TECENDO A VIDA UMAS COISITAS – 336


POSTAL DO PORTO – 201 



FUMO… FUMO BRANCO! 

Caríssima/o: 

“Onde há fumo, há fogo!” 

Assim dizia o nosso povo, e sabia do que falava. A fogueira era uma constante e dominava a vida das nossas aldeias, dos nossos lugares e cantos, marcando as relações de vizinhança. O lume tinha de estar sempre aceso e, para poupar nos amorfos, o brasido mantinha-se por baixo da cinza, na certeza que na manhã seguinte, afastada a cinza e com uma forte sopradela, o fumo subia nos ares saído da chaminé. Quando as brasas se tinham apagado, forte contrariedade, ia-se a casa da vizinha pedir umas brasas acesas para reacender a fogueira. Não vamos pelo ritual, que se iniciava pelas bicas e pela busca de gravetos que aguentassem a fogueira. Nossas Mães esfalfavam-se a procurar, machadar e transportar à cabeça, raízes e ramos de ‘stramagueiras e outros arbustos das motas da Junta. Como a fartura não era nenhuma, a maior parte das vezes, esta lenha ia para a fogueira sem estar seca; a fumaça era tão densa que não se via nada dentro da cozinha e os olhos choravam… Não havendo chouriços para o fumeiro, eram as panelas e as traves do telhado que ficavam com a ‘cura’… 


Com a aproximação da Páscoa e a urgência de fabricar os folares, aquela busca da lenha era mais intensa; comprava-se uma ou outra acha para espevitar o lume e fazer um brasido e depois era a mesma fumarada negra que se dobrava sobre si mesma e envolvia as pessoas que estavam a chegar o lume. O forno sempre aquecia e cozia os folares! 

Cenas inimagináveis mas vividas e reais, como aquelas que os rapazes faziam ao assar as espigas no Esteiro. De fato, tudo começava pelo S. João e as fogueiras dessa noite santa. Poderíamos seguir na borda da Ria ou nas proas dos moliceiros e das bateiras e sentir o cheiro do caldo ou da caldeirada que, por encanto, o fumo deixava espalhar. 

E daquela outra vez que um brincalhão ateou fogo aos macios!? Era ouvir a sineta da Junta e os trabalhadores a correr com baldes para apagar e dominar o que nos parecia uma tragédia… 

E esta garotice transportava-nos aos tempos das coboiadas que líamos nas revistas de aventuras na barbearia do Hortênsio onde os índios faziam os sinais de fumo e comunicavam com as tribos amigas anunciando a chegada do inimigo e da guerra exterminadora. 

Desta feita, porém, muito se falou do fumo e muito se mirou e remirou a chaminé que, no início da noite, confrontou o Mundo com uma notícia de espanto: Habemus Papam! Francisco é! 

Manuel



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