terça-feira, 16 de setembro de 2008

Senhora dos Navegantes no Forte da Barra

:

1 – Devoções Marianas

É conhecida, de há muito, a devoção que as gentes das Gafanhas têm por Nossa Senhora, à semelhança do que acontece um pouco por todo o País. A figura da Mãe, tanto no plano natural como divino, levou os crentes a aceitarem a Virgem Maria como símbolo da ternura, da disponibilidade, da protecção e do amor. Nessa linha, Maria nunca deixou de inspirar devoção a quem olha para Ela, sobretudo em momentos de aflição ou dificuldades. A Mãe de Deus, e nossa Mãe também, está permanentemente aberta ao povo sofredor. Nossa Senhora da Nazaré, da Encarnação, do Carmo, dos Aflitos, da Boa Hora, da Boa Viagem, da Saúde, dos Campos e, ainda, dos Navegantes. A mesma Nossa Senhora para cada situação. Não é de estranhar, pois, que a Senhora dos Navegantes tenha surgido em espaço e tempo de frágeis técnicas de marear, com perigos constantes, tanto à boca da barra como no mar alto. Embora não se saiba de onde partiu a ideia de venerar no Forte da Barra a Senhora dos Navegantes, é de presumir que a proposta, com toda a naturalidade, tenha nascido no coração de quem vive sentindo as riquezas do oceano, mas também a sua bravura.

domingo, 14 de setembro de 2008

Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré - 2

:
Nascimento e baptismo do Grupo Etnográfico

Por mais complexo que seja o processo de nascimento de uma qualquer instituição, há sempre uma data que se fixa como a primeira. Assim, o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré nasceu oficialmente no dia 1 de Setembro de 1983, sendo lógico aceitar que a fecundação aconteceu anteriormente, com mais rigor em 1980/81, na referida festa da Catequese, em que alguém avançou com a ideia de se dançar e cantar modinhas dos nossos avós, no encerramento do ano catequético. E se é verdade que se assumiu aquela data como a mais próxima da realidade, também é certo que o registo do nascimento se fez em 11 de Julho de 1986, através de escritura notarial. Nesse dia, no Cartório Notarial de Ílhavo, a cargo da licenciada Maria Helena de Matos Ferreira, assinaram a escritura, como fundadores do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré, os seguintes: Alfredo Ferreira da Silva, José Manuel da Cunha Pereira, Maria Isabel Fidalgo das Neves Nunes, José Maria Serafim Lourenço, Maria Isabel da Rocha Ribau Amarante, Augusto Manuel da Rocha Amarante, José da Costa Ferreira, Maria de Lurdes Matias Cravo, Humberto Nunes Merendeiro, José Manuel Ribau Augusto, Maria Rosália Figueiredo Rodrigues Teixeira, Maria Helena Pereira de Sousa, David Soares Caçoilo, João Álvaro Teixeira da Rocha Ramos, José Augusto Vilarinho Fidalgo, Maria da Conceição Bola Soares e Manuel Joaquim Retinto Ribau. A publicação da escritura veio no Diário da República de 14 de Agosto de 1986, III Série. Entretanto, os corpos gerentes do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré ficaram assim constituídos: Assembleia Geral: Presidente — João Álvaro Teixeira da Rocha Ramos Secretários — Paulo Manuel Marques Riço David Soares Caçoilo Direcção: Presidente — Alfredo Ferreira da Silva Vice-Presidente — José Manuel da Cunha Pereira Secretário-Geral — José Augusto Teixeira Rocha Secretário-Adjunto — Paulo Jorge Albuquerque Teixeira Tesoureiro — José da Costa Ferreira Tesoureito-Adjunto —Maria Isabel Fidalgo das Neves Nunes Vogais — Maria Conceição Bola Soares Alda Rei Albuquerque Rosa Bela Vidreiro Pata Conselho Fiscal Presidente — Manuel Cravo da Rocha José Maria Serafim Lourenço Eduardo Aníbal Falcão Ribeiro Arvins O primeiro ensaiador do Grupo foi Acácio José Teixeira Rito Nunes, mas tempo depois, por motivos da sua vida profissional, teve de emigrar, sendo substituído por Carlos Alberto Pereira de Sousa, que acabou por abandonar essas funções por ter ingressado num Seminário, na perspectiva de vir a ser ordenado sacerdote, como veio a acontecer. O terceiro ensaiador foi Eduardo Aníbal Falcão Ribeiro Arvins.

FM

:

domingo, 7 de setembro de 2008

Eça de Queiroz na Costa Nova

:
...Filho de Aveiro, educado na Costa Nova, quase peixe da ria, eu não preciso que mandem ao meu encontro caleches e barcaças. Eu sei ir por meu próprio pé ao velho e conhecido "palheiro do José Estêvão".
Cartas a Oliveira Martins, 1884
NOTA: Texto e foto de Imagens do Portugal Queirosiano, de Campos Matos
:

sábado, 6 de setembro de 2008

Eça de Queiroz na Costa Nova

:
Palheiro de José Estêvão
a Costa Nova – e eu considero esse um dos mais deliciosos pontos do globo. É verdade que estávamos lá em grande alegria e no excelente chalé Magalhães.
(Eça de Queiroz Entre os seus, Cartas Íntimas, 15 de Julho, 1893)
Apesar de ter retardado ontem o meu jantar até às nove da noite, não pude desbastar a minha montanha de prosa. Levar as provas para os areais da Costa Nova, não é prático – ó homem prático! Há lá decerto a brisa, a vaga, a duna, o infinito e a sardinha – coisas essenciais para a inspiração – mas falta-me essa outra condição suprema: um quarto isolado com uma mesa de pinho. (Carta a Oliveira Martins, 1884)
:
Do livro "Imagens do Portugal Queirosiano", de Campos Matos, 1976 :

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

As Mulheres da Gafanha

:
"BRAVAS MULHERES, AS DA GAFANHA!"
As mulheres da Gafanha merecem um estudo profundo sobre o seu papel na construção das povoações e das comunidades desta região banhada pela Ria de Aveiro. É certo que alguns estudiosos e escritores de renome já se debruçaram sobre elas, cantando loas à sua tenacidade e coragem, mas também ao seu esforço, desde sempre indispensáveis na luta de transformação de areias improdutivas em solo ubérrimo. Há décadas, e é sobre essas mulheres que nos debruçamos, elas eram as mães solícitas e amorosas dos filhos, mas também os “pais” que garantiam o sustento da casa, enquanto os maridos se aventuravam nas ondas do mar na busca de mais algum dinheiro que escasseava em terra. Em jeito de desafio a quantos podem e devem, pelos seus estudos e graus académicos, retratar as nossas avós, com rigor histórico, já que, hoje e aqui, não há lugar nem tempo para isso, apenas indicamos algumas pistas, que há mais de 50 anos nos foram oferecidas por Maria Lamas, na célebre obra “As mulheres do meu país”, que viu há tempos a luz do dia em 2ª edição, numa iniciativa da “CAMINHO”, e que tão esquecida tem andado. Na década de quarenta do século passado, Maria Lamas, que faleceu em 1983, com a bonita idade de 90 anos, andou pelas Gafanhas, mais concretamente pela Gafanha da Nazaré, olhando, conversando, retratando e estudando as nossas avós. “O esforço da mulher na labuta comum e a sua influência no desenvolvimento da Gafanha são apontados, em toda a região de Aveiro, como um exemplo admirável”, afirma a escritora, depois de se referir, a traços rápidos, à localização da região que estudava, e de citar as areias e os ventos, as marés e a vegetação, as batatas e os cereais, as salineiras e as pescadeiras, as trabalhadoras das secas do bacalhau. E foram, sobretudo estas, as mulheres das secas, as que mais a entusiasmaram, ou não fossem elas o exemplo claro da camponesa e da operária na mesma pessoa. “A seca do bacalhau na Gafanha emprega muitas centenas de mulheres, durante parte do ano, havendo secas onde o trabalho é permanente, porque abrange duas campanhas, a dos lugres e a dos arrastões. “Na referência a esta actividade feminina focaremos em especial a Gafanha, visto ser ali que ela atinge o maior desenvolvimento, como é também ali que existem as mais importantes secas do bacalhau de todo o País.” Assim escreve Maria Lamas, que acrescenta: “Pelos costumes e ambiente em que vivem e ainda porque tanto se entregam à lavoura como à faina da seca ou qualquer outra que se lhes proporcione, elas conservam, sob certos aspectos, a mentalidade da mulher do campo; mas a disciplina das tarefas realizadas em comum ou distribuídas numa coordenação de actividades, o sentido das responsabilidade, os horários fixos e ainda o contacto com outras realidades directamente ligadas ao seu próprio esforço vão-lhes dando uma noção diferente da vida e criando consciência da importância do seu labor.” A escritora que andou pela nossa região recorda a maneira de viver das mulheres da Gafanha, com a sua “ignorância”, o conceito de “fatalismo, a que subordinam o seu destino”, mas também o instinto de “defesa dos seus interesses”, tornando-as “solidárias”. E sublinha: “No vestuário revelam maior cuidado na limpeza do que as camponesas, que saltam da enxerga, estremunhadas, antes do luzir do dia, e lá vão, para a labuta sem fim, indiferentes à água, ao sabão, ao pente... “Não se imagine, porém, que as mulheres do povo, naquelas circunstâncias, têm uma vida mais leve e fácil, em relação às suas irmãs que permanecem em contacto permanente com a terra. Com muito poucas excepções, elas fazem longos percursos, de manhã e à tarde, porque moram longe do local onde trabalham. Também, de uma forma geral, todas aproveitam algumas horas que lhes fiquem livres para ajudar na modesta faina agrícola da família, seja regar o milho, ir ao mato e à lenha ou tratar dos animais. “A sua vantagem não está no aligeiramento das tarefas, mas sim na mudança do ambiente, na variedade dos assuntos que lhes prendem a atenção e no convívio com as companheiras.” Assim – sublinha Maria Lamas –, as mulheres das secas do bacalhau são “desembaraçadas, faladoras e alegres, como se a vida lhes não pesasse. Em conjunto, nas horas de plena actividade, cantando em coro ou simplesmente escutando os programas de rádio, que um amplificador de som leva a todos os recantos das instalações onde trabalham [EPA – Empresa de Pesca de Aveiro], elas constituem um quadro pleno de vitalidade e optimismo”. Refere, depois, o que é o trabalho árduo destas mulheres, desde descarregar, lavar, salgar e levar o bacalhau, todos os dias, para as “mesas” da seca, para depois, mais tarde, empilhar, seleccionar e enfardar. Diz que elas andavam muitas vezes descalças, “apesar do perigo constante de se ferirem, com as espinhas e barbatanas que se encontram espalhadas pelo chão”. E acrescenta que uma ou outra consegue arranjar botas de borracha, “presente do irmão ou noivo que foi aos bancos da Terra Nova”, sublinhando que estas “são consideradas, pelas colegas, como privilegiadas”. “Há ainda aquelas que improvisam uma espécie de sandálias de madeira, amarrando uma ‘sola’ ao pé, com farrapos. São também raras excepções. A regra comum é o pé descalço, porque nenhum calçado duraria tempo que valesse a pena, além de que, não sendo impermeável, nem sequer evitaria que os pés estivessem sempre molhados”, pode ler-se no texto que estamos a seguir e do qual transcrevemos as partes mais significativas, na nossa óptica. Depois frisa os canos, que mais não eram do que “meias sem pés”, os baixos salários, “doze a quinze escudos diários”, e apresenta a mulher que as dirige, a Senhora Júlia, que os gafanhões mais antigos bem recordam. Diz Maria Lamas, entre outras considerações, que desempenhava o seu cargo “com firmeza” e que se distinguia das suas subordinadas pelo aspecto, “porque se veste e penteia de maneira mais apurada”. No entanto, “conserva o ar desembaraçado e decidido que caracteriza as mulheres do povo daquela região”. E adianta: “O que interessa especialmente neste caso é o facto de ela ter conseguido, pelas suas qualidades de trabalho e disciplina, ascender ao lugar de encarregada, com enormes responsabilidades, numa empresa importante.” Noutra passagem do livro, canta um hino a estas mulheres, cujas histórias decerto muito a sensibilizaram, hino esse que aqui transcrevemos: “Mulheres da Gafanha, à hora em que vão levar o almoço aos homens que trabalham nos estaleiros. A vida duríssima que levam, naquelas terras que outrora foram dunas batidas rijamente pelo mar e que são hoje solo fertilíssimo devido ao seu labor constante, marca-lhes as feições e dá-lhes um todo viril, decidido, forte. Nenhuma tarefa as faz recuar. São, quase todas, mulheres de pescadores de bacalhau ou de operários, e elas próprias trabalham no que se lhes proporciona, quando não é preciso sachar o milho ou colher a batata, muito abundante ali. A sua existência passa-se em permanentes fadigas e sobressaltos. Usam uma linguagem desabrida, que chega a ser chocante, porque se habituaram a encarar a vida e as pessoas de forma hostil, à força de lutar e sofrer de muitos modos. Tudo se resume, porém, a um desabafo, tão natural, para elas, como respirar, rir ou falar. Bravas mulheres, as da Gafanha! No fundo, todas as mulheres do povo se parecem umas com as outras, vivam onde viverem. Pode variar o aspecto exterior, mas a sua natureza é a mesma. Mais ou menos rudes, conforme o seu nível de vida, todas são irmãs na luta, na resistência ao trabalho e ao sofrimento, no heroísmo obscuro com que suportam o peso de uma existência sujeita às suas inclemências. Instintivas e directas, na sua maneira de encarar as realidades, não podem ser julgadas apenas pelo que fazem e dizem. A força que as impele tem raízes fundas, na terra e na própria vida.” Mais adiante, tece algumas considerações sobre as raparigas da Gafanha, sublinhando: “Estas jovens do povo parece que se vão distanciando, no trajar e nos gostos, das suas mães. Trabalham na terra, quando a faina da seca termina, mas quando vão à cidade apresentam-se vestidas como se lá vivessem. Gostam de ir ao cinema, se têm ocasião para isso; discutem o ‘que se usa’; são raras, porém, as que mostram interesse pela leitura. Casam, quase sempre, com operários dos estaleiros ou pescadores de bacalhau. Depois de casadas perdem muito da sua vivacidade e até o gosto na sua pessoa – a não ser uma ou outra de personalidade mais definida. A pouco e pouco vão seguindo o caminho das outras mulheres que, antes delas, foram novas, engraçadas e um tanto rebeldes contra o pensar das mães. Insensivelmente, adaptam-se à vida sacrificada, em que tudo é trabalho, sobressaltos e luta pelo pão. Mesmo quando conseguem certo desafogo económico, o espírito mantém-se-lhes embotado e alheio ao progresso do Mundo, fora dos seus interesses pessoais e imediatos.”
Fernando Martins
Nota: Foto do mesmo livro
::

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Origens do Vocábulo Gafanha

:Qualquer estudo que se faça sobre a nossa terra, leva, inevitavelmente, os seus autores a debruçarem-se sobre as origens do vocábulo Gafanha, sem que até hoje alguém tenha chegado a qualquer verdade absoluta. A palavra Gafanha não escapa à dificuldade natural e ainda hoje não é possível saber-se concretamente qual a sua origem. Sobre ela, falei várias vezes com o tio João, o primeiro gafanhão que me falou da “Monografia da Gafanha”, escrita pelo Padre João Vieira Rezende, antigo pároco da Gafanha da Encarnação e bem conhecido do meu amigo. Não conhecia a obra do Padre Rezende, mas não descansei enquanto não a li. Ainda hoje, agora com edição da Câmara Municipal de Ílhavo, se mantém como ponto de partida ou de referência para diversos estudos sobre esta região.
A “Monografia da Gafanha” do Padre João Vieira Rezende, obra que viu a luz do dia, na sua primeira edição, em 1938, continua a ser o trabalho mais completo sobre esta região das Gafanhas, não obstante terem passado quase 70 anos sobre a sua publicação. Nela afirma o Padre Rezende que a palavra Gafanha teria derivado de gadanhar (cortar com a gadanha) uma vez que por aqui havia bastante junco que os primeiros habitantes empregavam não só nos currais dos animais como nas próprias habitações. Os primeiros gafanhões ou quantos por aqui gafanhavam, ou, melhor dizendo, gadanhavam, eram analfabetos ou semianalfabetos, daí se justificando a troca do d pelo f. Aliás, trocas dessas sempre aconteceram na Gafanha, como, por exemplo, nos dias de hoje, quando se diz buano em vez de guano, ou Ílhabo, em vez de Ílhavo, com a conhecida e persistente troca do v pelo b.
Diz o Padre Rezende que a expressão “vamos à gafanha do junco” significava “vamos à gadanha (gadanhagem, corte) do junto”. E diz, ainda, que o senhor Manuel das Neves, mestre não diplomado das primeiras letras, falecido em 1927, com 83 anos, na Gafanha da Encarnação, contava que, “quando menino, vinham por aqui, com frequência, umas mulherzinhas cortar e apanhar feno e junco que levavam para as suas terras e que, a esta acção de cortar com o foicinho, aplicavam o termo de gafenhar.” Gafenhar e não gafanhar. “Corrompeu‑se o termo das pastoras dos suínos, que levavam para Mira, Calvão, Lombomeão, etc., os fenos gafenhados por estes sítios.”
Excluída a hipótese gafaria, por não haver qualquer documento ou vestígios que situem uma leprosaria por estes lados, resta-nos seguir outros caminhos, talvez mais convincentes. O Padre Rezende também não concorda com a derivação da palavra árabe gafar (tributo que se paga pela passagem de um rio) por se saber que, ao tempo da ocupação árabe, a Gafanha, ou a zona actual das Gafanhas, nem sequer existia!
O Dr. Joaquim da Silveira, em carta que enviou ao autor da Monografia e publicada na segunda edição (1944), tece algumas considerações sobre a questão, dizendo, nomeadamente: “Gafanha, leva-me naturalmente a relacionar esse nome com o adjectivo gafenho, também pronunciado gafanho, que existe na língua (a par dos sinónimos gafento e gafeirento) para significar gafado, doente de gafeira.
Eu ouvi gafanha no mesmo sentido, aplicado a carneiros e cabras atacados de morrinha, que é uma das modalidades da gafeira (sarna leprosa).” E continua: “Sabe-se que uma das consequências da gafeira, ou seja a lepra, doença tão horrorosa nas pessoas ou nos animais, é fazer cair o pêlo, tornando a sua pele nua, seca, ronhosa, e deixando apenas aqui e ali (quando deixa) um ou outro tufozito de fios sem vigor.
Na espécie humana recurva e enclavinha os dedos das mãos (e às vezes dos pés) que ficam hirtos e enganchados.” Diz mais adiante: “Ora a vegetação, que é o pêlo da terra, desapareceu por completo da Gafanha, ou mal se notava nuns raros pinheiritos tortos e enfezados da sua parte norte. Era uma região árida, estéril, parecendo gafada (gafenha) e maldita por Deus. Uma metáfora tirada daquele triste espectáculo dos indivíduos leprosos (principalmente do glabrismo da pele, semelhante à superfície calva das areias, e talvez do recurvamento rígido dos dedos, de que os pinheiros contorcionados davam ideia) deve a meu ver, ter dado origem ao nome da Gafanha.” E acrescenta: “Na minha aldeia natal (Fogueira‑Anadia) havia um baldio arenoso e sáfaro, que ainda conheci povoado apenas de magras e descontínuas moitas de mato, chamado Gafanha. E no Alentejo, na freguesia e concelho de Redondo, há igualmente uns casais chamados Gafanhas ou Gafanhas-de-João-Curado.”
Em nota à margem da sua carta, refere, ainda: “No Caramulo, como me informou pessoa de Campia, usa-se o adjectivo gafanho para designar uma espécie de tojo, que tem os ramitos mais delgados que o negral e os picos mais pequenos e fracos. É talvez do aspecto dos ramitos, que parecem quebrados, que lhe vem o nome. Na Bairrada ao tojo-gafanho chamam chamusco ou tojo-chamusco.” No III Volume da Etnografia Portuguesa, José Leite de Vasconcelos apresenta, no capítulo dedicado à Gafanha, na página 331, uma Anotação Filológica de muito interesse que transcrevemos por vir a propósito: “Tratando da etimologia de gafanhoto, escreve Gonçalves Viana que tal palavra tem aspecto de diminutivo (cf. perdigoto), a que corresponde o aumentativo gafanhão (gafanhoto grande), e supõe que devemos admitir como palavra primitiva gafanho ou gafanha; a primeira não a pôde abonar, ao passo que a segunda abona com o nome da nossa sub-região; e alega paralelos na toponímia, a saber, Gafanhão (em Castro Daire), Gafanhoeira (em Arraiolos e Évora).” Pela minha parte adiciono Gafanhas (no Redondo) e Gafanhoeiras (em Reguengos de Monsaraz). Julgo muito sensata a explicação apresentada pelo nosso grande filólogo – ao contrário de outras que se têm proposto –; a ela me inclino, e direi em seu apoio mais o seguinte: “Que Gafanha era na origem nome comum prova-o o receber o artigo definido (a Gafanha).” “A Gafanhão, no sentido de Gafanhoto grande, liga-se Gafanhoeira com o seu plural, como Sardoeira e Sardoeiras e sardão; mas em fazenda, herdade, a horta do Gafanhão (Alentejo) creio que, conquanto aí se patenteie o referido aumentativo, correspondente a gafanhoto, havemos de ver, não um nome puro e simples de animal, e sim uma alcunha tornada topónimo, de que na nossa língua há inúmeros exemplos”. “Em suma: Gafanha seria na origem um nome zoológico, ou aparentado biológica ou metaforicamente com o gafanhoto, ou ao menos formado como gatanho (tojo-gatão), onde entra o sufixo anho, deduzido de murganho (nome de estirpe latina), e aplicado no feminino.”
Depois das considerações autorizadas do sábio Leite de Vasconcelos, ocorre-nos ainda chamar a atenção para o substantivo Gafa (vaso que servia nas salinas para transportar sal) uma vez que, nestas paragens, sal foi coisa que sempre houve. O ilustre historiador aveirense, Mons. João Gonçalves Gaspar, em estudo oportuno, inclina-se para a hipótese de Gafanha derivar de Galafanha e acrescenta que “Galafanha sempre me serviu de pista para, em confronto com outros nomes de locais ou povoações relacionados com água, descobrir algo mais consentâneo com esta região e com os primitivos juncos nascediços ou ervas selvagens, que por aqui foram aparecendo ao deus-dará e reproduzindo-se sem qualquer entrave. Dentro dos meus limitados conhecimentos, agrada-me ver essa palavra como um composto originário de dois antigos étimos ou radicais diferentes – “gala” e “fânia” – ambos de procedência pré-romana, que, como outros, continuariam a ser comuns ao linguajar do povo, por vezes com feição latina.”
“No caso de “Gala”, também encontramos variantes como “ala”, “cala”, “pala”, “sala”, “tala”, “vala”... – todos a quererem significar zona lacustre, terra pantanosa ou lamacenta, região de argila ou barro”. E diz mais: “Não será, de facto, toda esta zona das Gafanhas uma grande “Gala” maior do que a dos arredores da Figueira?” Sobre “fânia”, Mons. João Gonçalves Gaspar diz, entre outras considerações: “no português antigo usava-se “fânio” para designar uma espécie de junco semelhante ao papiro, planta essa própria das margens dos rios e dos lugares inundados.”
Também o nosso conterrâneo, padre Manuel Maria Carlos, se debruçou sobre o assunto em artigo publicado no Timoneiro de Setembro/Outubro de 1980, acrescentando ao que se tem dito as seguintes considerações: “... o nome inicial de Gafanha devia ter sido Cafânia ou Gafânia, derivado de Gafano. Comparemos com Lusitânia, com Hispânia (que deu Espanha), Bretânia (Bretanha), Alemânia (Alemanha), etc.” Diz que Gafanha “não tem origem românica porque em latim não existe qualquer étimo ou raiz “Caf” ou “Gaf”. Sendo assim, a origem do nome em questão ou é anterior à presença dos Romanos na Península, ou então foi nome dado a esta nossa região pelos povos que posteriormente ocuparam estes territórios.” Aquele gafanhão alvitra a hipótese de terem sido os Bárbaros os que estiveram na base do aparecimento da palavra Gafanha, uma vez que estes povos por cá deixaram algumas palavras de origem germânica. Depois recorda que “Gaf” é a raiz de muitas palavras e que Gafa aparece com inúmeras acepções, significando, por exemplo, gancho, doença da lepra, caranguejo, etc. Gafar pode ser verbo, significando agarrar, submeter... e também pode ser substantivo, significando, neste caso, o tributo que os cristãos e os judeus pagavam aos turcos, quando estes os passavam duma à outra margem do esteiro. É possível que este esteiro fosse o estuário do rio Vouga; até porque estuário e esteiro têm idêntica etimologia.
Recorda‑se a propósito que existe actualmente na freguesia do Bunheiro, concelho da Murtosa, um lugar chamado Esteiro, apesar de não existir lá actualmente qualquer esteiro. Diz, por fim, que “Gafano seria, portanto, o homem destas terras, que estava gafado (agarrado, submetido) pelas doenças ou pelos turcos, a quem estava sujeito e a quem tinha de pagar a passagem do esteiro. Gafânia ou Gafanha seria portanto a terra dos Gafanos.”
.
Fernando Martins
:

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Obra do Apostolado do Mar na Diocese de Aveiro - 5

: D. Manuel assina o documento que acompanhou a primeira pedra
CONSTRUÇÃO DO ACTUAL EDIFÍCIO DO STELLA MARIS
Em 1982, graças a um subsídio do Governo, foi possível iniciar o processo de construção do actual edifício do Stella Maris, para substituir o antigo pavilhão pré-fabricado. Com o apoio das Câmaras de Aveiro e Ílhavo, o Gabinete Técnico de Aveiro deu início ao projecto da construção. No dia 18 de Setembro de 1983, dia da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, foi possível celebrar a bênção e lançamento da primeira pedra da nova casa do Stella Maris. Presidiu à cerimónia o então Bispo de Aveiro, D. Manuel de Almeida Trindade, estando presente D. António Marcelino, Bispo Coadjutor, bem como o secretário de Estado das Pescas e Assuntos Sociais, o Governador Civil de Aveiro, os presidentes das Câmaras de Aveiro, Ílhavo e Murtosa, o comandante da Capitania do Porto de Aveiro, o director e presidente da JAPA (Junta Autónoma do Porto de Aveiro), outras autoridades do Distrito, armadores e muitas pessoas ligadas às actividades marítimas. Graças aos esforços de todos quantos têm trabalhado neste clube da Obra do Apostolado do Mar, foi possível construir a primeira fase do projecto, que comportou sala de refeições, bar, cozinha, escritório, recepção, armazém, 15 quartos com casas de banho privativas e um salão de reuniões. Esta primeira fase, que importou em 13 mil contos, foi inaugurada no dia 10 de Novembro de 1985. Presidiu à cerimónia da bênção do novo edifício o Bispo de Aveiro, D. Manuel de Almeida Trindade. FM Fonte: “Gafanha – Nossa Senhora da Nazaré”, de Manuel Olívio da Rocha e Manuel Fernando da Rocha Martins

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

FÉRIAS

::
***
Nos próximos 15 dias, estarei de férias, algures onde possa respirar um ar diferente, para conviver com familiares e com os meus sonhos. No regresso, estarei rejuvenescido e pronto para outro ano de trabalho, ao sabor das minhas capacidades e obrigações. Também com presença assídua no mundo da blogosfera. Boas férias para todos os meus amigos.
Fernando Martins
:

CAMPISMO E CARAVANISMO na Gafanha da Nazaré

::
O Parque de Campismo está integrado no Complexo Desportivo da Gafanha da Nazaré
:
Quando, em 1973, fui à “Casa Forte”, ao Porto, comprar uma tenda de campismo, não fazia a mínima ideia das directivas necessárias que permitiam o exercício legal da prática desta actividade de ar livre.
Foi o funcionário da loja que me deu as primeiras “dicas” sobre o assunto e de como eu devia proceder para poder ter acesso a qualquer parque de campismo, em Portugal ou no estrangeiro.
Falando com o meu amigo Fernando Martins, que já então era praticante de campismo, filiado no Clube dos Galitos, ele instigou-me a entrar em contacto com a direcção do Grupo Desportivo da Gafanha, para ver da possibilidade de ser criada uma Secção de Campismo no clube.
Achei a ideia interessante e dirigi-me a uma reunião de direcção que a acolheu com entusiasmo, mas com a condição de ser eu a responsabilizar-me pela nova secção, tendo logo ali sido nomeado para proceder à filiação do clube, na Federação Portuguesa de Campismo e Caravanismo.
Daí e até 1997, nunca mais deixei de estar ligado a esta secção, embora já tivesse deixado, há alguns anos, de ser um campista activo.
Durante estes anos, e como era necessário manter em actividade permanente pelo menos 25 campistas para que a Secção não fosse extinta pela Federação, houve anos em que eu acabei por revalidar, e pagar do meu bolso, Cartas de Campismo de filiados que, quando não precisavam delas, as não revalidavam.
Com a aquisição dos terrenos para o Complexo Desportivo, em 20 de Março de 1976, por Alvará de Cedência Gratuita da Secretaria de Estado da Estruturação Agrária, logo se pensou na construção de um Parque de Campismo para o Grupo Desportivo da Gafanha.
Eu mesmo elaborei o projecto, que submetemos à apreciação dos vários organismos públicos, entre eles a Câmara Municipal de Ílhavo.
Durante alguns anos de avanços e recuos, acabou por ser a câmara, presidida pelo engenheiro Manuel Galante, quem na altura, por entender politicamente mais favorável, chamou a si a execução do empreendimento, mas então, já com um projecto próprio, que não diferia muito do antes apresentado.
Com a entrega deste empreendimento à Junta de Freguesia da Gafanha da Nazaré, na qualidade de proprietária do terreno, esta, por sua vez, transferiu a sua administração para o Grupo Desportivo da Gafanha, como único e legal usufrutuário, constante do mesmo Alvará de Cedência Gratuita, de todo o terreno ocupado pelo Complexo Desportivo da Gafanha da Nazaré.

Armando Cravo
:

A Nossa Gente

Mestre Mónica

D. João Evangelista e Mestre Mónica

Parece-me que respiro melhor, quando vou à Gafanha benzer os barcos de Mestre Mónica. Mas não é só o ar da ria que tem o dom de nos abrir os pul­mões. É não sei que fulgor de abundância, de riqueza nacional, de vitorioso progresso que por ali passa e nos bate em cheio no peito. É um milagre de beleza que Mestre Mónica sabe extrair de troncos rudes, de matéria informe. Quando passam os carros a gemer sob o peso morto daqueles pinheiros, quem imagina a elegância e a majestade, a doçura e a força, a maravilha e a arte que dali vão sair?Vai, Ilhavense; vai Santa Joana; vai, Santa Mafalda; vai, Avé-Maria, desce imponente a húmida calha, entra nas águas, encanta os mares, recolhe a presa, e depois, ao regresso, entra airosa na barra, ao som da orquestra, ao flutuar das bandeiras, à alegria das multidões!

Aveiro, 5 de Abril de 1957

JOÃO EVANGELISTA
Arcebispo-Bispo de Aveiro
:

FILARMÓNICA GAFANHENSE - 7

:
VI – A Filarmónica Gafanhense na actualidade No âmbito de uma parceria estabelecida com a Câmara Municipal de Ílhavo e do reconhecimento da capacidade de a colectividade assumir e gerir compromissos de relevância cultural, a autarquia ilhavense concedeu, em Março de 2005, em sessão solene, à FILARMÓNICA GAFANHENSE, a Medalha de Ouro do Concelho, sendo a mais alta condecoração Municipal entregue a esta instituição. Os dirigentes, executantes e sócios, tal como os autarcas do Concelho de Ílhavo, anseiam por uma sede social condigna para que esta colectividade, a mais antiga da região, possa, num futuro próximo, satisfazer os seus objectivos ligados à cultura musical. Sempre no sentido de cada vez mais procurar novos e grandes valores para a música, e de continuar a animar culturalmente a terra que a acolheu e o concelho a que pertence, e não só, durante muitos anos. No dia 14 de Março de 2006 foram eleitos os novos membros dos órgãos sociais, para o biénio 2006-2007, numa perspectiva de prosseguir o trabalho até ao presente desenvolvido, apostando, no entanto, em acompanhar a dinâmica dos tempos que correm, para bem da cultura musical. Os cargos ficaram assim distribuídos: Assembleia Geral Presidente, Pedro Jorge Jesus Bola 1º Secretário, João Paulo da Silva Nunes 2º Secretário, António Fernandes Teixeira Conselho Fiscal Presidente, Manuel Santos Ribeiro Secretário, Pedro Manuel Lourenço Santos Vogal, Marco José Pereira Santos Direcção Presidente, Carlos Sarabando Bola Vice-presidente, Paulo Renato Jesus Bola Secretário, Ana Paula Jesus Bola Tesoureiro, Alcino Marçalo Santos Patoilo Vogal, António Manuel Bernardino Santos Suplentes João Fernandes Teixeira Paulo Sérgio Oliveira Soares Pedro Manuel Gonçalves Ferreira Rosa Maria Nunes Paiva Hélio Ribau das Neves É justo salientar, ainda, que em Outubro de 2006 a Filarmónica Gafanhense foi inscrita no INATEL, ficando com o nº 4966. E em 2007, além do seu maestro Fernando Manuel Tavares Lages, a Filarmónica é constituída por 40 executantes, com idades compreendidas entre os nove e os 73 anos, distribuídos pelos mais diversos instrumentos. A formação de novos músicos está entregue aos professores Ricardo Paulo Ferreira Constantino, João Fernandes Teixeira, Paulo Renato Jesus Bola e Alcino Marçalo Santos Patoilo. :

quinta-feira, 31 de julho de 2008

GAFANHA DA NAZARÉ: Desporto

:
CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DO FUTEBOL
:
Em finais da década de 40 e início da década de 50, existiram três clubes de futebol não federado, na Gafanha da Nazaré e um na Gafanha da Encarnação. Mais tarde, já em meados da década de 50, surgiu na Cale da Vila implementado por um grupo de estudantes, o “INDEPENDIENTE”, que pretendia ser uma réplica da Académica de Coimbra. Também era de estudantes e também equipava todo de negro.
Não sei qual dos três clubes seria o mais antigo, já que eu era ainda muito criança, mas sei que havia na altura uma grande rivalidade entre eles e também com o “Estrela da Gafanha da Encarnação”. Outros tempos… os mesmos sentimentos, as mesmas paixões pelo futebol!... Eram instituições que viviam quase exclusivamente da carolice dos seus mentores, autênticos patrões que dispunham a seu bel-prazer e à sua custa, dos favores e desfavores dos resultados desportivos obtidos.
Vamos começar pelo União, já que foi esta instituição que sobreviveu durante mais tempo, e que acabou por estar na origem do actual Grupo Desportivo da Gafanha, em Agosto de 1957:

1. UNIÃO DESPORTIVA GAFANHENSE Sede Social – BEBEDOURO, próximo da Igreja Matriz (casa do Aurélio da Neta) Campo de Jogos – FORTE DA BARRA Equipamento habitual – AZUL E BRANCO Último Presidente – HENRIQUE CORREIA (Motorista dos Estaleiros Mónica) Inicialmente o União utilizava um pelado existente no meio do juncal, na Ilha da Mó do Meio, espaço que chegou também a ser utilizado para provas de hipismo. Mais tarde, já no Campo do Forte da Barra, era necessário levantar os carris que atravessavam o pelado, sempre que o recinto era preciso para a realização dos jogos. O União talvez tenha sido o único dos três clubes, que funcionava verdadeiramente como associação: - Tinha uma direcção e tinha sócios, enquanto que os outros dois, tinham um patrão, uma sede em casa desse patrão e eram financiados pelo mesmo patrão.
2. ASSOCIAÇÃO DESPORTIVA GAFANHENSE Sede Social – CALE DA VILA (barbearia do senhor Ernesto Tavares) Campo de Jogos – POUSIO DO MILIONÁRIO CARLOS (Sítio das Lebres) Equipamento habitual – VERDE E BRANCO Presidente/Patrão – ERNESTO TAVARES A Associação era bastante apoiada pelo público da Cale da Vila, porque também se tratava do lugar da freguesia com maior densidade populacional. Era frequente a assistência em apoio à sua equipa, cantar: “A Associação trabalha Como eu quero Agora é que não falha Os nove a zero” Estas quadras eram cantadas até à exaustão durante os jogos e repetidas no regresso, pelo “meio das terras”, quando o resultado era favorável aos da Cale da Vila.
3. ATLÉTICO CLUBE DA MARINHA VELHA Sede social – MARINHA VELHA (casa do senhor Casqueirita) Campo de Jogos – PRAIAS DE JUNTO (próximo do moinho do Conde na Marinha Velha) Equipamento habitual – ENCARNADO E BRANCO Presidente/Patrão – MANUEL CASQUEIRA (Casqueirita) O senhor Casqueirita que também se dedicava ao amanho das terras, era um homem com jeito e apetência para a confecção de trajes para os “anjos” das procissões, bem como para as tarefas de cangalheiro, na organização de funerais e de seus aprestos. No entanto, nutria um amor muito especial pelo seu Atlético, onde gastou uma grande parte dos proventos que angariava nessas actividades.
Nesse tempo, ele já pagava a jogadores, para virem nas “horas vagas” do Beira Mar, dar uma ajudinha para derrotar os principais rivais. Como o campo de futebol se situava muito junto à Ria, muitas vezes o horário dos jogos tinha de ser compatibilizado com o horário das marés na baixa-mar. Durante a praia-mar, principalmente nas marés vivas, era frequente o campo ficar debaixo de água, impossibilitando, deste modo, a realização dos jogos.

 Generalidades

 Nesses tempos, apesar das dificuldades de transporte e embora eu fosse bastante jovem, já nutria um carinho muito especial pelo UNIÃO. Com o meu amigo José “Perrana” (falecido muito jovem), nós deslocávamo-nos de bicicleta aos lugares onde o União ia jogar com outras equipas da sua igualha. Nós íamos a Vilar, à Costa do Valado, ou à Oliveirinha nos arredores de Aveiro. Mas também nos deslocávamos a Fermentelos, no concelho de Águeda, ou à Amoreira da Gândara, no concelho de Anadia, apenas pelo prazer de ver jogar o Hortênsio, o Fernando Vaz (Alentejano) e seus pares. Armando Cravo

 NOTA: Agradeço ao meu amigo Armando Cravo a disponibilidade com que acedeu ao convite para colaborar neste meu blogue, com o único objectivo de nos ajudar a reviver tempos idos. É com estes contributos que é possível deixar aos vindouros as marcas indeléveis do nosso passado, de que tanto nos orgulhamos. Assim outros se juntem a nós…

FM
::

GAFANHA DA NAZARÉ: Desporto

::
:.

Complexo Desportivo da Gafanha em construção, na Colónia Agrícola


As rivalidades entre os clubes da Gafanha da Nazaré

As rivalidades próprias de qualquer desporto também naqueles tempos se viveram com alguma paixão. Os jogos não eram oficiais, já que se tratava de clubes não filiados em qualquer Associação, excepção feita para o Atlético que, segundo na altura foi amplamente divulgado, chegou a ser clube oficial, porém sem qualquer proveito desportivo. E a paixão dos seus dirigentes, por pressão logicamente psicológica dos respectivos adeptos, chegava ao ponto de procurarem e convidarem jogadores famosos, expressamente para cada jogo, pertencessem eles aos clubes rivais da terra, a outros clubes amadores da região ou ao Beira-Mar que já era instituição de respeito na altura. O importante era ganhar, custasse o que custasse. E, tal como hoje, também naquela época as vitórias ou derrotas eram comentadas com fervor clubista e com promessas de “vingança” para a próxima vez, que podia ser no domingo seguinte.
A curiosidade maior dos muitos adeptos estava em saber quem é que jogava e em que clube! E se os dirigentes não eram suficientemente diligentes ou bastante abonados para cativar os melhores jogadores, podiam muito bem preparar as malas e desandar. Esses dirigentes não serviam. E ainda hoje é assim. Aliás, o único dirigente, que saibamos, que acompanhou sempre o seu clube, desde o nascimento até à morte, foi o senhor Casqueira, mais conhecido por Casqueirita. Quando ele se cansou de gastar quanto tinha e não tinha com o seu Atlético, o clube morreu. É que, naqueles tempos, como hoje, os profissionais ou aparentados podem levar um clube à ruína, principalmente se não houver ponderação nos gastos e realismo nas contratações.
FM

:

terça-feira, 29 de julho de 2008

GAFANHA DA NAZARÉ: Desporto

:
Os primeiros clubes
Os primeiros gafanhões eram, sem dúvida, mais dados ao trabalho do que ao desporto. Aliás, nem outra coisa seria de admitir, se imaginarmos o esforço desenvolvido no dia-a-dia para alcançarem o milagre da transformação destas terras em oásis verdejante. Os tempos livres, quando os tinham, passavam-nos a cantar e a bailar, sobretudo aos fins-de-semana e no termo dos trabalhos agrícolas e outros, especialmente aquando do fabrico dos adobes nos areais da mata, na altura da cobertura da casa em construção, nas desmantadelas, nas rasgadelas de tiras para fabrico caseiro de mantas chamadas de farrapos, e noutros serviços que envolviam diversas pessoas. Desporto seria mais com os rapazes. Sem preocupações de praticar desporto oficial, os gafanhões limitavam-se a dar uns pontapés na bola, entre diversos jogos populares, como o pião e a macaca para os mais jovens, e o futebol e a malha para os mais espigadotes ou adultos. Claro que nas tabernas não faltava o jogo de cartas, mais concretamente a sueca. Mas isso são outras histórias a que um dia haveremos de voltar. Hoje ficamo-nos pelo Futebol que nos nossos dias arrasta milhões de pessoas e envolve somas astronómicas em todos os quadrantes da Terra. Lembramos, e com que saudades!, antigos clubes que há mais de seis décadas por aqui congregavam a juventude da Gafanha da Nazaré. E faziam-no com tal garra que ainda sentimos o entusiasmo com que os jogos eram aguardados e disputados. Referimo-nos, concretamente, à Associação Desportiva Gafanhense que tinha o seu quartel-general na Cale da Vila, à União Desportiva Gafanhense que cantava de galo na Cambeia, e ao Atlético Clube da Marinha Velha que, como o nome indica, se impunha no lugar que o baptizou. Mas não se julgue que só o Futebol foi rei nesse tempo. Também o Basquetebol e a Natação, mais sob a responsabilidade da Associação, por aqui se praticavam nessa data já um pouco distante da nossa meninice. O Futebol, esse sim, foi sempre o desporto favorito dos gafanhões e todas as tentativas para implantar outro qualquer saíam muitas vezes frustradas, com poucas mas muito dignas excepções. Mas continuemos a remexer nas gavetas da nossa memória, com a ajuda do tio João, para lembrar o que foram os jogos entre esses dois clubes rivais da nossa terra. Antes, porém, diga-se que a Associação tinha o seu campo de jogos nas areias da mata, na zona denominada das lebres (haveria, por ali, tantas lebres que se justificasse o baptismo?), em terra batida, como os outros campos existentes por aqui; o Atlético no campo da borda, onde presentemente está o porto de pesca costeira, com o moinho do tio Conde à vista, sujeitando-se os jogadores e a assistência a ver a bola fugir levada pela corrente, principalmente em hora de maré cheia, isto se entretanto um mais afoito não conseguisse salvá-la das águas salgadas, como tantas vezes presenciei; e a União aproveitava a cedência do campo do Forte que a JAPA (Junta Autónoma do Porto de Aveiro), actualmente APA (Administração do Porto de Aveiro) mandara construir ali bem perto do Forte Novo ou Castelo da Gafanha. Serviu, como as actuais gerações sabem, o Grupo Desportivo da Gafanha até 1983, embora, por falta de iluminação no novo complexo desportivo, os treinos nocturnos ali tivessem continuado durante cerca de dois anos.
FM :

FILARMÓNICA GAFANHENSE - 6

:
V – A Filarmónica Gafanhense não pode parar A Filarmónica Gafanhense não pode parar. Executaram-se várias reformas e houve melhorias nas partes melódicas, harmónicas, percussão e até visual. Entre 1985 a 1990, todo o instrumental foi substituído por novas aquisições, tendo por base o “Lamiré normal”. Em 2001, após convite formal, assumiu o cargo de director artístico o músico Arnaldo Manuel Seiça Ribeiro, da Gafanha de Aquém, freguesia de S. Salvador, Ílhavo, onde nasceu em 1957. Iniciou os seus estudos musicais de solfejo e clarinete em 1964, sob orientação de seu pai, músico executante de clarinete na Filarmónica Ilhavense. De 1965 a 1969, frequentou as classes de solfejo e acordeão, sob a orientação da professora Rosa da Silva Matos, participando, enquanto aluno desta professora, em espectáculos públicos, em diferentes localidades. Entre os anos de 1969 a 1971, integrou a Banda dos Bombeiros Voluntários de Ílhavo (Música Nova), como executante de clarinete, sob a direcção de Luís Catão. Em 1980, ingressa no Conservatório de Música de Aveiro “Calouste Gulbenkian”, na classe de piano e composição. Entre os anos de 1971 e 1999, integra grupos musicais de diferentes estilos, tendo efectuado diversos concertos por todo o País. Participou em vários festivais de música ligeira, como compositor e intérprete, tendo efectuado inúmeros registos, gravando discos e participando em espectáculos ao vivo, com cantores de música ligeira. Leccionou a disciplina de Expressão e Educação Musical no ensino oficial desde 1981, tendo sido professor titular da classe de Acordeão no Conservatório de Aveiro, entre 1986 a 1989. Em paralelo, tem desenvolvido funções pedagógicas nas áreas da formação musical, em piano, órgão e acordeão. Frequentou o Curso de Direcção de Bandas com o professor Robert Houlihan. A partir de Novembro de 2003, Fernando Manuel Tavares Lages, nascido a 18 de Junho de 1962, na Freguesia da Junqueira, Concelho de Vale de Cambra, assumiu a direcção artística da Filarmónica Gafanhense. Iniciou os seus estudos musicais na banda da sua terra, com 13 anos de idade, tendo ingressado na Banda de Música da então Região Militar Centro, sedeada em Coimbra, em 1979, aos 17 anos, como voluntário, onde permaneceu até 1982. Durante vários anos passou por outras bandas militares e em 1998 foi convidado a assumir a direcção artística da Banda Recreativa União Pinheirense, onde permaneceu durante quatro anos. Em 2002, frequentou o curso de direcção de banda orientado pelos professores Robert Houlihan, Adelino Mota e Carlos Marques. :

O Galafanha fica para a história

Este meu blogue vai continuar no ciberespaço para memória futura. Poderá sempre ser consultado. A partir de hoje, passarei a estar apen...