GAFANHA: Coisas de antigamente – 1

:Jardim e esteiro Oudinot de outros tempos
Há séculos o mar por aqui cirandava
Qualquer gafanhão que se preze e que da Gafanha procure saber o mínimo não ignora que há séculos o mar por aqui cirandava e que estes areais, agora férteis, foram construídos pouco a pouco pelos aluviões do Vouga e pelas ofertas das correntes marinhas. Aluviões e areias brancas, com anos e paciência da natureza, formam hoje rincão apetecido, não tanto por lavradores, que esses, a cair em desuso, deram lugar a industriais e comerciantes. Agora o apetite vem mais de quem tem dinheiro para construir e investir, quer em habitação própria, quer em espaços comerciais e industriais. A agricultura, essa ficará para as horas de folga ou para servir de complemento à economia doméstica de operários e pequenos comerciantes e industriais. E já não será muito mau, nestes tempos em que, por exigências da UE, só os grandes agricultores terão hipóteses de sobreviver. Mas quem nos nossos dias aprecia os campos ainda verdejantes da Gafanha, embora aqui e ali não faltem campos abandonados, talvez longe esteja de pensar que há uns três século o verde tinha custado muito suor e lágrimas a implantar. Podemos mesmo dizer que a vida dos primeiros gafanhões constituiu odisseia muito pouco apreciada e até às vezes denegrida por pseudo-intelectuais da vizinhança. Têm procurado eles rir-se da simplicidade dos gafanhões mais antigos, da sua pouca cultura académica ou livresca e dos seus parcos conhecimentos de vida em sociedade. Hoje já não será assim, mas ainda restam vestígios dessa maneira de ver os gafanhões. Os gafanhões das novas gerações têm sabido impor-se com muita inteligência e dignidade, porque aprenderam com os seus avós a vencer dificuldades e a demonstrar, pelo progresso que souberam construir, que são gente de valor. A Gafanha aí está para o demonstrar. Os gafanhões das últimas décadas orgulham-se dos seus antepassados e apreciam as suas extraordinárias capacidades de trabalho e de perseverança, o seu espírito de poupança, o seu apego à terra, a sua humildade e determinação. E os que ao longo do tempo aqui se radicaram e misturaram com os primeiros também souberam, duma maneira geral, aceitar e viver o mesmo estilo de vida. São hoje tão gafanhões como os que de Vagos e Mira, sobretudo, para aqui vieram. O povo que se instalou na Gafanha era gente pobre. Foi no século XVII que os primeiros, como caseiros, começaram a agricultar estes areais. Acossados certamente pela fome, no dizer do Padre João Vieira Rezende, procuraram melhores condições de vida. As areias não os assustaram, já que a elas andavam de certo modo habituados. A instalação não deve ter sido difícil. Era gente não muito exigente e com grande capacidade de sacrifício e de adaptação. As casas de habitação eram modestíssimas. De madeira ou de barro amassado com felga, limitar-se-iam à cozinha e a um ou outro compartimento que servia de quarto de dormir. As camas seriam esteiras ou pobres enxergas estendidas sobre bicas ou junco. Outras divisões e comodidades só muito mais tarde. Mas deixemos hoje estas coisas, aliás curiosas, e falemos da agricultura dos gafanhões dos fins do século XIX. Dos outros pouco reza a história. Terra para cavar não lhes faltava e vontade de a fazer produzir também não. A ria logo os atraiu, não tanto para a aventura da pesca, mas para o aproveitamento do que ela de mão beijada lhes oferecia: o moliço. Rapado na borda por ancinhos de dentes de madeira, lá ia curtir nos areais à espera da hora das sementeiras. Na MONOGRAFIA DA GAFANHA, o padre Rezende sublinha a riqueza do moliço, constituído por limos, sibarro, sirgo, seba, folhada ou alface do mar, fita gorga e rabos ou rabão. Diz também que a seba e a fita desapareceram desde a Cambeia até à Murraceira com as obras da Barra em 1936. Este estrume verde constituía, pela sua composição orgânica e química, um precioso adubo que muito ajudou na transformação destas areias improdutivas em espaços verdejantes. Acrescenta o Padre Rezende que “nos sapais das praias de cabeço, também abundavam a junça, a bajunça e, mais para o seco, o junco e o feno, que subministravam bela cama para os estábulos e que, fermentados com os excrementos dos animais, fornecem por sua vez um óptimo adubo que, diga-se de passagem, por muito tempo era mal apreciado e se ia vender às ribeiras de Vagos, de Aradas, de Salreu e do Boco. Outro tanto acontecia às cinzas do borralho”. Claro que estes adubos naturais logo deixaram de ser vendidos para serem utilizados pelos gafanhões. As cinzas, por exemplo, eram empregadas como fertilizantes de cebolas e alhos. Em 1927 fizeram-se as primeiras experiências de adubações químicas, com bons resultados. Entretanto o medo da água da ria deu lugar à aventura do moliceiro e da bateira. “A maré está feita – diz de forma poética o Padre Rezende, nosso cicerone, neste como noutros trabalhos – e o barco começa a adernar. O sol aproxima‑se do zénite e os estômagos latejam em vão, estão vazios. O José da Luz, de ceroulas curtas, camisa de estopa, e de careca tisnada pelos raios solares, com os filhos impando de mocidade, olha sofregamente para a pequena cozinha voltada para a Ria, aguado pelas batatas e pela sardinha, e às vezes pelo carnêro... que a Luz lá lhes preparara. As telhas da choupana já não fumegam, o que é sinal certo de que o repasto já espera os laboriosos moliceiros. Duas bombadas de vertedoiro a aliviar o barco da água escorrida do moliço e... ala para a fossa ou para a borda”. E como era a alimentação desta gente que se casou com os areais e com a ria para deles viver? Pasmem os que, nos nossos dias, têm tudo à mesa e a todas as horas e em abundância. Salienta o nosso cicerone: “A alimentação média, diária e habitual de cada família de seis pessoas, é a seguinte: ao almoço somente broa; ao meio-dia (jantar) caldo com ou sem carne; à noite (ceia) dois quilos de batatas inteiras ou cortadas, com ou sem peixe, a que se adiciona algumas vezes cebola com algumas gotas de azeite. Muitas vezes a ceia é caldo que cresceu do jantar, ou papas condimentadas com feijão e carolo de milho, cozidos no caldo que ficou do jantar. Esta família gasta diariamente três a três quilos e meio de broa. O vinho raramente aparece às refeições”. O carolo era feito na mó manual. E que cultivavam? Diz Amorim Girão que, aproveitando a “fertilidade do solo e os adubos que a Ria lhes ministrava, se cultiva a batata, feijão, milho, centeio e algum vinho, este, porém, de inferior qualidade”. O grande etnógrafo Leite de Vasconcelos diz que “se dá tal apreço à batata gafanhense, que no mercado todos a preferem à de outros sítios”. E citando o Padre Rezende, o mesmo sábio etnógrafo salienta que não só as batatas eram vendidas, mas também outros produtos. “Aos domingos vê-se uma verdadeira flotilha de barcos moliceiros no cais da cidade, que no sábado à tarde ali chegam das margens de todas as Gafanhas carregados desses géneros. Com o produto da venda acode-se a despesas miúdas de primeira necessidade (comestíveis, etc.). Em casos de maior vulto (compra de adubos, lenhas, transacções de gado, etc.) recorre-se à venda por atacado dos mesmos géneros a negociantes revendedores”.
Fernando Martins
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