Onde estavas no 25 de Abril?

Onde estavas no 25 de Abril? Esta pergunta, que Baptista-Bastos fixou sobre a revolução dos cravos, baila muito na minha cabeça. Também eu me questiono com ela, quando o 25 de Abril vem. E afinal onde estava, realmente? Quando a liberdade veio, com a força para muitos de nós desconhecida, tinha eu já 35 anos. Na manhã desse dia, levantei-me sem saber de nada. Como a grande maioria dos portugueses. Estava destacado, profissionalmente, para uma tarefa do Ministério da Educação, ao tempo chefiado por Veiga Simão. Animava bibliotecas populares e outras, promovia e apoiava cursos de adultos, dinamizava instituições de cultura e recreio, formava bibliotecários e preparava professores para a difícil missão de ensinar gente crescida a ler e a escrever. Gostava muito do que fazia. Nesse dia, o concelho de Sever do Vouga estava na agenda. Saí de casa e meti gasolina na Cale da Vila. Nesse ínterim, liguei o rádio portátil para ouvir as notícias. Perplexo, achei estranho sentir o rádio confuso. Avaria? Não. Uma voz anunciava o que estava a passar-se em Lisboa. Na mesma bomba de gasolina, a Sílvia Cachim, esposa do amigo José Manuel Saraiva, com o seu bebé no carro, dirigia-se para a escola, para mais um dia de trabalho. Através do rádio, percebi bem o conselho. Com um movimento de tropas na rua, e porque não desejavam derramamento de sangue, os chefes aconselhavam as pessoas a ficar em casa. A Sílvia estava como eu. De nada sabia. E seguiu para a sua escola. A paz à minha volta, com gente que se dirigia para os seus empregos, disse-me para prosseguir, rumo a Sever do Vouga. Curvas e contra-curvas, não era como agora, em que se atinge o destino num esfregar d’olhos. Na freguesia de Paradela, talvez por volta das 9.30 horas. A colega, D. Irene, grávida mas sorridente, recebeu-me na escola à beira de sua casa. Disse-lhe o que se passava e ela admirada e preocupada correu para o telefone, para falar com o marido, o agora major Rocha, meu conhecido e amigo, que estava no quartel. Contacto impossível. Inquietação a marcar o rosto da colega Irene. Depois de uma prelecção aos seus alunos, o almoço numa pensão com café, em Sever. Penso que Belavista. Na hora da bica todos os olhares fixos na RTP que se apresentava muda e queda. O rádio, idem. Militares que procediam a estudos e a medidas topográficas na serra, atentos como nós. Sabiam tanto como o comum dos mortais. Mais uma bica, depois o lanche, quando um militar, julgo que o capitão Durand, tentou, mais para o fim da tarde, ler um comunicado. Era interrompido com cortes na hora de falar. Boicote de técnicos da TV, soube-se depois. Veio o fim do dia. Visita ao curso de adultos em Rocas do Vouga. Eu e o professor Evaristo bem esperámos pelos alunos. Mas nada. Eles seguiram o conselho dos militares. Não saíram de casa. E a aula não aconteceu. À noite, em casa, a minha família e uns vizinhos esperámos pelas novas. A Junta de Salvação Nacional, a passo lento, surgiu nos corredores da RTP até aos estúdios. Rostos fechados, mas serenos, dos escolhidos pelo capitães de Abril. E a liberdade foi anunciada. Não conheci ninguém que não rejubilasse nesse dia. E depois nos dias que se seguiram. 25 de Abril de 2009, 35 anos depois. Fernando Martins

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