TECENDO A VIDA UMAS COISITAS - 316

PITADAS DE SAL – 46 



ESTALEIROS DE BATEIRAS 


Caríssima/o: 

Falar de sal é evocar a vida; sal é vida. 

Para fabricar o sal a gigantesca roda da vida funcionava em pleno. Contemplar a faina dos nossos marnotos era um mergulho na mais extraordinária “colmeia”. O número de bateiras que se movimentavam para e pelas marinhas era incontável. Quem as construía? Onde? 
Podemos dizer que as margens da Ria eram um imenso, enorme estaleiro. Os navios tinham a sua zona, ali nos estaleiros Mónica e, mais tarde, em S. Jacinto (esqueçamos por momentos os estaleiros do Bico da Murtosa!). Para estes navios eram construídos dezenas de botes, nas “oficinas” das secas. Mas as bateiras, nasciam nos locais mais incríveis e depois eram levadas em carros de bois, em alegre cortejo, para o bota-abaixo no esteiro mais próximo. (Na freguesia do Monte, na Murtosa, há uma rua, a Rua dos Construtores Navais, de onde saíam bateiras em meados do século passado.) Do muito que se poderia escrever e carrear, apenas dois recortes. 

Primeiro, Gaspar Albino leva-nos até Aveiro, ao canal de S. Roque:



«Ainda me lembro bem do estaleiro do Tobias, na margem norte do canal de São Roque, mesmo ao pé da ponte dos Carcavelos, não esta de cimento, mas a outra, a de madeira, pela qual passei muitas vezes com a minha avó Guilhermina quando ela ia levar a “lavage” para alimentar, com vossa licença, o porco que se guardava num dos currais que por lá abundavam. 
Era neste estaleiro que se construíam embarcações da nossa Ria, principalmente caçadeiras, bateiras e mercantéis. E era lá, também, que as mesmas eram submetidas a reparações de manutenção: substituição de tábuas do costado e de cavernas mais abaladas, trabalho de calafeto e pintura com piche que, ainda em fresco, era coberto de serradura para garantir alguma abrasão e dificultar que se derretesse com as temperaturas mais elevadas de verão. 
Tenho saudades do tempo em que a margem sul do canal de São Roque era um extenso estaleiro, onde as bateiras eram postas de carena para facilitar os pequenos arranjos que os seus donos, eles mesmos, executavam, ajudando-se uns aos outros.» 

Nos nossos dias, Etelvina Almeida conduz-nos à vizinha Gafanha do Carmo: 

«A 16 de Novembro de 2010, o carpinteiro Victor Domingues, conhecido por Caneira, da Gafanha do Carmo, iniciou a construção de uma bateira caçadeira, uma embarcação tradicional da ria de Aveiro. 
As actuais bateiras, tipo caçadeira, que se vêm pela ria têm mais de 6 metros de comprimento, no entanto esta embarcação que está em construção não excede os 6 metros, a medida das antigas caçadeiras. 
Esta embarcação está a ser construída em madeira de pinho, a madeira que sempre se usou na construção das embarcações tradicionais da Ria.»

Não podemos estender-nos muito, mas nestas coisas seria injusto não deixar uma palavra à Ribeira da Aldeia, de Pardilhó…

Manuel
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