estava desprovida de torre, ou simples campanário, e de sinos. 
Sem campanário, sem sinos… Como remediar a falta? Como convocar os fiéis para a santa Missa, para o exercício do culto divino? 
Tem o seu quê de regional e de poético a maneira como remediaram a falta e como convocavam os fiéis ao templo. No dealbar do dia, ou à tarde ao mergulhar suave e majestoso do sol nas águas do Oceano, conforme a convocação se fizesse para o Santo Sacrifício ou para as orações da manhã ou da noite, um repolhudo gafanhão, improvisado de sacrista, dirigia-se para o templozinho cheio de misticismo, descalço, de cuecas a cair sobre a rótula, cingidas pelo cós com um só botão às ancas espadaúdas. De barrete pendente sobre as orelhas, contas ao pescoço sobre a baeta da camisola, e de gabão velho, esburacado, deixava fustigar pelo vento da madrugada as canelas magras e nuas. 
Este bom e anafado gafanhão, ia eu dizendo, assim descrito, tal qual era na primitiva Gafanha, soprava desesperadamente num enorme búzio, cujos sons cavos, profundos e compassados, iam quebrar-se de encontro às cordilheiras solitárias e silenciosas das dunas, ou espraiar-se pela argentínea superfície do oceano infindo. 
E daquele rosto, congestionado e entumecido pelo esforço pulmonar, emergiam uns olhos a saltar das órbitas, a completar um quadro que bem lembrava Neptuno, na solidão das águas, a tirar da enroscada concha vozes cavernosas, a fazer sair dos abismos e das ondas toda a caterva de malignos tritões, a chamar os deuses marinhos para o diabólico conciliábulo de algumas desgraças, ou de alguma tragédia marítima.» 


João Vieira Resende, 

In MG 

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 13


TORREIRA

Eu não gosto de exageros de espécie nenhuma, embora ache às vezes graça a certas palavras grandíloquas, altissonantes, ou a certas imagens ou panoramas vistos à lente de aumento, sem cerimónia coloridos, hipertrofiados, com que nós, na febre do entusiasmo, pretendemos pôr em relevo a beleza que nos fascina ou a admiração que acima de nós e da nossa pequena medida nos ergue. Também a hipérbole pode servir para, feitos os devidos descontos, ficarem as coisas no seu quadro justo.
 Nesta ordem de ideias é que eu não receio de dizer que, de todas as terras que eu conheço no mundo, sem falar de Aveiro, porque afinal de um aspecto de Aveiro se trata, outra não há que tenha um encanto, uma magia de águas, de sons, de ruídos, uma luz tão doce, um sol tão límpido, um céu tão transparente, tão meigo, como tem a Torreira. Das terras que não conheço, se alguém me disser que há alguma em qualquer parte mais linda do que a Torreira, tenham paciência, eu não acredito.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 12



«Mas a ria enche-se de asas brancas, garças reais que coalham o azul, além sobre a barra, onde a névoa fumega indecisa e lenta, e do outro lado, sobre Pardelhas, Estarreja, até Ovar bolinando ao vento.
É uma verdadeira esquadra, embandeirada em festa, porque hoje é dia de São Paio, na Torreira. Cada barco traz a sua povoação, a sua aldeia, a sua canção, as suas guitarras e adufes. A ria torna-se melodiosa, e sussurra, vibrante nas suas ondas de água, finas como cabelos de mulher, que os ventos represados percutem como uma arcada de violino. Durante muito tempo embala-nos aquela música aquática, dolente e enlanguescedora. As tonalidades mudam. Já não há azul. Os longes tornaram-se brumosos, e a água oleosa, baça, não tem uma vaga, uma crispação. Dir-se-ia um lago imobilizado por um silêncio astral. Um cinzento de agonia envolve esta paisagem de além mundo, prostrada na morte, se o sol não acordar antes da tarde.

Mas, sobre a Torreira, estralejam os primeiros foguetes da festa, com os seus balões brancos que, num jeito de pára-quedas, ficam a pairar no céu, e as canções dos barcos, que já não se ouviam, volta a ecoar numa harmonia de alaúde, sonambúlicas na sua tristeza de ladainha. Nem no dia de hoje o homem deixou a faina da ria. Ainda tem tempo para ir à sua casa lacustre trocar os farrapos curtidos de salmoura pela véstia negra de festa. À tona d'água vogam os moliceiros, de amura baixa, velas brancas, quadradas muito, altas sobre o mastro, a proa subida e recurvada como o pescoço dum cisne, voltado para trás. O seu galbo esbelto, de fina estrutura náutica, que alguns dizem herdado dos Fenícios, mas que seria mais exacto, talvez, atribuir às embarcações dos Vikings, é uma curva alada, quase imponderável, que não fende as águas, antes desliza desposando as suas formas líquidas, numa subtil perfeição de equilíbrio.

Cada um ostenta à proa, num ingénuo painel pintado de cores álacres, numa rusticidade de ícone, a que não falta o fundo de oiro, um rei coroado, de sumptuoso manto de arminhos, com todos os atributos de majestade. É modelo antigo que a tradição mantém ainda. Mas há variantes. A mais vulgar é um par de noivos com grande legenda de graciosa malícia, que o artista assina.
Dois homens, um à vara e outro ao moliço, este último com dois ancinhos, verdadeiras cravelhas de guitarra que vão rapando o fundo da ria e são levantados, alternadamente, constituem toda a sua tripulação. Há dezenas, centenas, todos do mesmo tipo, variando, apenas, na pintura da quilha, por vezes recortada da «falca», em largas bandas horizontais, onde o negro é constante, orlando dum almagre que criou ferrugem de oiro.

Mas a ria enche-se, mais e mais, de velas brancas. Parecem as núpcias do mar, que vêm de longe, de Aveiro, no seu labirinto de esteiros, vales e canais, aqui alargando, em golfos de contornada parábola, além mais impetuoso e extenso, quase sem limites terrestres, carreando peixe ou criando-o no seu fundo rico de plâncton.»

O São Paio da Torreira, a Romaria dos Pescadores 

 de Artur Portela 

Fonte: "Aveiro e o seu Distrito", n.º 12, 1971

sábado, 23 de abril de 2011

Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 11

Moliceiro na Bestida


«No velho pontão da Bestida, que as invernias todos os anos despedaçam, dir-se-ia que Portugal acaba. Portugal e a terra na sua solidez física, nos seus costumes mais vulgares, e até nalguns dos elementos mais primordiais da sua vida. É outro mundo, líquido, brumoso, feito de distância azul, isolado do continente por uma ria maravilhosa, paleta de mil cores, tão larga que cabe nela o Tejo, nos seus dois quilómetros de água tranquila e adormecida. Fecham-se atrás de nós, como sob o pano de uma ribalta, as terras ribeirinhas da Murtosa, e de Bunheiro, entre pâmpanos virentes, muito tufados, milheirais extensos que ondeiam as suas bandeiras doiradas, pomares cerrados, onde os ramos já nos estendem os frutos maduros, corados de sol, que fendem a casca, pejados de sumo.

Uma fotosfera prateada envolve a ria que vem do Furadouro, lá longe, para nascente, recortada de canais, hérnias líquidas daquele ventre de água, extraordinariamente fecundo que se desentranha em admiráveis espécies piscatórias que, por vezes, como a carnuda tainha, se vêem saltar à superfície cristalina, tão límpida que se enxerga o seu fundo doirado de areia, manchado duma verdura submarina, o moliço, com que a dez léguas em redor se adubam as leiras.

A visão da paisagem, na sua penumbra sobrenatural, ascende em sonho na visão extática de lirismo. Não há uma cor violenta, naquela paleta aquática, mas tons, sobre tons, prateados e violetas, tão etéreos e fugitivos, que parecem pintados numa laca japonesa, pelo pincel dum Outamarco ou dum Fujita.»

de Artur PorteIa

Fonte: "Aveiro e o seu Distrito", n.º 12, 1971

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Aveirenses ilustres: Jaime de Magalhães Lima




(Clicar nas imagens para ampliar)

Fonte: "Ilustração Moderna", 1.º Ano, n.º8, 1926

Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 10


Luís de Magalhães

E, conforme a hora e o cenário do céu, essa paisagem elisiamente calma, ao mesmo tempo movimentada e silenciosa, oferece tonalidades diversas: ora é toda em nuances de sanguínea, com toques e relevos de oiro; ora em tons de azul, frescos e transparentes como os das marinhas dos azulejos de Delft; agora é o verde que predomina em gradações sucessivas, desde o verde-negro dos pinhais ao verde-marinho das águas paradas; depois é o alaranjado dos poentes; depois o violeta dos crespúsculos; depois os cinzentos desbotados; os pálidos tons de pérola, as aguadas de nanquim da noite que começa... 


«E se há luar, se a lua cheia, surgindo atrás da cumeada das serras longínquas, vem banhar toda essa extensão de águas e de planícies – então os aspectos que ela oferece têm qualquer coisa de maravilhoso, de irreal, como uma visão criada por um sortilégio mágico. Entre o céu e a ria, a linha da terra fronteira é apenas um longo e fino traço escuro, um delgado filete de sombra. Os astros que cintilam no espaço cintilam também nas águas, como se o firmamento se desdobrasse ou prolongasse em abismo aos nossos pés. E de leste a oeste, sob a incidência do luar, um grande leque de prata tremeluzente abre o seu enorme triângulo luminoso sobre a água, a que a aragem apenas dá uma ligeira crispação. É um esplendor! Então, num grande silêncio, em que só o monótono rumor do mar se ouve, uma pequena bateira de pesca movida a remos, um moliceiro velejando lentamente, um mercantel impelido à vara, atravessam, lá ao longe, essa zona iluminada, num destaque nítido e cortante de pequenas sombras chinesas. E dir-se-ão visões de sonho, barquinhos de fadas, tripulados por minúsculos gnomos, negras gôndolas misteriosas, deslizando sem ruído numa laguna de águas argentinas...» 

Os moliceiros e os pescadores da Murtosa são os que mais a povoam. Toda a semana, durante alguns meses, vivem sobre essas águas, apanhando o moliço ou lançando as redes, dormindo na proa dos seus barcos, cozinhando neles ou perto deles, em terra, a sua frugal caldeirada. 

«Ria de Aveiro» 


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quinta-feira, 21 de abril de 2011

AVEIRO: Efemérides da Ria

Muros da Ria (actuais)


1780 — Principiaram os trabalhos do muro do cais mandados executar pela Rainha D. Maria I; mais tarde o muro seria totalmente refeito pela pouca solidez e estado ruinoso.

1810 — Os aveirenses solicitaram ao Príncipe Regente, D. João, que ordenasse a reparação dos muros dos cais  desta cidade, o que obteve despacho favorável.

1858 — Por se ter arruinado o cais, em consequência da pouca solidez das obras mandadas fazer pela Rainha D. Maria I, o Governo ordenou a sua reconstrução.

1858 — Um decreto governamental criou a Junta Administrativa e Fiscal das Obras da Barra de Aveiro, cujas atribuições passaram para a Circunscrição Hidráulica de Coimbra em 1886.

1861 — O Engenheiro Silvério Augusto Pereira da Silva apresentou um novo relatório sobre as Obras da Barra de Aveiro.

1930 — No Cine-Rossio, o Capitão de Fragata e aveirense ilustre, Silvério Ribeiro da Rocha e Cunha, fez uma conferência que dividiu em três partes: Aveiro no passado; a história da laguna; e a fase actual da questão.

1939 — O ilustre aveirense, Comandante Silvério Ribeiro da Rocha e Cunha, escreveu, com destino à 1.ª Exposição Marítima do Norte, um importante trabalho que intitulou «Notícia sobre as Indústrias Marítimas na área da Jurisdição da Capitania do Porto de Aveiro».

De “Origens da Ria de Aveiro”, de Orlando de Oliveira

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 9




«Paisagem deliciosa e original, indecisa entre o mar e a terra, e que nos enche de vivo prazer quando dominamos desde os altos de Angeja à raiz das montanhas.»

Oliveira Martins

terça-feira, 19 de abril de 2011

Gafanha da Nazaré: cidade há dez anos

Praia da Barra: Painel de Zé Augusto


Criada freguesia em 23 de junho de 1910 e paróquia em 31 de agosto do mesmo ano, a Gafanha da Nazaré é elevada a vila em 1969. A cidade veio em 2001, por mérito próprio. O seu desenvolvimento demográfico, económico, cultural e social bem justifica as promoções que recebeu do poder constituído no século XX, a seu tempo reclamadas pelo povo. 
A Gafanha da Nazaré é obra assinalável de todos os gafanhões, sejam eles filhos da terra ou adotados. De todos os pontos do País, das grandes cidades e dos mais pequenos recantos, muitos chegaram e se fixaram, porque não lhes faltaram boas condições de vida. 
A Gafanha da Nazaré é, hoje, uma mescla de muitas e variadas gentes, que, com os seus usos e costumes e muito trabalho, enriqueceram, sobremaneira, este rincão que a ria e o mar abraçam e beijam com ternura. 
O Decreto-lei n.º 32/2001, publicado no Diário da República de 12 de julho do mesmo ano, foi aprovado pela Assembleia da República em 19 de abril de 2001, registando em 7 de junho desse ano a assinatura do Presidente da República, Jorge Sampaio. 
O povo comemorou a elevação a cidade com muita alegria, precisamente no dia da aprovação, pelo Parlamento, do desejo das autoridades e de quantos sentem esta terra como sua. A legitimidade popular consagrou essa data, 19 de abril, como data de festa, sobrepondo-se à assinatura do Presidente da República. 
Este título de cidade colocou a nossa terra com mais propriedade nos mapas e roteiros. Mas se é verdade que o hábito não faz o monge, temos de reconhecer que pode dar uma ajuda. Como cidade, passou a reivindicar infraestruturas mais consentâneas com esse título, podendo os gafanhões assumir este acontecimento como marco histórico da sua identidade, como cidadãos de pleno direito. 

Fernando Martins
Do livro "Gafanha da Nazaré: 100 anos de vida"

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 8


Canal-Palheiros

«A região de Aveiro é uma pequena Holanda em clima e luz ocidentais. Provavelmente pela extensa superfície de evaporação de centos de hectares de água salgada, toda esta região se distingue no norte do país pela luz irisada que a banha e de momento a momento muda de tom. Por vezes julgamo-nos aí transportados a uma região ideal.»

António Arroio,
In "Origens da Ria de Aveiro, de Orlando de Oliveira

domingo, 17 de abril de 2011

Escritores fascinados pela Ria de Aveiro — 7

Torreira


Eu nunca tinha visto a ria de Aveiro. Daí — dirão — este meu entusiasmo. Ora a laguna, com os seus múltiplos canais, seus campos encharcados, seus horizontes abertos, sua exuberância de luz e seu sonho de distância — é bela sempre e cada vez mais, afirmam os que todos os dias se banham no mistério da sua extensão panorâmica.
A ria de Aveiro — é uma maravilha. Fujo a descrevê-la, porque isso não está agora no meu programa.
Faltam aos meus olhos os palácios de mármore, as colunas de oiro, as igrejas erguidas em renda, as margens coalhadas de sonho e arte: S. Maria degli Scalzi, S. Marcuola, a casa de Contarini, e a distância de oiro sobre gaze de azul de S. Giorgio Maggiore. Mas — lembro-me de Veneza… Uma Veneza despida, no seu estado imaculado, em plena exuberância primitiva, onde se adivinha a vontade de Deus, de tudo ficar como ele a criou. Maravilha contemplativa!
O canal segue até o mar, lá pr’a baixo, nem eu sei pr’a onde. E as margens respiram humildade e humildade; evolam-se dos pisos encharcados emanações salinas, vêem-se fumos de casas que há um quarto de século abrigam heróis que refazem as areias em seiva, até darem rosas e pão, frutos e sombra — e, ao longe, com riscos de asas brancas de patos ou de gaivotas, esplendem as cidades: cidades agachadas que se fizeram a esforços que nenhum homem da Cidade é capaz de entender: cidades a que se chamam vilas, aldeias, lugares, praias de doce título e dulcíssima vida laboriosa: a Gafanha, mais Gafanha, S. Jacinto, a Murtosa, o Bunheiro, a Torreira. Os fundos cenográficos são recortados em bruma que não cabe nas paletas dos pintores: a Gralheira, o Caramulo, e adivinha-se o Buçaco na má vontade da manhã, que acordou sombria.
É uma maravilha a ria de Aveiro!

Norberto de Araújo
 In “Aveiro e o seu Distrito”, n.º 12, 1971

O Galafanha fica para a história

Este meu blogue vai continuar no ciberespaço para memória futura. Poderá sempre ser consultado. A partir de hoje, passarei a estar apen...